Neste sábado, 18 de junho, a caminhada de lésbicas e bissexuais negras ocupará as ruas de Ribeirão Preto para exigir justiça ao caso de Luana Barbosa, vítima de uma violenta abordagem policial na cidade em 8 de abril. Cinco dias depois, ainda internada, morreu de isquemia cerebral e traumatismo crânio-encefálico,  laudo do Instituto Médico Legal (IML) comprova que o desfecho clínico é consequência do espancamento. Em maio, o juiz Luiz Augusto Freire Teotônio, da 1ª Vara do Júri da cidade, recusou o pedido de prisão preventiva dos três PMs envolvidos, feito pela Policia Civil.
Nenhuma luana a menos (2)
O juiz classificou o crime como lesão corporal seguida de morte  e definiu que a Policia Militar será responsável pelo julgamento. Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo, PMs acusados da agressão, continuam trabalhando em funções administrativas. “Eu e minha família não vamos desistir, vamos lutar até o fim para que a justiça seja feita e os culpados sejam incriminados e não apenas afastados de seus cargos”, disse Roseli dos Reis, irmã de Luana, professora e mestre em literatura com foco em gênero, classe e raça.
Em entrevista para o Nós, mulheres da periferia, Roseli afirmou que a justiça no Brasil não atinge a população preta, pobre e periférica, principalmente quando se é mulher e lésbica. “Vivemos em um país com leis escravocratas, que privilegia um determinado grupo com leis que são feitas para eles e por eles. Sabemos o quanto seria diferente se a minha irmã fosse branca e moradora de um bairro classe média. O quanto a abordagem teria sido diferente, quantos golpes a menos ela teria levado, o quanto essa história teria repercutido”, complementou.
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O caso aconteceu no bairro Jardim Paiva II, localizado em uma região periférica de Ribeirão. E, desde a morte de Luana, movimentos feministas, sociais e com foco em questões raciais têm estabelecido uma rede de mobilização entre periferias. Pelo menos 30 mulheres moradoras de diferentes localidades da capital de São Paulo se organizaram para estarem no ato neste sábado. Com o tema “Nenhuma Luana a Menos”, a concentração está marcada para às 9h, na praça Sete de Setembro.
Míriam Selma, diretora, atriz e dramaturga integrante do coletivo Levante Mulher, que usa a arte com instrumento de combate a violência de raça e gênero, estará lá. Quando questionada sobre a importância dessa união, ela se perguntou: “Quem lucra com essas mortes?”. Em seguida, respondeu que existe uma indústria que ganha com essa barbárie e lembrou de dados divulgados pela Anistia Internacional, em 2014: no Brasil, 77% dos assassinatos são contra negros; a maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo; apenas 8% dos casos são julgados.
“Sabemos que não importa se somos da capital ou do interior, se temos formação acadêmica ou se temos ensino básico. Sabemos que somos negras e, portanto, somos suspeitas e, por vezes, culpabilizadas. O que nos une é um amor maior por nós mesmas, somos nós por nós. Resistir para continuarmos existindo, é por Luana e por todas nós”, completou Míriam Selma.
Micheli Moreira, integrante da Coletiva Soelas, grupo de feministas com recorte de raça, classe e território, formado por mulheres da zona leste de São Paulo, também fará parte da manifestação. Ela explicou ao Nós que considera fundamental as mulheres contribuírem para que o caso tenha visibilidade. “Por se tratar de uma mulher preta, lésbica e periférica, os atos de violência já são invisibilizados mesmo quando acontece na capital de São Paulo. Quando se trata de uma cidade do interior isso se torna mais complicado, precisamos somar forças.”
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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo