Aos 12 anos em Regente Feijó, interior de São Paulo, Mariluci Silva, 41 anos, começou a cuidar de crianças e desde então não parou mais. Aos 22 anos perdeu a mãe e passou a ser responsável por todas as despesas da casa.
Durante sete anos cuidou de uma menina. Casou em novembro, e em janeiro separou. Ao vir para São Paulo arrumou um emprego que ficava durante a semana em São Paulo e o final de semana no Rio de Janeiro. “Cuidava de uma criança de 8 meses e 15 dias, a enfermeira não ia ficar mais. As avós eram racistas, tinha muito preconceito, por isso fiquei apenas seis meses e quando foram me registrar eu disse que não ia ficar. A avó dizia que quando o menino tinha alergia era por causa da minha cor, qualquer coisa era por causa da minha cor. Passar por uma situação dessa é complicado”, relembra Mariluci.

Mariluci com sua filha

Mariluci com sua filha – crédito: Arquivo pessoal


Ser babá é uma tarefa que exige muita responsabilidade, pois toda mamada é ela quem está lá, em todos os eventos, viagens é a babá quem cuida. Mariluci conta que vira até confidente da patroa, há até aqueles que dizem que faz parte da família.
“A maioria que a gente cuida é recém nascido e nesse meio tempo engravidei e continuei nesse emprego, mas eles foram embora para o Uruguai e me dispensaram em dezembro de 2012, depois me ligaram desesperados e me pediram para ir ficar lá até conseguirem outra pessoa. Fiquei dois meses no Uruguai e minha filha estava com 1 ano e 4 meses, o meu contato com ela era pelo Skype. Era muito difícil chorava toda vez. Como meu marido trabalhava, tinha uma pessoa que cuidava da minha filha, mas depois descobri que ela maltratava e vi como é difícil confiar em alguém para cuidar do seu filho. Por isso dou muito valor ao meu trabalho”.
Para Mariluci, tudo isso compensa financeiramente e faz tudo isso hoje pensando no futuro da filha “Já pensei em jogar tudo para o alto, mas quero garantir que serei metade do que minha mãe foi pra mim”, desabafa.
Não deixe de ler: Trabalho doméstico (mal) remunerado: da casa grande aos apartamentos
Depois do Uruguai, morando em Presidente Prudente ela voltou a trabalhar em São Paulo, nos Jardins, bairro nobre da cidade, cuidando de um menino de 3 anos, quase a mesma idade da filha, que ficava com uma babá que a filha chamava de mãe japonesa. “A minha rotina era 15 dias em São Paulo e 4 dias na minha casa, ia para Prudente na quinta e voltava na terça de manhã, com essa família cheguei a ir para Londres. Foi maravilhoso e amo o que faço. Boa parte das babás viaja muito e adora”.
Mariluci

Mariluci – crédito: Arquivo Pessoal


Porém, tudo mudou após problemas no casamento, 17 anos juntos e com a filha de 3 anos veio a separação, que a deixou apenas com um carro. “Fiquei com minha filha na casa dos meus patrões, pois se não a levasse perderia a guarda dela, mas, depois que tive uma infecção e cálculo renal, me dispensaram. Voltei para Regente Feijó e tive que me reestruturar porque ele ficou com tudo, precisei alugar e montar uma casa. Teve dia dela querer mamadeira e não tinha pra dar. O que ganhava antes e agora o que ganho, diminuiu a qualidade de vida com ela. Agora trabalho cuidando de duas crianças em Presidente Prudente, minha filha fica em uma creche e pago uma pessoa para busca-la até eu chegar”, revela.
Em maio, ela voltará para São Paulo para trabalhar uma semana sim outra não com o mesmo salário de antes, e a irmã irá ficar com a filha dela. E diz que só fará tudo isso de novo, pois quer que a filha faça faculdade e tenha uma vida melhor do que ela teve.