Hoje à noite acontece a cerimônia da primeira edição do Prêmio Movimentos Criativos, que premia trabalhos de jovens negros, a partir dos 15 anos, que atuam em diversas frentes com objetivo de construir convivências mais saudáveis, espaços mais plurais e a aplicação dos direitos básicos e simbólicos como, por exemplo, o do reconhecimento.
Promovido pelo Instituto Feira Preta, Zaion Criações, Ayô Produções e com apoio do Itaú Cultural, o Prêmio ocorre dia 11 de dezembro no Auditório do Ibirapuera, às 21h, como parte da programação do Territórios Afro Criativos. Para saber mais, clique aqui.
A premiação foi construída sob o olhar qualificado de um grupo de curadores escolhidos por suas trajetórias e conhecimento de cada categoria. São nove categorias: Artes – Bem Estar – Conhecimentos – Criação – Esporte – Legado Negócios –Pérola Negra e Digital.
De forma independente, cada curador realizou indicações seguindo os critérios estabelecidos previamente como “perfil empreendedor”, “impacto social da experiência” e “contribuição para a cultura negra”. Ao todo são 27 indicados. Coletivamente, o mesmo grupo e a organização do Prêmio escolheram os nove que serão agraciados esta noite.
Além do reconhecimento público, os premiados receberão estatueta idealizada pelo artista plástico Moisés Patrício, reconhecido como um dos expoentes da arte afro-brasileira contemporânea e ativista negro.

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Reunião de indicados, curadores e equipe de produção do Prêmio Movimentos Criativos


Uma das indicadas à categoria ‘Pérola Negra’ é a cineasta Renata Martins, 37 . Em 2015, ela criou e executou a web série ‘Empoderadas’, a primeira temporada em parceria com a também cineasta Joyce Prado. O objetivo é potencializar o alcance das histórias e vozes de mulheres negras. Além disso, recentemente, lançou o coletivo ‘BláBláObá’, em parceria com outras 11 mulheres negras. A proposta é fazer uma releitura do programa ‘Saia Justa’.
Para ela, criar uma premiação que tem como premissa a juventude negra e seus processos criativos é de fundamental importância, sobretudo quando há um cenário de violência sistêmica entorno de nossos corpos, nossa intelectualidade e existência. “Tanto o projeto ‘Empoderadas’ quanto o ‘BlábláObá’ nascem desse desejo de provocação em mostrar para sociedade que há mulheres negras que pensam, criam e estão presentes em todas as etapas de produção audiovisual”.
Moradora do bairro Cidade Líder, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, Renata concedeu uma entrevista ao Nós, mulheres da periferia.
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Renata Martins, cineasta e uma das indicadas na categoria ‘Pérola Negra’ | Foto de Semayat Oliveira


Como é ser indicada a um prêmio?
Quando se é indicada a um prêmio, antes de o seu nome aparecer, vem toda uma trajetória, todo um trabalho e é muito importante saber que essa caminhada está encontrando outras pessoas e que, de alguma forma, tem sido relevante ao ponto de ser indicado junto a tantos outros nomes de profissionais negros e negras que têm interferido e reescrito a nossa história.
 Em sua opinião, qual a relevância desse tipo de premiação no Brasil?
Criar uma premiação para reconhecer a juventude negra e seus processos criativos é fundamental. Sobretudo por vivermos uma violência sistêmica entorno de nossos corpos, nossa intelectualidade, nossa existência. Além disso, nos faz pensar em quem é esse jovem negro brasileiro. É alguém que podemos definir através de sua idade biológica, apenas? Há outras tantas variantes a serem consideradas. Com pensar e como olhar para esse jovem? Há muita gente produzindo. Ter um processo de indicação sério e com uma curadoria gabaritada nos fortalece enquanto criadores e amplia a representatividade para os que virão.
Quais avanços você vê na discussão sobre o direito das mulheres nos últimos anos?
Tivemos avanços significativos. Aliás, toda essa movimentação e protagonismo das mulheres como a ‘Marcha das Mulheres Negras’, o protagonismo das mulheres nas ocupações escolares, as hashtags que possibilitaram denunciar o #primeiroassedio e também outras violências de gêneros com o #meuamigosecreto, sem contar a redação do Enem e a permanência de uma mulher na presidência do país. Esse conjunto reverberou além das redes. O número de denúncias em relação às violências de gênero aumentaram 40%. Mas, no que tange as mulheres negras, sobretudo, pouco mudou. Basta ver os números do ‘Mapa da Violência 2015’, sobre o feminicídio, são assustadores.
Como você contribuiu para essas conquistas?
Acredito que os projetos que idealizo passam por um olhar sensível. Ao mesmo tempo em que não me vejo como protagonista e tão pouco como criadora, crio e digo para sociedade que existo. Existimos. É curioso, minhas inquietações em relação as questões de gênero são antigas. Em 2007, desenvolvi uma pesquisa para saber quem eram as mulheres do audiovisual e, neste período, percebi que eram poucas ou quase inexistiam nas funções de direção e roteiro. Criei junto às minhas amigas de faculdade o ‘Coletivo Chá com Torradas Filmes’, composto apenas por mulheres que estavam no início dos questionamentos do papel da mulher no audiovisual. Nosso objetivo era pensarmos em cinema e produção. Depois tive um projeto contemplado pelo ‘Prêmio Estímulo’ para produção do meu curta metragem ‘Aquém das Nuvens”.  Neste momento, não tive dúvidas, queria que todas as cabeças de equipe fossem mulheres e assim foi.
E como foi essa experiência com a produção de ‘Aquém das Nuvens’?
O curta é composto 100% de técnicas mulheres, desde a direção até a finalização de som. Apenas a trilha sonora e os efeitos digitas foram produzidos por homem. Toda a discussão durante a faculdade me fortaleceu para pautar a produtora do meu desejo em ter essa equipe feminina e, hoje, penso que o filme ganhou muito em sensibilidade, em olhar. Nesta época, meus questionamentos étnicos eram poucos. Após a universidade e durante o encontro com a Cia de teatro ‘Os Crespos’ comecei a me questionar mais e mais. Além disso, comecei a questionar onde estavam as outras mulheres negras no cinema e constatei de que éramos poucas. Novos projetos foram surgindo, novos desejos e novas intervenções se fizeram necessárias.
O que te move?
Hoje, o que me move é pensar em produções em que a equipe seja composta por mulheres negras, que seja possível dizer que há mulheres negras formadas ou em processo de formação em todas as etapas do processo produtivo audiovisual. Quero criar histórias comuns onde personagens negras sejam construídas com sensibilidade, atenção, que elas sejam humanizadas, como queremos e merecemos. Os projetos que idealizo tem se tornado espaço de troca e militância. Com os vídeos acesso o mundo e proponho um novo olhar. Meu desejo maior é que o encontro entre as várias profissionais negras do audiovisual possa nos fortalecer, na técnica e na criação, para contar a nossas histórias a partir de nossa subjetividade. Experimentar linguagens para que possamos errar tecnicamente, encontrar soluções, experimentar novamente, juntas, e seguir.
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Foto de Semayat Oliveira


 

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo