Sarau das Pretas completa um ano com objetivo de destacar a produção das mulheres negras.
O Sarau das Pretas completa um ano de atividades e realizará nesta sexta-feira, 31 de março, uma edição especial de apresentações no Aparelha Luzia, espaço cultural de resistência negra, localizado no centro de São Paulo.
O Coletivo é formado por Débora Garcia, 34 anos, assistente social e escritora, moradora de Itaquera, na zona leste de São Paulo, Elizandra Souza, 33, jornalista e escritora do Jardim Noronha, região do Grajaú, zona sul, Jô Freitas, 28, atriz e poeta do Itaim Paulista, zona leste, Thata Alves, 25, poeta e produtora cultural de Taboão da Serra, região metropolitana, e Taissol Ziggy, 21, percussionista e jongueira de Embu das Artes.

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Crédito: divulgação


As integrantes se conheceram no movimento cultural das periferias, principalmente o literário, e algumas fazem parte de saraus que acontecem nos bairros. À convite de Débora Garcia, realizaram em março de 2016 uma apresentação no Sesc Pompeia com o tema “Sarau das Pretas” e, desde então, realizam apresentações itinerantes em diferentes espaços, destacando a produção poética e musical de mulheres negras.
O Nós, Mulheres da Periferia conversou com Elizandra Souza, que contou um pouco da história do Coletivo e quais são as expectativas após este primeiro ano de existência.
Nós, Mulheres da Periferia – Como surgiu a ideia do Sarau das Pretas?
Elizandra –  O Sarau das Pretas começou com uma atividade pontual a convite da produção do Sesc Pompéia a Débora Garcia para organizar um sarau temático para o mês de março e ela foi convidando algumas escritoras para compor o time. Muitas escritoras foram convidadas para esta primeira apresentação, mas por incompatibilidade de agendas ficou essa formação que tem nos acompanhado durante este ano. Na primeira edição que aconteceu no Sesc Pompéia tínhamos a percussão com o Cosme e também da poetisa Luz Ribeiro. Essa edição foi muito bem recebida pelo público e percebemos que tinha uma lacuna e uma necessidade de falarmos de literatura negra e feminina, pois mesmo nos espaços de saraus, nos quais somos freqüentadoras, é um espaço predominantemente masculino.  O público, a maioria eram mulheres negras que se sentiram à vontade para recitar seus poemas ou compartilhar de outros artistas, e já sentimos que tinha potencial.
Nós – Qual é o maior objetivo do grupo?
Elizandra –  O Sarau das Pretas é uma possibilidade de pluralizar as vozes negras, por meio de apresentações dentro dos espaços e instituições pelas quais somos convidadas, não é um sarau territorial, mas carrega a militância de sermos negras em movimento, profissionalizando o fazer artístico da escrita negra, e também das linguagens da música e dança que compõem a cultura popular, como o jongo, por exemplo, que é uma linguagem que a nossa percussionista Taissol Ziggy trouxe para dentro do nosso sarau. Sarau das Pretas tem uma potência que une trabalhos como o meu de 16 anos de atuação dentro dos coletivos periféricos, da Débora Garcia e Jô Freitas que tem quase 10 anos de atuação também dentro de saraus, Thata Alves que lidera o Sarau da Ponte Pra Cá, e Taissol que é a quarta geração do Jongo de Embu das Artes.
Como funcionam as apresentações de vocês?  Existe um repertório específico?
 As apresentações têm dois formatos – a intervenção fechada, somente com as cinco integrantes, ou com microfone aberto. Trabalhamos com poesias e músicas autorais; nossa compositora é a Débora Garcia, temos nosso próprio jongo e também uma música de saudação do Sarau. Nosso repertório nestes 12 meses de atuação teve homenagem a Conceição Evaristo e a Oxum, no seu lançamento na Ação Educativa, fizemos uma intervenção com as poesias da Noémia de Sousa, a convite da Editora Kapulanas, com textos inéditos da escritora moçambicana. Homenageamos Yemanjá, trazemos sempre a ancestralidade africana e a música negra brasileira, referenciando aquelas que nos antecederam e pedindo passagem para as novas. Já realizamos apresentações com convidadas dançarinas, escritoras, percussionistas e trabalhamos exclusivamente com mulheres negras.
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Crédito: divulgação


