Dias perfeitos: o contraste entre mulheres e homens na lida com as emoções

Contém spoiler – do filme e das armadilhas do patriarcado

Por Renata Penzani

17|04|2024

Alterado em 17|04|2024

Escrever um relato sobre Dias perfeitos (Japão/Alemanha, 2023), de Wim Wenders, dois meses depois de sua estreia no Brasil – e um mês depois de sua passagem praticamente ignorada pelo Oscar 2024 – pode ser um gesto coerente com o próprio filme, que vai na contramão da aceleração produtivista para fazer uma defesa do tempo largo, um elogio à lentidão. Escrever não só sobre, mas escrever com parece ser o jeito de captar alguma brecha desse haicai visual sobre o valor da percepção. Para os espectadores lentos, como eu, o filme segue no cinema, e, desde o dia 12 de abril, está também no Mubi.

Antes de continuar o texto, um detalhe que muda tudo (e porque, segundo Guimarães Rosa, “deus está nos detalhes”): o título de Dias perfeitos (nome inspirado em uma canção de Lou Reed, Perfect day), em japonês é Komorebi, uma palavra que nomeia os raios de sol ou feixes de luz que aparecem entre as folhagens das árvores.

Wim Wenders declarou à Slant Magazine que esse filme é o mais próximo de “uma declaração pela paz” já feita por ele. Não deixa de ser curioso que o protagonista escolhido para ser o rosto desse manifesto pacífico seja um homem. Com a ressalva de ser um homem oriental, sim, e por isso talvez culturalmente mais atento ao valor do tempo e das experiências extracapitalistas, ainda que habitante de uma metrópole como Tóquio. De qualquer modo, um homem, em um mundo cravejado de balas e guerras disparadas fundamentalmente por outros homens. “Hirayama é um verdadeiro pacificador. Ele é meu primeiro herói da paz de verdade”, disse o diretor.

Vislumbrar outra história dentro desta pode ser um mero exercício de retórica criativa; que seja, então. Imaginar move as correntes do pensamento único.

Como seria a trama caso ela fosse protagonizada por uma mulher? Naturalmente, seria um outro filme, e não este. Toda criação é um recorte, e, na mesma proporção, uma obra aberta.

Considerando que o longa retrata o interesse do diretor em documentar banheiros públicos (especificamente, a engenhosa arquitetura dos sanitários da capital japonesa), nós, espectadores brasileiros, podemos imaginar um cenário diferente. Como se transformaria uma história como essa se contada por aquelas que são majoritariamente responsáveis pela limpeza, não só em contextos públicos, mas domésticos e privados também?

Se acrescentássemos a essa personagem inventada a imensa carta de responsabilidades que comumente sobrecarregam mulheres – funções domésticas, filhos, cuidar de outros familiares, jornadas duplas e triplas, sem contar a sobrecarga mental do trabalho imaterial –, aí então seria uma narrativa totalmente outra. Mas voltemos concretamente ao filme.

Os contrastes das imperfeições

Observando, com o detalhe do recorte, os homens e as mulheres da produção, é possível perceber um grande contraste – que acaba sendo tão ou mais marcado que aquele provocado pela dualidade central, entre o tecnológico e o analógico, afinal, o protagonista é um homem que conhece com intimidade a árvore do parque onde almoça todos os dias, e não faz nenhuma questão de conhecer a torre de difusão mais alta do mundo, ironicamente chamada Tokyo Skytree. Alturas analógicas, no lugar de arranha-céus.

Os homens de Dias perfeitos são vagos, distantes, lacônicos, omissos, e indicam não saber – aparentemente, não querer? – lidar com sentimentos difíceis.

Do protagonista, não conhecemos muitos aspectos sentimentais além do fato de que se emociona com detalhes da natureza. Já as mulheres são a própria imagem de quem procura aproximação e abertura. Esse movimento é expresso em pelo menos quatro personagens femininas. Primeiramente, na cozinheira Mama e na amiga de Takashi (Tokio Emoto), seu ajudante de trabalho, Aya (Aoi Yamada). Ambas com a tarefa inglória de interpretar o afeto alheio, e agir enquanto os homens ficam na inação. Mas, principalmente, na irmã de Hirayama (interpretado por Koji Yakusho, vencedor do Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Cannes de 2023), Keiko (interpretada por Yumi Asô) e sua filha, Niko (Arisa Nakano).

