Ao perceber a dificuldade de acesso das mães periféricas aos eventos culturais que frequentava na região noroeste da cidade de São Paulo, Maria Aparecida dos Santos, a Cida, passou a buscar parcerias para promover atividades para crianças nos rolês. Dessa forma, mães como ela poderiam ir aos eventos com seus filhos. 

Daí surgiu o Mães do Morro.Localizado no bairro Morro Doce, região noroeste de São Paulo (SP), o coletivo é formado por mães que facilitam o acesso à cultura por meio de eventos, oficinas e palestras. Além de atuarem em busca da emancipação financeira das mulheres do bairro, ao oferecem cursos profissionalizantes. 

Cultura e profissionalização para as mães

Mães do Morro

Para o grupo. o desenvolvimento cultural ultrapassa a dimensão artística.

“O objetivo do Mães do Morro é o desenvolvimento cultural das mulheres, principalmente das jovens mães aqui do nosso bairro”, afirma Bárbara Luiza, uma das integrantes do coletivo, ativista e mãe solo do David Miguel, de nove anos.

Por isso, oferecem formações em fotografia, gestão de negócios e maquiagem. “Em uma das maiores metrópoles, ainda há mulheres que vivem em relacionamento abusivos por não terem condição financeira de sair daquela situação, não terem como criar os filhos sozinha”, afirma a ativista. 

Ao serem contempladas pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) em 2018, projeto da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que apoia coletivos artísticos e culturais da cidade, realizaram um circuito nas praças do Morro Doce. As ações contaram com oficinas para mulheres, atividades recreativas para as crianças e shows musicais. 

Gerido hoje por três mulheres, o Mães do Morro se articula em conjunto com outros coletivos da proximidade. Como o Espaço Cultural Morro Doce, Baque das Manas, Batalha da 16 e Distrito Marginal Crew

As lutas do bairro foram e são protagonizadas por mulheres

As ações contaram com oficinas para mulheres, atividades recreativas para as crianças e shows musicais.

Crédito: divulgação/Facebook

Na história do bairro Morro Doce, as mães são protagonistas. “Muitas coisas que a gente tem no bairro hoje, como o saneamento básico e a linha de ônibus, foram lutas encabeçadas por mulheres”, diz Bárbara. 

Como relatado na revista Memórias do Morro, do coletivo Anhanguera Luta e Resistência, as reivindicações por linhas de transporte público na região contaram com o caso do “sequestro do ônibus”. Numa das idas à Viação Santa Brígida, empresa de ônibus, para pedir por esse direito, um grupo formado por mães e outras lideranças comunitárias não foi atendido pela organização, que disponibilizou um ônibus para que retornassem ao bairro. 

Muitas coisas que a gente tem no bairro hoje, como o saneamento básico e a linha de ônibus, foram lutas encabeçadas por mulheres.

Foi quando Genoveva Lopes, uma das lideranças, deu a ideia de realizar um “sequestro” para dar maior visibilidade à causa. Quando chegaram ao bairro, ninguém desceu do veículo. A mulher lembra o que disse ao motorista: “O senhor pode até ir embora, mas o ônibus vai ficar aqui. Nós aqui não vamos deixar faltar nada pro senhor, nós vamos trazer água, suco, bolacha, um cafezinho”, relatou à revista. 

Diante desse e de outros casos da história do Morro Doce, Bárbara relata a importância de um coletivo formado por mães em um ambiente periférico. “Não é uma questão só de representatividade, é uma questão de perspectiva. Algumas meninas que tem aquela perspectiva de ‘preciso arrumar algum cara para poder sair de casa’ ou ‘vou morrer naquele emprego’, quando veem a gente produzindo cultura dentro do bairro já gera outra perspectiva”. 


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