Vocês sempre fazem atividades itinerantes, diferente de outros saraus que mantém espaços físicos. Pretendem continuar assim?
 O sarau nasceu de uma proposta pontual dentro do Sesc Pompéia, já nasceu como uma apresentação artística. E vimos no Sarau das Pretas uma possibilidade de potencializar forças de mulheres negras que são lideranças em outros espaços e que dentro deste trabalho estamos exercitando o nosso fazer artístico profissionalmente, com apresentações contratadas, mas como somos mulheres de lutas carregamos nossas bandeiras de combate ao racismo, ao machismo e ao sexismo dentro da nossa arte.
Não temos a pretensão de ser um sarau territorial, pois a maioria das nossas integrantes já fazem este trabalho nas suas comunidades. Débora atua no Sarau Literatura Nossa, Thata Alves no Sarau da Ponte Pra Cá e Jô Freitas lidera o Sarau Pretas Peri. Eu tenho atuação no Coletivo Mjiba pelo qual organizamos alguns saraus mais pontuais e fazíamos o Mjiba em Ação, com o mesmo viés de só se apresentar mulheres negras, e a Taissol é jongueira do Embu das Artes.

Dentro do Sarau das Pretas queremos problematizar que, apesar das temáticas serem bandeiras de luta e militância, é um trabalho artístico e que precisa ser valorizado como um trabalho.

Apesar da redundância, a arte é vista como algo menor. Ninguém chega no açougue e diz me dá 2 kg de carne por amor, por militância, tem uma troca. Temos aprendido isso que para fazermos parcerias precisa ser com pessoas que realmente já trocaram com a gente, que já fortaleceram.  É uma atividade que envolve cinco artistas mulheres negras  que têm um trabalho artístico e que tem essa missão de dizer, de se impor, pois recebemos muitos convites que querem que a gente alugue o carro, nos oferecem refeições como pagamento, quando oferecem.
Todas nós exercemos atividades remuneradas em outras áreas e atualmente temos três das integrantes desempregadas e sem trabalho, não é justo tirar essa artista da sua casa para custear por uma apresentação que é projeto de outras pessoas. Fazemos este trabalho artístico há mais de 10 anos, em outros espaços, e a falta de reconhecimento é muito cruel, sempre temos o descrédito em primeiro lugar.  Estamos nos organizando e nos estruturando para ter o mínimo nas apresentações que é o que eu denominei de “TAC”: Transporte + alimentação + Cachê. Os saraus territoriais têm um papel muito importante nos bairros, de identidade, potência e articulação, mas o Sarau das Pretas é uma intervenção artística no formato de sarau.
Além das apresentações dos saraus, vocês planejam alguma publicação, outra atividade artística?
 Ainda estamos experimentando a nossa potência e o nosso desafio é se estruturar enquanto grupo. Este aniversário é a primeira festa que realizamos com os frutos de parcerias e também dos nossos cachês, para convidar artistas com uma estrutura mínima, ainda não estamos conseguindo arcar com todo o TAC, mas nosso sonho será este. Valorizar o trabalho artístico como ele merece das nossas artistas convidadas.  Este primeiro foi este reencontro e descobrir as potencialidades, acredito que no segundo ano estaremos muito mais potentes.
 O que pensam sobre os movimentos de mulheres no cenário literário periférico? Acham que têm avançado? Quais são as dificuldades?
 Os movimentos de mulheres dentro do cenário literário periférico é o que mais me alegra e anima. Pois elas estão vindo com uma energia e um grito entalado, e não estamos de brincadeiras, queremos ser reconhecidas, queremos ser lembradas e referenciadas, mas,  principalmente, existimos dentro de todo este panorama cultural.

Em nosso cenário, ainda que seja contestador e por luta por direitos humanos, a mulher dentro da cultura literária periférica não é reconhecida e potencializada, somos poucas porque o racismo, o machismo ele também é eficiente.

Conheço muita mana potente que se calou, que sumiu, nunca mais vimos dentro do cenário, e lembrando que estamos falando de mulheres que na sua maioria são negras e que tem suas triplas jornadas, são mães solos, trabalhadoras de qualquer trabalho que lhe garanta a subsistência, e ainda são artistas. Avançamos muito, eu vejo nas mais novas outro processo, diferente do nosso que nascemos nos anos 80 e tivemos a adolescência dos anos 90, que foi uma época terrível. A geração que nasceu nos anos 2000, que são adolescentes que tiveram a tecnologia como instrumento de luta é incrível. Eu fico feliz com as jovens que têm muita potência. Avançamos, mas estamos em um momento de retrocesso de direitos que implica diretamente nas mulheres negras e periféricas.O momento é de cautela.
Sarau das Pretas: 1 ano de (r) existência
Programe-se!
Será no 31 de março, sexta feira às 19h no Aparelha Luzia (Rua Apa, 78 – Santa Cecília)
 

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Crédito: divulgação


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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.