Logo na primeira cena dos dois – que, não por acaso, simboliza um momento de ruptura no cotidiano monocórdico do tio – a sobrinha é quem vai até ele, quebrando o ciclo de distanciamento. “Por que você demorou tanto?”, ela diz, referindo-se às horas que passou sentada em frente à casa do tio, mas também aos anos que ele passou afastado.

Em outra cena, Hirayama saca sua câmera analógica para registrar a luz na copa das árvores, percebe que a sobrinha tem uma igual e expressa surpresa diante da suposta coincidência. Porém, ela o corrige: “Foi você quem me deu”. “Ah, claro”, ele responde. Ela sabe que ele está fingindo lembrar, e ri como se achasse graça de uma atitude conhecida. Como acontece frequentemente nas relações sob o patriarcado, os homens podem se esquivar de estar consciente do seu entorno. Em sua escolha e possibilidade de não se ocupar do cuidado alheio, a omissão é um atitude possível. Seja no papel de tio, irmão e filho – como no caso do personagem de Wenders – quanto na função de pai, companheiro ou parceiro de trabalho, homens pautados são aqueles que têm a escolha de não estarem a par do que verdadeiramente acontece.

O abismo das relações fica mais evidente nos dias que ele passa com Niko, uma adolescente que fugiu de casa após se desentender com a mãe. O convívio dos dois, mesmo que propositadamente breve, permite ao espectador perceber uma sequência de comportamentos contrastados. As fitas cassete do tio e o Spotify da menina, as perguntas concretas dela e as respostas abertas dele, o interesse pela novidade dela e o cultivo da repetição dele. E poderíamos ir além, na observação dos livros, na ausência de celular ou dispositivos eletrônicos, no modo metódico de levar o dia a dia, tudo isso em oposição à experiência analógica (e antropológica) da sobrinha visitando um universo contrário ao seu.

A masculinidade emocionalmente distante de Dias perfeitos

O que salta à vista, em uma leitura pela diferença entre as mulheres e os homens, é a dimensão familiar, diretamente relacionada ao cuidado historicamente atribuído às mulheres. O estoicismo do personagem Hirayama, que elabora sua experiência subjetiva de forma silenciosa e alienada do outro, parece ser não só um traço cultural, mas estar a serviço também de uma desigualdade de gênero que se reflete nas dinâmicas estabelecidas.

Hirayama é apresentado não só como alguém que busca ver a beleza comprimida nas brechas da rotina, mas como um sujeito que se refugia nessa outra dimensão. Assim, o contato com o mundo natural parece ser não só uma prática contemplativa comovente (o que de fato é, também), mas uma escolha de fuga, uma demonstração de recusa em lidar com as questões emocionais. Em outras palavras, o filme abarca, sim, a procura por lampejos de iluminação em um sistema de vida que aprisiona nossos sentidos. Porém, fixar-se nessa interpretação talvez desperdice um potencial crítico que as relações ali colocadas suscitam. Enxergar no protagonista uma figura comovente, em busca de uma poesia tão necessária à sobrevivência da subjetividade, não nos impede de perceber, além disso, sua distância como uma armadilha cultural.

Além disso, cabe supor que a manutenção de um dia a dia como o que o filme traz só é possível por Hirayama ser um homem solitário, com pouca ou nenhuma responsabilidade afetiva para dar conta. Até mesmo a sua alimentação diária parece estar terceirizada e reduzida ao café enlatado fornecido por uma máquina automática, e aos mesmos estabelecimentos frequentados regularmente. Em um deles, ele é servido por Mama (vivida por Sayuri Ishikawa), personagem importante nesse contexto, já que sugere um interesse amoroso não resolvido.

Há uma abordagem conhecida na educação, a Pedagogia da Escuta, fundada nos aprendizados do professor italiano Loris Malaguzzi no pós Segunda Guerra Mundial e adotada em diversas escolas contemporâneas. Nessa linha de pensamento, para que a criança aprenda, não precisa haver sofisticação nos espaços, mas sim nas relações. Para o personagem de Wim Wenders, parece ser, em boa medida, o contrário: ele precisa menos das relações que do espaço onde vive, e cuida para ter à sua volta um ambiente quase inanimado, com exceção das plantas, esvaziado de pessoas que fossem capazes de enxergá-lo de volta. Uma inversão de posições que parece contraditória ou pelo menos ambígua, já que o personagem parece estar a todo tempo disposto a nutrir beleza de variados tipos, como as mudas que ele recolhe do parque e rega todas as manhãs.

