Fiquei muito triste com o caso das turistas argentinas que foram assassinadas no Equador e, mais ainda, com as notícias que foram publicadas a respeito, alegando que o perigo residia no fato que as duas jovens “viajavam sozinhas”.
Uma tinha a companhia da outra, mas quando não se tem a presença de homem não é suficiente, mulheres são consideradas sozinhas, desprotegidas e socialmente são julgadas e culpabilizadas por se colocarem em uma situação de perigo.
Uma pesquisa feita pelo site Booking.com no Reino Unido, Canadá, Austrália, EUA e Alemanha apresentou que o número de mulheres, entre 25 e 45 anos, que viajam sozinhas aumentou 50% nos últimos cinco anos. Acredito que a tendência também acontece aqui no Brasil.
Com 24 anos eu fiz a primeira viagem sozinha para um intercâmbio em Paris. Foi uma das mais belas e intensas experiências que tive. Aprendi muito sobre mim e minha capacidade de encarar desafios e superar dificuldades. Um excelente exercício de autoconhecimento.

paris

foto: arquivo pessoal


De lá para cá, já fiz outras viagens sozinha e sinto um prazer imenso. Fazer tudo no seu tempo, contemplar e admirar cada coisa, cada detalhe, observar as pessoas ao redor, além de conversar com muita gente e fazer novas amizades.  Seja para onde for, todas as pessoas deviam passar por essa experiência.
Apesar de gostar muito, confesso que ainda não tenho coragem de ir sozinha para alguns lugares que considero perigoso. Para alguns países na América Latina, por exemplo, como as argentinas Marina Menegazzo, de apenas 21 anos, e Maria José Coni, de 22, que tinham uma à outra, mas mesmo assim não foi suficiente.
É muito triste quando a nossa liberdade é restrita por causa da violência e, principalmente, do machismo. E às vezes nem é preciso viajar. No ano passado, o jornal inglês Daily Mail fez uma lista com os piores destinos de férias para mulheres. O Brasil ficou em segundo lugar, atrás apenas da Índia. Se nosso país é ‘perigoso’ para as turistas, imagina para as que vivem nele.
E ainda mais para nós, mulheres da periferia! Convivemos com o medo e a limitação o tempo todo, no nosso cotidiano, em nossas viagens diárias para a faculdade, para o trabalho, quando voltamos tarde para casa, quando não temos transporte público que passe próximo da nossa rua, quando vestimos uma roupa considerada “provocante”, quando temos medo de alguém nos abordar no portão, quando vamos estacionar o carro na garagem.
Ainda são muitos os desafios que nós mulheres temos que enfrentar. Mas não podemos desistir. Quanto mais lutarmos e arriscarmos, mais o movimento de mulheres independentes e corajosas vai crescer e conquistar aquilo que é já deveríamos ter por direito: a liberdade. O mundo é nosso!
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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.