Na semana em que relembramos a abolição inconclusa do Brasil – último país do mundo a proibir a escravidão de pessoas negras, o Nós faz uma seleção especial de filmes do Oscar de 2021 que levantam importantes questões raciais, e que estão disponíveis em plataformas digitais (não gratuitas, infelizmente). Vale a pena assistir e refletir!

Abolicionismo penal

O conceito parece complicado mas, na verdade, trata-se de uma teoria criminológica que aponta como o sistema prisional, tal qual está organizado, é uma forma de manter pessoas negras reclusas e sem liberdade, tal como no período escravocrata.

O documentário “Time” (PrimeVideo), além de ser muito bonito e sensível, faz uma crítica ao encarceramento nos Estados Unidos, ao contar a história da abolicionista Fox Rich ao longo de mais de vinte anos de luta pela liberdade de seu marido.

No Brasil, cerca de 64% da população carcerária é negra. Ativistas e militantes abolicionistas penais defendem que outras formas de condenação sejam aplicadas. Recomendo consultar o trabalho de Juliana Borges sobre o tema.

Cena do documentário “Time”.

Crédito: Reprodução

Guerra às drogas

A indignação que sentimos com as constantes mortes que acontecem nas favelas, incluindo as recentes durante a chacina em Jacarezinho (RJ), nos mostram que a violência não resolve o problema das drogas.

Ativistas e pesquisadores indicam que o racismo estrutural naturaliza operações e prisões de pessoas negras, muitas vezes arbitrárias, com o argumento de que é necessário inibir o tráfico. Vale acompanhar a campanha Drogas: quanto custa proibir.

O filme Estados Unidos Vs Billie Holiday (PrimeVideo) retrata a famosa cantora de jazz,  no auge de sua carreira. No entanto, a autora da canção-denúncia “Strange fuit” se torna alvo do Departamento Federal de Narcóticos, que a incrimina devido seu vício em heroína. A atriz Andra Day foi indicada ao prêmio de melhor atriz.

Racismo como política de Estado

Durante o período de luta pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos, entre os anos 50 e 70 do século XX, o serviço de inteligência secreta – o famoso FBI – perseguiu ativistas, movimentos e organizações políticas.

O filme “Judas e o Messias Negro” (Apple TV, Google Play) mostra a história real de William O’Neal, que se infiltra no Partido dos Panteras Negras para reunir informações sobre o líder Fred Hampton. Indicado em cinco categorias, o filme levou o Oscar por Daniel Kaluuya como ator coadjuvante, e da cantora H.E.R, de melhor canção original por “Fight for you”.

A crítica à polícia, enquanto instituição que representa a violência do Estado contra negros, também aparece nos curta-metragens “Uma canção para Latasha” (Netflix), uma homenagem à adolescente de 15 anos, assassinada por causa de um suco de laranja de $1,79 doláres, cuja morte motivou o início de uma série de protestos, fortemente combatidos pela polícia de Los Angeles, em 1992.

E o curta-metragem vencedor, “Dois estranhos” (Netflix), acompanha um dia que estranhamente se repete na vida de um jovem negro perseguido por um policial. Uma ficção mais real do que a gente gostaria…

Cena do curta-metragem “Dois estranhos”.

Crédito: Reprodução/Netflix

… bônus

Antes ou depois da sessão de filme, corre para se inscrever no curso “Cidade das Mulheres”, realização da Iniciativa Brasilianas e Prefeitura de São Paulo com formação introdutória sobre mulheres, política e políticas públicas. O programa abordará questões sociais, políticas e econômicas que permeiam a realidade das mulheres brasileiras e paulistanas. 

O curso ocorre em maio e junho de 2021, de forma online. Com carga horária total de 20 horas, haverá emissão de certificado. As inscrições podem ser feitas até domingo, dia 16 de maio, por este formulário, e as aulas começam na segunda-feira. 


O Nós, mulheres da periferia está com uma campanha de financiamento recorrente no Catarse. Apoie o jornalismo independente feito por mulheres, apoie o Nós. Acesse catarse.me/nosmulheresdaperiferia para fazer parte da nossa comunidade.

 

 

Temas:

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.