Jane Xavier, 36, saiu de Sapopemba, zona leste de São Paulo e já mora em Dublin há dez anos, onde também é babá. É a atual líder do Au Pair Rights in Ireland, grupo que luta pelos direitos das au pairs no país. Leia seu relato na íntegra. 
(Este relato faz parte da série Da periferia de SP para a Irlanda: desafios das babás brasileiras em Dublin).
Sou Jane Xavier, nasci e fui criada no Sapopemba, zona leste de São Paulo. Fui técnica em nutrição de hospitais renomados, sou formada em Guia de Turismo e Hotelaria. Essa era a minha vida até 2006, quando depois de um visto negado para os EUA, resolvi embarcar num intercâmbio na Irlanda que, a princípio, duraria apenas seis meses.
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Vivendo na Irlanda há uma década, eu já trabalhei de Au Pair, faxineira de fábrica e residências, ajudante de cozinha, funcionária de fast food mexicano e babá de crianças em creche. Hoje, sou babá em uma residência, estou cursando faculdade de Ciências Sociais e sou voluntária/ativista nas seguintes ONGs: Au Pair Rights Association Ireland – grupo de apoio as Au Pairs exploradas; Domestic Workers Action Group (DWAG) – grupo de apoio às empregadas domésticas e European Network Against Racism Ireland (ENAR) – grupo de combate ao racismo.
Descrever como é morar fora do país me lembra aqueles posts de mídias sociais em que há o que a família espera que eu faço, o que os amigos pensam que eu faço e o que realmente acontece. É uma mistura de sentimentos, aprendizados, fracassos e sucessos. Seria maravilhoso se todo mundo pudesse experimentar um dia. Sim, eu sei que não é fácil para ninguém, também não foi para mim, mas estou aqui na Irlanda há uma década!
Fazer intercâmbio, no entanto, foi fruto de um longo planejamento, pesquisa, economias, e “galos na nuca”. Por quase dois anos eu trabalhei em dois hospitais ao mesmo tempo – trabalhava em escala 12 x 36 à noite (18h30 às 6h30) no Hospital São Paulo e em outro hospital das 8h da manhã às 14h com uma folga na semana – sábado ou domingo. Essa foi a ápoca em que meus vizinhos perguntavam à minha mãe se eu tinha me mudado de casa. E meus “galos na nuca” pioraram – aqueles que começaram na época em que eu saía do plantão de manhã e seguia direto para a faculdade. O meu cansaço na volta para casa era tanto que eu adormecia logo que entrava no ônibus no Terminal Parque D. Pedro II. Os solavancos do ônibus não me acordavam e eu batia a minha nuca no ferro e banco até passar a Avenida Anhaia Mello e chegar na Avenida Sapopemba, quer dizer, às vezes eu acordava muitos pontos à frente, e tinha que pegar outro ônibus para voltar – mas dessa vez eu ficava em pé.
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Morar fora não é coisa de patricinha – eu nunca fui rica! Sou da “ZL” – meu pai era mineiro, e metalúrgico, minha mãe é baiana, costureira, cabeleireira. Ambos foram para São Paulo adolescentes em busca de oportunidades “na cidade grande”. Minha mãe, muito batalhadora, passava noites na máquina de costura tentando terminar a remessa que a fábrica buscava na manha seguinte. Depois de algum tempo, o barulho da máquina de costura foi trocado pelo secador de cabelos no salão de beleza no fundo do quintal de casa. Enquanto meu pai saia de casa às 4h30 da manhã para trabalhar como metalúrgico na cidade de Arujá. Nunca tivemos nada “de mão beijada”, mas nunca nos faltou educação e o pão na nossa mesa. Por falar em pão, eu muitas vezes fiz sanduíche para levar para a ETE (Escola Técnica Estadual) Julio de Mesquita, porque eu não tinha condições de comprar comida na cantina (embora eu tivesse vontade) e o “pão adormecido” mais uma maçã me sustentavam até a hora do almoço, por volta das 14h da tarde, quando eu chegava em casa.
Foi nessa época que eu aprendi o que eram privilégios e senti na pele as diferenças sociais. Foi nessa época que percebi que para passar no “vestibulinho” eu teria que estudar o primeiro ano do colegial na escola do meu bairro, além de estudar sozinha nas horas vagas, para então tentar passar no vestibulinho da ETE.
