O Brasil caminha para mais um período instável em relação a educação. Com recordes de mortes diária em comparação com 2020, a pandemia está longe de ser controlada. Como consequência, as aulas presenciais continuam suspensas, sendo as aulas online a única opção.

Em São Paulo, a rede estadual anunciou a antecipação do recesso escolar até dia 28 de março. Na rede municipal e privada as decisões serão responsabilidades das prefeituras. Na capital paulista, ficou determinada a suspensão das aulas presencial até 1° de abril.

Moradora do bairro Jardim Oratório, em Mauá, cidade localizada região metropolitana, Maria Aparecida se prepara para encarar mais um ano com suas duas filhas em casa. Victória, a mais velha, está no primeiro ano do Ensino Médio. Mariana, a caçula, passou para a quinta série do Fundamental.

Depois de um ano de adaptação, ela já não se assusta com a tecnologia, mas se preocupa com o fato das filhas não conseguirem aprender como deveriam.  Em conversa com o Nós, mulheres da periferia, Maria faz uma análise de 2020 e relata como não quer que “suas filhas voltem pra trás” na educação.

“Eu acho que vai vai ser mais um ano perdido”, diz Maria Aparecida, moradora do Jd. Oratório, em Mauá

Crédito: Semayat Oliveira

Nós, mulheres da periferia: Maria, como foi o início do processo em que as meninas precisaram começar a ter aula online em 2020?

Maria Aparecida: Ah, o processo no início foi bem difícil, porque era uma coisa nova. Eu não sabia nada de mexer com internet, com celular. Era muita atividade que vinha e um telefone celular pras duas. Então tinha que revezar os horários. Teve horário de aula na TV também, mas era um próximo do outro. Então, aí uma fazia e depois passava pra outra.

Aí foi ficando difícil, porque a mais velha que estava no nono ano tinha muito mais atividade que a outra. Então, durante um momento ela preferiu ir estudar na casa da amiga e a mais nova ficou comigo. Mas depois disso, eu vi que não ia dar certo e fizemos um esforço pra comprar outro telefone celular, usado mesmo, né?

NMP: Teve um período de adaptação então, né?

MA: Era uma coisa nova, tanto pra elas quanto pra mim, né? E aí concentrou tudo no WhatsApp e tinha um aplicativo também, mas a maioria era no WhatsApp. Tudo, tudo, tudo, tudo.  As atividades enviavam pelo aplicativo que o Governo criou, mas as respostas tinha que mandar pelo zap, pros professores, pra eles corrigirem, né?

Mas o celular não dava conta, era muita coisa, muita coisa mesmo, muito arquivo que eles mandavam.

No início eles mandavam pra gente imprimir, só que tava tudo fechado e a gente não tava tendo acesso a essas coisas. E eu mesma não tenho impressora. Nem sei mexer com isso,  não tinha como fazer. Depois que eles viram a dificuldade e que muitos pais estavam reclamando, começaram a imprimir na escola e a gente ia retirar.

NMP: Tem alguma coisa que você achou válido  nesse processo de estudo online?

MA: Ah, eu aprendi a acompanhar mais as atividades, porque eu acompanhava, mas não tanto quanto eu acompanhei. E aprendi bastante. Pra quem tava tanto tempo longe da escola, né, eu aprendi muito.

Eu fui aprendendo com a minhas filhas as atividades delas,  ajudei bastante pra correr atrás das atividades.

Eu ia até na escola,  mesmo com a escola fechada, a gente queria ir na escola pra conversar com alguém, falar que tava difícil. E tinha matéria muito difícil, coisa que eu nunca nem vi na vida. Então eu estava aprendendo com a minha filha e elas estavam aprendendo comigo. Relembrar tudo que eu já estudei foi bem complicado, eu não tinha as manha de ficar mexendo no celular, aprendi na marra, na garra. Agora já sei enviar email, até porque agora a gente só conversa assim, né? O WhatsApp também, o que tinha de coisa no WhatsApp que eu não sabia mexer, agora já sei.


NMP:  E sobre o ensino das meninas? Você acha que elas estão aptas para o ano letivo de 2021?

MA: Não, eu acho que não. Foi muito complicado. Elas falam que podem tentar, mas eu mesmo fui na escola e falei que eu não queria que minhas filhas passassem de ano, mas elas passaram, né? Uma foi pro sexto ano e a outra foi pro primeiro, pro colegial. Mas eu acho que elas não aprenderam nada, porque num é a mesma coisa de você ter ali uma pessoa pra tirar a sua dúvida. Eu acho que vai vai ser mais um ano perdido, porque os professor vão ter dificuldade de ensinar, porque nem todo mundo acompanhou as matérias.