Existe ainda uma questão de classe social bem evidenciada no enredo. Quem assiste, não ganha muitos detalhes para compor a história inteira, mas o detalhe é suficiente: em algum momento de sua vida adulta anterior ao momento em que o enredo se passa, Hirayama resolveu romper com a família, que possui uma posição financeira confortável e diferente da sua, que vive modestamente em um pequeno sobrado sem banheiro. Seu pai, que já não está em boa saúde, vive em uma casa para idosos. O reencontro com a irmã e a sobrinha causam sentimentos ambíguos, que cobram o peso da sua decisão.

Além disso, estamos falando de Japão, um país estruturado em uma distribuição de renda e emprego que, se não é como deveria ser, está muito distante da brasileira – de acordo com a OECD Better Life Index, 77% das pessoas entre 15 e 64 anos têm remuneração fixa. De qualquer forma, não deixa de ser contrastante o fato exposto no filme, o de que um trabalhador idoso seja o responsável pela limpeza manual de sanitários altamente tecnológicos. Assim, ainda que o personagem principal seja um trabalhador terceirizado que vive à margem do grande capital, ele pode ter tanto acesso à cultura a ponto de valorizá-lo como um bem humano inalienável.

Hirayama vive só, e seu trabalho não exige grandes interações pessoais. Mesmo com aqueles que convive, fala pouco. Essa economia de linguagem se reflete na economia das relações. Os afetos do personagem parecem atrelados a um compromisso com a rotina – há beleza na consistência com que cada gesto cotidiano é repetido. Entre música, livros e fotografia, está a invenção de seus dias perfeitos. E, na perfeição, sua própria natureza de ficção. Há diversas cenas que confirmam a oscilação entre o riso e a tristeza, a satisfação e o incômodo, como naquelas em que o personagem está dirigindo até o trabalho, entre letras de canções poéticas e o exterior cinzento, poluído e populoso de Tóquio.

As pessoas, quando entram em cena, acabam representando uma quebra do dia a dia que o personagem se esforça por viver, imerso em uma tentativa de perfeição controlada, o que é por si só uma dupla ilusão. Os outros parecem ser um atravessamento negativo (aspecto que talvez seja um velho conhecido em famílias disfuncionais), enquanto as experiências com a natureza e a cultura são atravessamentos positivos, que nutrem seu fôlego para viver o dia seguinte.

Não que o roteiro precisasse dar conta desse aspecto, já que não se propõe a isso, mas há uma espécie de redenção pela mudança de perspectiva no final – ao menos, sugerida. E isso acontece, não por acaso, entre dois homens. Ao flagrar um abraço de Mama com seu ex-marido, Hirayama aparece na cena seguinte comprando uma porção de cervejas e um maço de cigarros, algo distoante em sua rotina ultra metódica. Tudo indica que será uma noite de mágoas reprimidas por exageros, mas o desenrolar das coisas surpreende o personagem, que é procurado pelo ex-marido. Então, ele conta só ter voltado para rever a companheira de tantos anos e contar a ela que está com seus dias contados.

O confronto com a finitude alheia parece dar a Hirayama um outro ponto de vista, e, a partir daí, o espectador fica com duas das cenas mais interessantes do filme, a brincadeira compartilhada entre os dois homens depois da intimidade trocada, e o desfecho, com Nina Simone anunciando pelo rádio que “é uma nova vida”.

Cogitar interpretar um final absoluto para uma trama de tantas camadas seria não só um esforço improdutivo, mas também irrelevante. Interessa muito mais as imagens que ficam, em uma narrativa que escolhe focar em um homem para afirmar a vida. Um homem e sua sensibilidade tão deslocada quanto limitada pela indisponibilidade que ele próprio coloca. Homens em sua dimensão emocional reprimida. São eles quem mais precisam desse olhar, considerando quem são os maiores estatisticamente responsáveis por tirar vidas, incitar violências e promover conflitos geopolíticos? E as mulheres?

A história e a História podem até se refazer por gestos de repetição, desde que sejam capazes de perceber a si mesmos. “repetir, repetir, até ficar diferente”, ensinava o poeta Manoel de Barros. Talvez, o personagem de Dias perfeitos repetisse para continuar o mesmo, mas, do lado de cá da tela, a vida sempre trará a diferença. Por mais comando que se busque ter, a rotina acontece em repetições de descontrole, e disso sabem muito bem as mulheres.