Esta vídeo perfil integra a série “As mães que me criaram – rede de apoio e primeira infância nas periferias”, uma parceria do Nós com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

A frase que ilustra o título dessa matéria é atribuída ao filósofo congolês Bunseki FU-KIAU e foi usada como exemplo pela arte-educadora e mãe Priscila Obaci para destacar a importância de uma rede de apoio para além da figura materna.

A mãe de Melik Rudá, 5 anos, e Bakari Mairê, 3 anos, recebeu o Nós em sua casa e contou sua experiência em tecer essa rede que, nas periferias e para mães negras, ainda encontra desafios ao ser formada.

Bakari estava na creche enquanto Melik, o filho maior, se distraía na sala esperando a entrevista acabar. Priscila tinha acabado de chegar de um compromisso e foi uma marmita que a salvou naquele dia em que equilibrava vários pratinhos para nos receber.

Esse equilíbrio vem em meio a uma série de transformações que Priscila passou após ser mãe. Ter pessoas com quem possa contar para que esse fluxo aconteça em sua vida foi fundamental para que hoje o peso seja menor.

“Cada pessoa tem uma função e achamos que construir um ser humano, que é a coisa mais complexa do mundo, vamos conseguir com duas pessoas, isso quando estamos falando de um relacionamento padrão, mas, o que vemos, principalmente nas periferias, é uma mãe e no máximo uma avó carregando todas essas crianças sozinhas”, exemplifica.

Esse peso imposto pela sociedade às mães, em sua avaliação, reforça a eterna culpa materna. Priscila, que também é poeta, tem um poema que ilustra bem esse sentir que vem carregado de julgamentos sociais: “nasce a mãe floresce a culpa fruto dos olhos alheios vestidos de lupa”.

Priscila defende que a sociedade, por vezes, encara a maternidade como punição às mulheres, e anula e não dá a mão para que mães possam existir e conviver em outros contextos para além desse. “A gente precisa entender isso, da maternidade não ser uma punição. ‘Aí, você foi mãe, quer ir para balada? Você quer que eu fique com seu filho para você encontrar uma pessoa ou beber?’ Por que não?!”.

O caminho que encontrou para minimizar o fardo foi reconhecer seus limites. “Eu estou tentando ser mais leve, tentando pedir mais ajuda, e falar ‘não, isso eu não consigo’ e está tudo bem”.

Diante dessas muitas imposições maternas, os contornos machistas são reforçados pelo racismo. Ser uma mãe preta, de acordo com ela,  ainda é mais desafiador. “Uma mulher preta poder ser mãe e exercer a sua maternagem é revolucionário, porque nem isso a gente pôde ser no processo escravocrata”, aponta.

Priscila, no entanto, acredita que o ser mãe e a potência desse significado para ela é maior e vale a pena por reforçar sua ancestralidade e continuidade de futuro, de sua trajetória.  “Quando a gente pensa em uma cultura afro-ameríndia, quem não tem filho não tem para quem deixar – e não é carro, casa e dinheiro – não tem com quem deixar sua história”.

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