Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país onde mais se realizam cesáreas no mundo. As taxas chegam a 84% no sistema privado e a 40% no Sistema Único de Saúde (SUS) – o recomendado pela OMS é 15%.
Nós, mulheres da periferia traz o relato de Amanda Neco, que conta sua experiência de após duas cesarianas, na terceira gestação escolheu pelo parto humanizado e domiciliar.

Amanda após o parto domiciliar de sua filha Gabriela | Crédito: arquivo pessoal

Amanda após o parto domiciliar de sua filha Gabriela | Crédito: arquivo pessoal


Quando fiquei grávida, não tinha conhecimento do trabalho da doula e do parto humanizado, era muito nova e estava passando por um momento de mudanças, não me preocupei com informação, estudos. Confiava no meu médico e segui seus conselhos. Até via as marchas para humanização do parto mas não sabia do que se tratava.

Em minha primeira gestação meu coração desejou o parto normal. Tinha medo das dores, porém mais da cirurgia. Na primeira consulta falei para o meu médico o meu desejo e a resposta foi “Isso vai depender”. Tive uma gravidez super tranquila, sem sinais de trabalho de parto e por conveniência fizemos a cesária na semana 37. Graças a Deus minha filha nasceu bem e pude tê-la comigo todo o tempo no quarto.
Já no final da minha segunda gestação descobri o que era uma Doula e fiquei encantada. Lia o blog de uma todos os dias à noite e ficava muito emocionada de ver tudo aquilo. Mas como disse, era o final da gestação, eu tinha uma médica cesarista e morava numa cidade que não tinha condição alguma desse tipo de suporte. Me rendi a segunda cesárea com 38 semanas de gestação.
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Minha recuperação foi ruim e demorada, me frustrei tanto que cheguei a pensar que não teria mais filhos, se tivesse de me submeter a outra cirurgia. E foi daí que tirei muita força e fui estudar, me informar sobre esse “tal” parto humanizado e me encontrei! Assisti com meu esposo ao documentário ” O Renascimento do Parto” e juntos decidimos que numa próxima gestação teríamos um parto domiciliar. Aí contratamos a doula e a parteira.
A reação das pessoas com essa escolha não é a melhor, pois têm bastante pré-conceito ainda, infelizmente. Mas a causa disso é a falta de informação. Como falar de algo que não conhece? Tive apoio de poucas pessoas mas como já sabia disso, procurei não falar nada, apenas para os mais próximos. Até a médica que me acompanhou no Pré Natal, indicou a cesária.
Quando fiz a opção passei por muitas coisas, meu esposo ficou desempregado e a renda da casa era apenas a minha. Mudamos de cidade para ele trabalhar e programamos nosso 13º para pagar, além de fazer uma rifa que me ajudou a custear.
Ter a doula e meu marido comigo, com certeza foi essencial. Tive os dois o tempo todo ao meu lado me confortando, dando palavras de apoio, massagens, carinho, comida, ajuda física e emocional. Nem imagino como teria sido sem eles e a Lu, nossa parteira.
E posso dizer que não existe palavras pra descrever, foi única, divina. É algo transformador, curador, dá vontade de viver outras vezes.
Toda gestante deve se preparar para a chegada do seu filho. Busquem informações, tenham seus planos de parto em mãos e façam suas escolhas com consciência. Eu tive duas cesáreas até chegar aqui, precisei passar por isso pra alcançar e aceitar, mas com certeza se tivesse me importado antes poderia ter sido diferente. Não deixem o tempo passar, mas também nunca é tarde para correr atrás. Vale a pena. E muito!
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Amanda Neco Marino Vicente, 27 anos, é Servidora Pública e mora em Cotia. Casada há oito anos é mãe de 3 filhos, Bruna de 6 anos, Murilo de 3 anos e Gabriela de 6 meses.