NMP: E você acha que isso gera desigualdade no Brasil em termos de educação?

MA: Ah, com certeza prejudica bem mais. Muitos nem conseguiram pegar num celular porque não tinham condições, né? Eu tenho relatos de vizinhos que não conseguiram ajudar a filha, que era analfabeto, não sabe ler, não sabe escrever. Imagine pegar num celular, ensinar, pegar, fazer tudo isso que que a gente teve que aprender na marra hoje, né? Então, foi bem difícil pra quem não tem acesso a internet. Então, eu acho que a desigualdade sempre vai ter.

NMP: E quais são os sonhos que você tem pra suas filhas, em termos de educação?

MA: Ah, meu sonho é que elas estudem bastante, mesmo com toda a dificuldade que vamos ter ainda pela frente, mas eu quero que elas concluam os estudos, que elas cheguem a fazer uma faculdade, sabe? E conquistem o sonho delas. Eu não consegui ser o que eu queria, eu queria ser uma veterinária, mas não consegui. Então, eu quero que elas consigam.

Porque hoje em dia, se você não estudar, não tiver educação, se você não tá ali sempre à frente, acompanhando, você não vai ser nada nem ninguém.

Então, eu quero que elas sejam alguém, não quero que elas voltem pra trás, nem fiquem paradas no tempo.

NMP: Quando você parou de frequentar a escola e porque?

MA: Eu estudei até a oitava série, e aí eu saí porque tinha casado, né? Eu já tinha um filho e meu ex-marido não me deixava estudar, ele tinha muito ciúmes. Eu tinha 18 anos e decidi sair pra não ter esse conflito, né? Decidi preferi manter o meu casamento, ficar com meu filho que era novinho também e já tinha uns dois anos.

Depois de um tempo eu ainda voltei pra escola, mas não dava mais pra mim, foi quando comecei a trabalhar registrado, porque até então fazia só bico. Aí eu não tava conseguindo conciliar escola, trabalho, marido, filho, tava muito cansativo pra mim. E eu não quero que minhas filhas repitam isso. Eu quero que elas sejam mulheres independentes, sabe? Sem depender de homem e de ninguém.

Então, elas estudando e terminando o ensino fundamental e o colegial,  já é um progresso, porque eu não consegui nem terminar o fundamental. E se elas terminarem, podem ir atrás de fazer um curso, ir atrás dos sonhos delas. Já é o primeiro passo pro sonho, né? Quero ver elas formadas, pegando o diploma delas, sabe?


NMP:  Qual  é o papel dos nossos governantes pra fazer com que esse sonho possa se realizar?

MA: Ah, eu acho que eles têm que, sabe, focar mais nos estudos, na educação das crianças. Porque se eles não fizerem isso, como vai ser? As crianças não são o nosso futuro? Então eles tinham que deixar o egoísmo e a ganância de lado, senão isso não vai mudar e as crianças não vão ter futuro nenhum, vão pra marginalidade, vão fazer o que muitos fizeram e perderam a vida, né?

NMP:  No começo deste ano, as escolas estaduais e municipais de São Paulo quase voltaram com as aulas presenciais, pelo menos parcialmente. Como você viu essa possibilidade?

MA: Eu não me senti segura não, sabe por quê? Porque a escola das minhas filhas já tem questões em anos normais. Pra enviar um kit escolar o governo já demora seis meses, agora você imagina pra ter máscara, álcool em gel e todo esse cuidado que tem que ter? Eu acho que não vai ter, não vai ter.

Vai ter que ter mais funcionário trabalhando pra olhar as crianças, porque são crianças e adolescente, né? Eles não estão preocupados com isso, nem todos estão. Então eu não me sinto segura de mandar não.

Elas já não têm na educação coisa básica, como um papel higiênico, uma água tratada. Uma infiltração que tem na escola eles não tem cuidado, imagina agora com uma pandemia.

O vírus tá aí e tá matando muito, principalmente agora. As crianças também estão pegando. Tem professor que já são de idade, que não podem ir. Então, acredito que voltar não vai ser muito bom não, viu?

Tivemos dificuldade nas aulas online, mas a gente conseguiu passar por tudo isso e se tiver mais dificuldade a gente vai conseguir, vou tentar o máximo possível ajudar elas nas atividades, mas em casa. Só quando as pessoas serem vacinas com tudo direitinho a conversa muda, né? Mas enquanto não tiver, eu não pretendo deixar não.

 

Leia mais:

1 ano de pandemia: nossas histórias e o desejo por políticas de vida

Temas:

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo