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Exibição do documentário em Bogotá | Crédito: divulgação


“Mulheres de vida simples, guerreiras, que atravessam a cidade para sobreviver ao caos urbano, como todas as Madalenas, as Marias do nosso Brasil”. Essa poderia ser a descrição das diversas mulheres das periferias de São Paulo, mas é o retrato do cotidiano daquelas que vivem na Comunidad de Ciudad Bolívar, em Bogotá (Colômbia).
Na semana passada, o dia a dia delas também se cruzou com a vida de trabalhadoras domésticas brasileiras, por meio do documentário “Mucamas”, produzido pelo coletivo Nós, Madalenas, exibido na programação do 8º Festival Ojo al Sancocho – Festival Internacional de Cine e Vídeo Alternativo e Comunitário.
“As histórias se repetem em toda a América Latina. As mulheres são oprimidas e a cultura do machismo ainda é muito presente. Após a exibição, as pessoas me procuravam para dizer que o filme tinha a ver com suas vidas, que muitas mulheres não eram valorizadas e recebiam muito pouco pelo o que faziam, que o trabalho doméstico era um subemprego. Lá na Colômbia, eles têm uma legislação que as protege como trabalhadora formal. Mas é sempre a mesma história: a mulher que migra para a grande cidade, mas mora na favela e trabalha para a burguesia”, contou a representante do Nós, madalenas no evento, Natalie Hornos.
ideia do Festival é mostrar como a produção audiovisual pode ser um importante instrumento político para comunidades em situação de vulnerabilidade. O Nós, Madalenas esteve em contato com escolas de cinema para crianças, espaços de arte para a comunidade e grupos de resistência contra ocupação de empresas de minérios, um verdadeiro intercâmbio cultural entre “periferias” de vários lugares.

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Mulheres no festival Ojo al Sancocho, em Bogotá, Colômbia. Créditos: Divulgação


Para Natalie, estes grupos se articularam internacionalmente, usando as ferramenta do audiovisual, como sites e Facebook e, agora, podem também mostrar as perspectivas do que acontece em suas regiões por seus próprios pontos de vista. “Queremos fazer o mesmo pelas nossas comunidades, pelas nossas mulheres”, aponta.
Estiveram presentes também mulheres da cena Hip hop local, com rap e graffitti, que compartilharam a forma como estão resistindo aos estigmas sociais de seu bairro, Ciudad Bolívar, por meio da arte, além de apresentações de filmes sobre transgêneros e violência doméstica e o círculo do sagrado feminino, com todas as  presentes no festival.
“Com o cinema comunitário, o Festival OjoalSancocho escancara o audiovisual como dispositivo para expor as problemáticas sociais de cada território e localidade. Ficamos felizes por compartilhar com ‘los hermanos latinoamericanos’ os desafios e sonhos para o nosso continente que segue com as veias abertas”, apontou Natalie.
“Ressignificar as narrativas hegemônicas e falar por nós mesmas”
Criado em 2014, o Nós, Madalenas surgiu das inquietações de nove jovens mulheres, sendo sete delas das bordas de São Paulo, unidas pelo desejo de criar uma produção audiovisual que mostrasse um pouco das questões que dividiam, perpassando a desigualdades de gênero e social.
“Hoje, as temáticas que nos unem são as questões do papel assimétrico da mulher na sociedade, as exigências desiguais de gênero, a desigualdade social. Nosso objetivo é ocupar o lugar de falar. Ressignificar as narrativas hegemônicas e falar por nós mesmas. Com o olhar de dentro, o que acontece nas periferias e os duplos papeis das mulheres na sociedade. Queremos levantar essas questões, enquanto refletimos e aprendemos”, aponta Natalie.
Estreia do Documentário Mucamas, na Casa da Lua, em março de 2015. Créditos: Divulgação.

Estreia do Documentário Mucamas, na Casa da Lua, em março de 2015 | Créditos: Divulgação.


Em 2015, foram contempladas pelo VAI (Programa de Políticas Culturais para a periferia de São Paulo) com o projeto “Mucamas”, um documentário que fala sobre o trabalho doméstico pela visão das nove integrantes, que entrevistaram suas próprias mães empregadas domésticas.
Ao todo, gravaram em cinco diferentes bairros de São Paulo, mostrando que as periferias paulistanas também são diferentes entre si. “Gravamos em cinco quebradas diferentes e também geograficamente distantes uma das outras. Foi uma experiência incrível. Nenhuma das integrantes conheciam as cinco áreas que gravamos. As paisagens e a organização das periferias eram muito diferentes entre si. Foi uma oportunidade de conhecer e explorar a periferia de São Paulo”.
 
Conheça mais sobre o Nós, madalenas aqui.