“Uma história real semelhante a milhões”. Essa é uma das primeiras frases do livro “Marcela – pelo outra metade da árvore”, da escritora Luciene Santos, moradora do bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo. O livro leva o nome de sua filha e conta sua experiência pessoal e relatos de outras histórias de mães e filhos que são abandonados pelos pais.

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Luciene Santos participa de mesa sobre a mulher na literatura no 1º Congresso de Escritores Periféricos (Crédito: Lívia Lima)


“Todos os relatos dessa história são verídicos. É impossível ler e dizer que é mentira, faz parte da nossa cultura. Você é uma Marcela, você conhece uma Marcela, você fez uma Marcela”, relata.
Luciene nasceu em Ilhéus, na Bahia, e aos três anos veio morar em São Paulo com a família, para o pai trabalhar na construção civil. Desde os sete anos mora em São Mateus, extremo leste da cidade. É professora aposentada da rede pública de ensino.
Aos 20 anos teve um filho de seu primeiro casamento. Já divorciada, se envolveu novamente e ficou grávida de Marcela. Hoje com 19 anos, apenas aos 12 a menina conheceu o pai. Apesar de fazer o pagamento de pensão, Luciene tentou processá-lo, e também sua família, devido à ausência deles na vida da filha.
“Mais um filho sem pai, não conhecer nunca o pai é normal na periferia. Eu fui percebendo e achei errada a banalização dessa ação. E quando o pai vai embora, vão a avó, os tios, os primos, todo mundo – a outra metade da árvore. Dificilmente eles ficam por perto, culturalmente vão abandonando”.
Luciene se sentiu frustrada pois o advogado que procurou a desmotivou a levar em frente o processo, afirmando que ela não conseguiria ganhar a causa. “Como você quer processar uma família? Ele paga pensão, me dizia. Mas não é justo. Ele respondia que a lei não foi criada pra ser justa, mas ser cumprida. A lei perdeu a humanidade”.
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A professora então recorreu a sua mais nova descoberta para poder tratar do tema: a internet. Começou a pesquisar grupos que discutiam a questão, conheceu pessoas com histórias semelhantes, trocou experiências. E também descobriu blogs em que se publicavam textos literários e se encantou com esse novo universo.
“Antes quem era escritor? Jorge amado, Agatha Christie, como se fosse uma ação destinada a poucos, e ninguém se atrevia. Mesmo sendo professora, na nata do conhecimento, esse meio é uniformizado e engessado. Aprendemos a ler e escrever e usamos só o ler. Não tem escritores. Mas na internet eu descobri que pessoas comuns escreviam”.
Inspirada pelos blogs, Luciene iniciou o projeto do livro Marcela. Quando terminou, mostrou para a filha e, depois de sua aprovação, também por meio da internet, pesquisou uma forma de ter seu material publicado. Enviou o material para uma editora portuguesa, que aprovou o texto, e, então, custeou do próprio bolso a publicação.
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Luciene Santos e sua filha Marcela, que dá nome ao título de seu livro, em sua posse na Academia Boituvense de Letras.


No livro, a autora relata sua história e também diversos outros casos, inspiradas em suas amigas, vizinhas, conhecidas. “O sucesso está nas histórias de várias mulheres. Da Marcela minha filha, da minha amiga que o pai ia paquerá-la depois do divórcio mas não estava nem aí para a filha, pais ausentes que estão em casa, divorciados que só criam os filhos do segundo casamento e abandonam os outros. O filho da outra, da amante…”.
No ano passado, realizou um evento no Parque São Rafael, em São Mateus, para o lançamento do livro. Por meio de amigos, conheceu o movimento saraus de literatura periférica e também participou de alguns eventos, como o 1º Congresso de Escritores Periféricos, que aconteceu no Jardim São Luís, no qual participou de uma mesa sobre a produção feminina. “Mulheres escritoras são poucas nesse universo masculino. Na periferia menos, negras menos ainda”.
Aos 53 anos, Luciene Santos se sente no início de uma carreira promissora e já está trabalhando no projeto de outros livros. “Eu chamo o livro Marcela de minha epifania. Ninguém sabia quem era Luciene Santos e agora vendi 500 livros em seis meses. Isso não tem preço. Homens, adolescentes de 14, 15 anos, donas de casa que você não via lendo nenhum livro. Alcançar esse público é ouro. Agora não quero mais parar, a gente se apaixona pelo ato de escrever”.

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.