Quando eu tinha oito anos de idade e não havia ainda experimentado os alisamentos artificiais, minhas primas me nomearam como a Mel B de nosso “Spice Girls Cover”. Nos idos dos anos 90, o grupo inglês era a maior febre entre as meninas brasileiras. Nós passávamos tardes inteiras treinando as coreografias mirabolantes e tentando fingir a língua enrolada da qual nada entendíamos.
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Era o auge daquele grupo formado por cinco meninas, quatro brancas e uma negra – a Mel B. De vez em quando, as primas e as amigas das primas trocavam de personagem. De Emma – a loirinha – logo se tornavam Mel C, a branca de cabelo preto. De Mel C logo viravam a Victoria – outra branca de cabelo preto. E de Victoria, caminho fácil para ser a Geri – a ruiva. Mas eu sempre era a Mel B, afinal, não havia outra preta no grupo do nosso quintal. É que o mundo das celebridades imita o mundo real, onde as negras são em menor número em relação às brancas, não é mesmo? NÃO! CLARO QUE NÃO.
Naquela época, eu não entendia bem o porquê, mas eu não queria ser a Mel B. Eu me lembro de ficar emburrada, de fechar a cara e parar de participar do grupo só porque eu não queria ser a Mel B. É que ser a Mel B implicava em dizer que eu era diferente, porém, eu queria ser igual. Queria ter nariz igual. Cabelo liso igual. Traços iguais. Naquele momento, ninguém ainda havia me dito que o meu nariz batatinha também poderia ser bonito. Que o meu cabelo crespo era maravilhoso. Que a minha boca, meus olhos, meu rosto não precisariam ser iguais. Ninguém havia me dito que eu era negra.
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Imitar a Mel B era aceitar a personagem que nenhuma outra queria ser. Ser a Mel B era dizer sim ao meu cabelo crespo e volumoso. Ser a Mel B era enfrentar os apelidos colocados por meus primos, principalmente sobre meu cabelo. Ser a Mel B, ali, não era das escolhas mais fáceis. E baseados nesse tal de colorismo que mescla, mas nos faz esquecer nossas raízes, ninguém na minha família se dizia negro. Minha mãe não era negra, meu irmão não era negro. E eles, ah, eles são tão negros.
Há alguns meses, eu vi que o maior hit das Spice Girls, Wannabe, estampouQa campanha de conscientização em prol da igualdade de gênero, por meio da hashtag #WhatYouReallyReallyWant, que significa “O que eu realmente quero”. A música, que moveu minha infância, foi escolhida pela The Global Goals, organização fundada pela ONU, como hit de um vídeo super empoderador, que fala sobre os direitos das meninas e mulheres em todos os cantos do mundo.  Dentre os lemas levantados, estão o “Fim da violência contra as garotas”, “Educação de qualidade para todas as meninas”, “Fim do casamento infantil” e “Mesmo salário pelo mesmo trabalho”.

Diferente dos anos 90, o vídeo traz uma diversidade incrível de mulheres vindas da Índia, Canadá, Reino Unido e Nigéria.  E, sim, muitas meninas pretas dançando sobre o lema daquilo que elas realmente querem ser. “Em 2015, os líderes mundiais prometeram priorizar os assuntos das meninas e mulheres quando assinaram o fundo para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, destinado a acabar com a pobreza, lutar contra a mudança climática e acabar com as desigualdades”, é o que aponta a Global em seu site.

Jéssica Moreira/Créditos: Bruna Martinho

Jéssica Moreira/Créditos: Bruna Martinho


Se 2016 é o ano de fazer barulho e mostrar o que realmente queremos, eu grito que o que eu mais quero é que toda menina preta possa viver toda sua negritude. Que ame seu cabelo, seus traços, suas histórias. Que haja, a cada dia mais, dançarinas negras, jornalistas negras, mulheres negras em cargos de poder e de destaque. Que as meninas pretas saibam de sua história desde criança, conheçam Dandara, Maria Carolina de Jesus, as rainhas do samba e tantas outras tantas mulheres negras poderosas. Que as mulheres negras tenham acesso aos direitos sociais como as mulheres brancas – educação, saúde, moradia, lazer. Isso é o que eu realmente desejo.