Zainne Lima, 21 anos, moradora do Jardim Helena em Taboão da Serra, São Paulo | Crédito: arquivo pessoal

Zainne Lima, 21 anos, moradora do Jardim Helena em Taboão da Serra, São Paulo | Crédito: arquivo pessoal


Eu li e me lembrei de minha tia Maria me chamando de Zaíta. Zaíne. Ouvi a vida me chamando de Zaíne. Zaíta. Fui guardar meus brinquedos. Eu tinha tantos brinquedos, tantos; as outras crianças tinham tantos não. Eu tinha sete bonecas brancas, loiras, com os olhos verdes ou azuis. Lembro de me perguntar o porquê de todas elas serem tão iguais quando bebês e depois de grandes ficavam tão magras, viravam Barbie ou Suzy, continuavam tão brancas, tão loiras, tão lisas.
Minhas bonecas – minhas filhas! – não pareciam comigo. Eu as colocava no peito, eu as costurava roupas. Gostava de brincar sozinha. Quando eu estava sozinha não havia obrigação de uma das crianças ser meu marido. Eu poderia ser a mãe solteira que desejava mesmo ser. Homem pra quê? Se eu não tinha pai, minha boneca precisaria ter? Se eu sabia costurar, se sabia lavar minha loucinha, cozinhar naquele fogãozinho rosa. Se eu sabia ler, se sabia andar nas vielas do Leme à noite, sozinha. Se eu sabia subir-descer todos os escadões, se sabia onde era que vendia a biribinha mais barata. Se eu sabia ir à escola sozinha, se lia os remetentes da correspondência pra vovó. Se eu conseguia dormir sozinha, se eu, eu-mesma podia expulsar os monstros que ficam à noite atrás da porta do banheiro. Se eu conhecia todas as professoras da escola, se era a melhor aluna da sala, se dona Conceição me presenteou com um livro cheio de animais. Se eu já sabia me proteger dos homens que ficam tentando me tirar a roupa em troca de pizza. Se eu andava de bicicleta pela Evaristo, se sabia levar o café do seu João, o mendigo da rua.
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Chegou uma criança negrinha, negrinha, bem negrinha lá em casa. Era povo da igreja. Ela olhou minhas bonecas com olhos de querer. Peguei seis, as que tinham aquele cabelo liso e loiro. Dei-lhe. A mãe negra, negra, negrona agradeceu. O avô, que sabia fazer pão, me agradeceu também, os olhos tão escuros que até avermelhavam-se. Eu devia ter pedido um pão em troca. Quem não tem Abayomi, vira-se com o que tem: na favela foi assim. Fiquei só com uma boneca, a Raquel, que era careca que nem eu havia sido. Mas eu gostava mesmo era de usar meu estetoscópio rosa e roxo para examinar o coração de nosso primo-irmão, ele sentado na poltrona chique e reclinável da sala de vavó. Passávamos o tempo todo juntos. Casa, escola, passeio. Ele e Felipe, meu irmão, grudados como siameses. Empinaram pipa na laje da dona Cláudia até que Felipe caiu e quebrou o braço. Todos os meninos da rua usavam canetinha para rabiscar lá. Primo Eduardo não era branco como as minhas bonecas: ele era preto como o meu pai que sumira três anos antes.
Tocava a música do “Criança Esperança” quando ouviu-se a pancada. Interrompi minha janta – foi à noite. Meu coração tinha nove anos. Gritei: – Atropelaram alguém na rua, mãe! Subi as escadas correndo; subiram todos. Tantos braços me seguraram, eu chorava… Me tiraram todos, me deram um copo d’água com açúcar na casa da vizinha dona Cecília, me esconderam da violência que estava levando embora as pessoas que eu amava. Atropelaram Eduardo confundindo com o Daniel, o outro menino preto da rua. Mas o Eduardo parece o Daniel, meu Deus? Meu Deus, o Eduardo não parece o Daniel. Daniel e Eduardo só pareciam na cor escura, ambos negros, ambos meninos, tão novos, tão vivos. Nunca mais brinquei de doutora. Nunca mais Eduardo. Nunca mais boneca branca. Nunca mais esperança pra cabeça de Daniel, a culpa corroendo a sanidade. Nunca mais.
Zainne Lima, 21 anos, moradora do Jardim Helena em Taboão da Serra, São Paulo. Estuda Letras e estagia no Escritório USPMulheres, enegrecendo os espaços acadêmicos racistas e elitistas. Escreve sobre as vivências enquanto mulher negra na página colaborativa Entre Irmãs.

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