Estudei o primeiro ano novamente quando comecei o curso de Nutrição e Dietética (em 1995, o curso tinha duração de quatro anos), pois o ensino das escolas da periferia está bem longe de ser o ideal. Estamos sempre à margem do ensino adequado para competir por vagas de escolas técnicas e faculdades públicas, embora elas sejam gratuitas. Foi a primeira vez que saí da zona de conforto (do meu bairro) – tinha que pegar ônibus no horário de “pico” todos os dias, andava rápido por 20 minutos levando o sanduíche de pão adormecido na mochila pesada. Éramos apenas eu e outra garota as negras da turma. A outra garota que também era “lá de São Paulo”, como os residentes do ABCD (região de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema) nos chamávamos, desistiu antes de terminar o primeiro semestre, pois morava mais distante que eu. Com isso, eu era a única negra naquela sala e uma dos poucos negros que naquela escola estudavam – fato que aconteceria também nos outros cursos, nos voos para a Europa, etc.
Sempre acreditei que devemos ter objetivos, mas não chamá-los de sonhos, porque sonhos soa como algo inalcançável, objetivos podem ser atingidos com muito planejamento, esforço, pesquisa e foco. Sempre pesquisei muito sobre intercâmbios – feiras, agências, internet, grupos do Orkut (em 2006, não havia Facebook no Brasil).
Eu já conversava com a família que fui Au Pair antes de viajar, porém, comprei hospedagem em casa de família da escola, pois queria conhecê-los e me sentir confortável antes de tomar qualquer decisão, afinal, eu moraria na casa de estranhos que seriam meus chefes. Após ter comprado o curso com a agência de intercâmbio, eu contatei a escola de inglês e a família que me hospedaria para confirmar que estava tudo pago e acertado. O investimento foi muito alto para correr riscos.
Morar fora não é fácil, mesmo a pessoa mais independente se sente vulnerável. Houve dias em que eu me perguntava se valia a pena “engolir tantos sapos”. A falta da família, ausência em datas importantes – casamento da minha sobrinha, nascimento do meu sobrinho-neto; receber a notícia do falecimento do meu pai e chegar ao funeral 30 minutos antes de tudo terminar – são “preços altos que pagamos” quando moramos fora. A diferença de cultura, idioma e trabalho – que na maioria das vezes não é na sua área de atuação no Brasil, etc. Já vi muitos brasileiros desistindo antes do primeiro mês acabar, outros tendo problemas mentais por não conseguirem se adequar às mudanças, ou por não conseguirem atingir as expectativas esperadas. Mas também vejo brasileiras como eu, que se programaram – trouxeram dinheiro para eventualidades, se informaram e se adaptaram, tentando usar a tecnologia como forma de diminuir a distancia física.
Nada na vida é perfeito, mas eu gosto muito da minha vida na Irlanda. Viajei pela Europa, e alguns países da Ásia; a diferença entre as classes sociais não é tão grande como no Brasil; conheço pessoas de praticamente o mundo inteiro. Cheguei numa época em que a economia era próspera e quando percebi que a crise estava chegando, fiz um curso de childcare (cuidado de crianças) que me facilitou trabalhar em creches, assim não tive problemas com desemprego.
Mas, infelizmente, há muitas brasileiras sendo exploradas trabalhando em residências na Irlanda. As Au Pairs, que cuidam de crianças e moram nas casas das famílias. Elas devem receber o salário mínimo por hora, porém, muitas famílias pagam apenas uma fração disso. A necessidade de um lugar para morar aliada ao medo de terminar o dinheiro as tornam vulneráveis à exploração. Eu tive uma ótima experiencia como Au Pair, recebi o salário mínimo estabelecido por lei, trabalhava apenas meio período, estudava e tive bom relacionamento com a família. Em 2013, eu observei a exploração se transformar em quase escravidão em alguns casos, então me juntei ao grupo de suporte as Au Pairs exploradas – Au Pair Rights Association Ireland. O grupo tem como finalidade informar as Au Pairs sobre seus direitos e ajudá-las a recorrerem a justiça em casos de famílias que as exploram.
Em dezembro do ano passado (2015), um canal da TV irlandesa (clique aqui e confira a série “RTÉ Investigates: Ireland’s AU pairs) fez um programa para conscientizar a sociedade sobre os abusos sofridos por essas imigrantes, fui responsável pela intermediação entre as Au Pairs e a emissora de TV. Foram quase 9 meses de preparo e apesar de muitas historias tristes, o programa contribuiu para que as pessoas entendessem a realidade de exclusão de muitas imigrantes na Irlanda.
A minha experiência positiva como Au Pair me motivou a ajudar outras mulheres imigrantes que não tiveram a mesma sorte que eu tive. Tentar combater discriminação, racismo e exploração é uma luta necessária que muitos de nós deveríamos participar, para tentar melhorar o Mundo de exclusão e injustiças que vivemos hoje.