Nascida na cidade de Atibaia, interior de São Paulo, aos quatro anos de idade Luzia Aparecida se mudou com sua família para o bairro de Perus, extremo norte da capital paulista, onde descobriu, ensinando as árvores, que seu grande sonho era se tornar professora. Dos 61 anos vividos, 20 deles foram dedicados ao ensino de crianças no ensino fundamental, sempre em escolas das periferias de São Paulo. Conheça abaixo sua história.

Luzia Aparecida quando criança | Arquivo pessoal

Luzia Aparecida quando criança | Arquivo pessoal


Quando Luzia chegou em Perus, o bairro de ares interioranos ainda não tinha nem metade da população que possui hoje (quase 84 mil pessoas) e apenas uma escola para todas as crianças. “Nós morávamos em uma chácara afastada do centro de Perus, bem distante do Grupo Escolar Dona Suzana de Campos, a única escola do bairro. Eu tinha que caminhar mais ou menos 1Km para chegar até lá. E fazia esse trajeto todos os dias, sozinha, já que meus irmãos eram pequenos e minha mãe tinha que cuidar deles”.
A vontade de estudar ultrapassava seus medos. Ela tinha apenas 8 anos, cinco irmãos e um sem número de árvores que rodeavam a casa de pau a pique na beira da estrada do Pinheirinho. A garota, que morava numa chácara muito afastada das outras, não tinha muitas amigas nesse tempo. O brincar era solitário e o fazer de contas a única saída. Era ali, na relva rala atrás da casa, que as árvores, todas enfileiradas, se tornavam as alunas que ela sonhava ter. “Eu ficava observando a professora escrever na lousa, apagar a lousa, corrigir os cadernos, organizar a fila dos alunos e eu fazia imitava em casa. Nós éramos muito humildes, não tínhamos brinquedos e o negócio era inventar as brincadeiras”.
O tempo foi passando, a família construiu uma nova casa no mesmo bairro. Era preciso ajudar o pai e a mãe e ir para a escola era considerado um “artigo de luxo”. Seu pai, Seu Sebastião, não aceitava o fato da filha mais nova querer estudar. Afinal, para um homem daquela época, mulher tinha que casar, cuidar de casa e dos filhos.
Mas Luzia resistiu. Mesmo em meio às dificuldades, ela enfrentou o pai, as ruas escuras e as distâncias de casa até a escola de ensino fundamental; até a escola de ensino médio e, mais tarde, até a faculdade. “Eu trabalhava durante o dia e estudava à noite, enfrentando muitos obstáculos, entre eles dormir pouco, sentir fome, o trem que sempre atrasava, a caminhada durante uma hora pelas ruas escuras”.
Evasão e o medo do escuro
Assim que saiu do ensino primário (antiga primeira etapa do ensino fundamental), aos 13, Luzia não tinha dinheiro para bancar os livros que o ginásio (ensino fundamental II) exigia. Foi trabalhar na residência de uma família, onde organizava  e lavava a louça. Durante um ano conseguiu trabalhar, comprar o material didático que precisava e ainda cursar a quinta série à noite.
Na época, bem próximo à escola, se iniciava a construção da Rodovia Bandeirantes, onde uma menina havia sido estuprada, o que gerava medo nas outras adolescentes. “Eu fui evadindo. Como eu tinha que ir sozinha, quase ninguém estudava à noite, não havia companhia pra votar pra casa e a gente saía às 23h. Tive medo e fiquei em casa durante uns dois anos sem estudar”.
Trabalho x Escola 
No entanto, ela não tinha receio de sair para trabalhar, já que dava para voltar mais cedo. Iniciou um novo trabalho como auxiliar de escritório no Bom Retiro. Mas o sonho de terminar os estudos continuava a acompanhando. E aos 16 anos voltou para a escola para terminar o ensino fundamental.
“Mas era longe do trabalho, os professores faltavam muito, eu ficava muito cansada, estava desmotivada. Parei de novo. E depois de uns meses resolvi pagar o supletivo em um colégio particular na Lapa até os 20 anos, quando finalizei o ensino médio”.
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Luzia com uma de suas alunas | Arquivo pessoal


A vontade era a de já engatar um curso na faculdade. “Mas não tinha dinheiro para continuar. Parecia que nunca iria acontecer o sonho. Entrei em Psicologia, mas não fui pra frente, o curso era caro e não tinha condições de pagar. Fiquei apenas um bimestre”.
Quatro anos após a primeira tentativa, apenas aos 24 Luzia conseguiu, então, ingressar no curso de Pedagogia. As dificuldades continuaram e a resistência também se ampliou. “Complicado, porque eu trabalhava durante o dia e sem muito tempo pra estudar. A maior dificuldade era pagar o curso. Tinha que ajudar em casa. Tinha mês que eu tinha que escolher entre pagar a mensalidade ou a despesa de casa. Intercalava as mensalidades. Era difícil, porque vinha a cobrança da faculdade e da televisão”.
Mais de 20 anos em escolas da periferia 
Formou-se aos 28 anos. Casou-se, teve dois filhos, o Diego e a Camilla. Começou a lecionar três anos mais tarde, aos 31. Desde então, da primeira até a última escola, foi na periferia que Luzia viveu seu sonho de ser professora.
Lembra, ainda, da primeira escola por onde passou, no município de Cajamar (SP). Para chegar até a unidade escolar, era preciso tomar um ônibus em Perus e realizar a maior parte do trajeto na estrada de terra. Nos mais de vinte anos, passou ainda por escolas em Santana do Parnaíba, Caieiras e Perus, nas quais lecionou para os pequenos, de primeira a quarta série.
“Logo que comecei, em 1987, era muito difícil. Não tinha material didático. O salário era baixo e ainda hoje continua. A participação da família também era bem difícil. Nem sempre eles estavam presentes. Faltava material, às vezes queria passar um filme e não tinha sala adequada, faltava espaço. A gente queria desenvolver um trabalho e nem as crianças e nem a escola tinham condições de arcar com os custos dos materiais. A gente fazia o possível, comprava alguma coisa ou até pagava por alguns materiais em algumas datas comemorativas”.
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Luzia (à direita), com sua mãe Laurentina (meio) e a filha Camilla (à esquerda) | Arquivo pessoal


Além do parte estrutural que envolve uma escola, Luzia conta que sempre se envolveu afetivamente com seus alunos, já que todos as problemáticas que perpassam a infância – problemas familiares, principalmente – chegam na figura do professor. “A gente se envolve bastante com os problemas que eles trazem pra gente, a situação que eles vivem, às vezes de necessidade – pai desempregado, mãe ou pai que foi embora – a criança traz e nós absorvemos, pois sabemos que isso influencia diretamente na aprendizagem. A gente tentava se aproximar o máximo dos estudantes conversava muito e aqueles que tinham dificuldade, a gente trabalhava de forma mais atenuada, tentava não deixar o aluno de lado, englobar com os demais, pra que a troca de aprendizagem realmente acontecesse”.
Ser professora na periferia é uma grande aprendizagem
Emocionado ao recordar sua história, para Luzia ter vivido a profissão de professora “foi uma grande lição de vida”. Hoje, já aposentada há quatro anos, Luzia deixa um recado àquelas que também sonham em ser professoras. “Ser professora na periferia é um grande desafio e uma grande aprendizagem, ao mesmo tempo que você ensina, você também aprende muito. Vão encontrar obstáculos, porque o professor não é valorizado como deveria, mas é muito gratificante, pois o ensinar e o transmitir conhecimento valem muito a pena para continuar”.
 

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