Suas mãos sempre foram grossas e ásperas dos produtos de limpeza, que usava diariamente no trabalho como empregada doméstica.  Na verdade, quando era questionada sobre qual profissão exercia, dizia: “trabalho em casa de família”. E, assim, cuidando da casa da família dos outros, minha mãe, Djanira Pedrina Manoel, junto ao meu pai, sustentou os cinco filhos.
Suas mãos, apesar de rudes, sempre traziam unhas bem feitas e pintadas por esmalte. A vaidade, entretanto, não a impedia de ser daquelas que, se precisar, trocava cano, desentupia pia, carregava cimento, bloco e capinava quintal.
Lembro que em casa eu ficava impressionada com o jeito como com seus punhos firmes torcia as calças jeans, que, após o ato de esforço, ficavam sequinhas. Isso em uma época em que máquina de lavar era item de luxo ostentado na casa da patroa. Pobre só tinha tanquinho e olhe lá.
Nos fins de semana de descanso, enchia três varais de roupa, fazia comida, passava. Ainda assim, nunca conseguia ter energia suficiente para deixar a casa tão limpa quanto a da patroa.

Créditos: Danilo Cattani (Flickr)

Crédito: Danilo Cattani (Flickr)


Minha mãe saia cedo, voltava tarde e durante toda a semana era essa sua rotina.
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Quando se separou do meu pai – com filhos ainda pequenos – teve que aguentar a barra sozinha. E foi limpando a casa dos outros que nos educou e nos alimentou.
Lembro-me, quando criança, da ansiedade que tínhamos esperando sua chegada do serviço. Ficávamos sozinhos em casa, os maiores cuidavam dos menores. Quando a chave da porta de vidro da sala girava, apontando a chegada dela, era o momento de emoção do dia.
Sempre perguntávamos se ela tinha trazido alguma coisa da dona Maria Luiza, patroa da minha mãe por cerca de cinco anos. Olhávamos suas mãos e já íamos pegando a bolsa pra ver se tinha algo novo.
Às vezes ela trazia roupas. Até o cheiro era diferente das nossas. Vinham uniformes do colégio particular, roupas de marca que as filhas dela não queriam mais. Era uma festa para as maiores, que sempre tinham a sorte de as roupas servirem.
Quando não era de vestir, era de comer. Sempre vinha com um pote de alguma comida, que geralmente completava nossa janta. Experimentei strogonoff de filé mignon pela primeira vez assim, vindo nessas marmitas.
Alegria também era quando ela nos levava para o trabalho. Na minha vez, lembro que a acompanhava enquanto ela ia limpando os cômodos. Nessa casa, minha mãe trabalhou um bom período sem registro. Quando conseguiu, comemorou. Depois de anos foi dispensada porque os negócios da patroa não iam bem. Aí arrumou outro, e depois outro, mais sempre frisava que nenhum superava o salário e benefícios dos pagos pela dona Maria Luzia.
Tinha orgulho de pegar uma casa suja e horas depois estar tudo impecavelmente limpo. Sua boa relação com suas patroas, na maioria das vezes, acaba a tornando confidente.
Já ouvi minha mãe reclamar da quantidade de serviço, do esforço que fazia para lavar as janelas do lado de fora de um prédio de muitos andares e do perigo que isso representava. De ter que aguentar desaforo do filho dos outros. E, quando chegava em casa para a segunda jornada, já estava esgotada.
Teve que engolir muita coisa, mas nunca levou desaforo para casa. Talvez por isso e pelo cansaço optou pelo trabalho como diarista. E assim se sustenta até hoje. Assume a informalidade, mas se preocupa com a aposentadoria. Apesar disso, gosta de cada dia estar em uma casa diferente, conhecer pessoas novas. Como boa diarista que é, leva um dia de cada vez e lida com o destino de forma leve. Seu lema sempre foi: “não esquentar a cabeça”.
Ela, que cursou somente até a quarta série, sempre dizia que tínhamos que estudar. Não pôde nos ajudar no pagamento dos estudos, mas sempre tivemos roupa lavada, passada e comida pronta, além do exemplo de garra e coragem para correr atrás.
Liguei para ela para confirmar algumas informações e se havia alguma imprecisão no texto para tentar dar um fim a esta historia. Confirmei alguns dados, ela resgatou sua infância, e descobri que desde criança já exercia essa função. Tentou lembrar outras coisas e, entre risos nervosos, logo as lágrimas vieram. “Bianca, você quer me fazer chorar?”. Prendi na garganta o meu e disse: “Tudo bem mãe, você não precisa dizer mais nada”.