Quem passeia pelo Minhocão, como é conhecido o Elevado João Goulart, no centro de São Paulo, consegue admirar, em tamanho macro, a arte de Aline Bispo ocupando um dos espaços centrais da cidade. Em 2021, a artista visual, também conhecida como Linoca Souza, coloriu a via com a primeira grande obra que homenageia a antropóloga, filósofa e ativista feminista e do movimento negro, Lélia Gonzalez, na capital paulista.

Foto mostra Aline séria olhando para a câmera

A arte de Aline parte do questionamento de seu lugar no mundo

Crédito: Rodrigo Fuzar

Aline também assina a capa do livro Por um feminismo afro-latino-americano (2020), que reúne  um panorama amplo da obra da pensadora. “Eu li Lélia para o meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] e quando veio esse convite foi muito especial. Foi importante para mim. Eu gostei muito, e não é porque é o meu trabalho”, ri.

O convite para estas obras veio após a artista ilustrar a capa do livro mais vendido na Amazon em 2021: o premiado Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. A ilustração foi baseada em uma fotografia da série Nouvelle Semence (2010), realizada em Camarões pelo fotógrafo italiano Giovanni Marrozzini.

Torto Arado estava para ser lançado e a designer responsável me contatou e disse que ele tinha tudo a ver com essa ilustração. Eu não tinha lido o livro, então não tinha ideia do que tratava”, conta. “O Itamar ganhou um concurso e foi estudar uma região do nordeste que é de onde é a minha família. Então, quando li o livro pensei ‘ele escreveu um livro sobre um familiar meu’”, brinca.

Esse ano, Linoca recebeu um convite inesperado da marca Adidas para desenvolver mais um dos painéis gigantes de arte para o Minhocão. Na obra, diversas mulheres negras praticam esportes em meio a algumas plantas comuns da cultura brasileira – marca registrada da artista.

Galeria

Raízes

Aline Bispo tem 33 anos recém completos e um interesse pela arte que vem da infância. Entre gizes de cera e lápis de cor, os desenhos da menina também se inspiravam no trabalho de sua mãe que, dentre tantas coisas, era costureira. “Eu ficava do lado dela, pegava umas revistas antigas… não tinha muita noção, mas eu ficava olhando aquelas imagens arquitetônicas e achava bonito”, conta.

Quando terminou o ensino médio, Aline começou um curso técnico de Design de Interiores e, no mesmo período, conheceu uma ONG na Vila Mariana que oferecia cursos gratuitos de grafite. Esse foi o primeiro passo para expressar visualmente tudo o que queria dizer ao mundo.

Em 2008, com 19 anos, começou a grafitar pelas ruas de São Paulo. Mas, sem incentivo para fazer arte, com o alto preço das latas de grafite e a insegurança por ser uma mulher nesse espaço, a artista teve de dar uma pausa no seu sonho de colorir a capital paulista.

“O pessoal pega o salário, compra lata e muita gente desiste porque o retorno que está tendo é ser agredido pela polícia ou pintar e de repente a prefeitura ser acionada e ter que apagar no outro dia”, lamenta.

A artista também se formou como técnica de Comunicação Visual e, aos 25 anos, começou sua graduação em Artes Visuais como bolsista no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Era um mundo novo para quem nasceu e cresceu em Campo Limpo, na periferia da Zona Sul de São Paulo.

“A questão socioeconômica é uma das coisas que pega muito, você ter um tempo para poder produzir. No meu caso, eu tinha que trabalhar, estudar, comer e dar conta de fazer vários trabalhos”, lembra. Outra barreira, aponta, é que a maioria dos espaços de arte estão localizados na região central da cidade, o que dificulta o acesso da população periférica.

Entre Espadas de São Jorge e Costelas de Adão

Todo o processo criativo de Linoca, que hoje também é curadora do acervo do Instituto Ibirapitanga, está conectado à sua vida, ancestralidade e a uma pesquisa feita dentro da própria família. Sua arte também parte do questionamento de seu lugar no mundo.

“Em determinado momento da vida eu comecei a observar algumas questões que me deixavam confortável ou desconfortável andando pela cidade. Então comecei a perceber que essas situações tinham um recorte de classe, raça e gênero”, conta.

Todas essas constatações, cargas e vivências são transmutadas pela artista na produção de suas obras. Aline olha para sua herança genética e cultural para poder criar. É um caminho conjunto. 

E a brasilidade também está presente em suas artes. Alguns elementos recorrentes são plantas comuns nas casas e na cultura brasileira, como as Espadas de São Jorge e as Costelas de Adão. Acredita-se que elas afastam energias negativas e atraem as positivas, respectivamente.

“Dentro do meu processo de pesquisa, tem um raminho dessa árvore que é o meu olhar para a Umbanda, para as religiões afro-brasileiras e para as ervas de cura. Isso também passa pela memória afetiva da minha família e eu trago nos meus trabalhos”, explica.

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