Quando visitei a exposição “Afro Brasileiro Puro” no Centro Cultural da Penha, na zona leste de São Paulo (SP), descobri que o músico Itamar Assumpção (1949-2003) mantinha e cuidava de orquídeas, assim como eu. 

Na instalação, organizada pelo Museu Itamar Assumpção [museu virtual dedicado ao cantor], e que se encerra nesta terça-feira, 25 de janeiro – aniversário da cidade de São Paulo, constam fotografias, discos, figurinos, dentre outras peças do artista. E também as orquídeas. O gosto pelas flores inspirou, inclusive, o nome de um grupo com quem o cantor fez parceria em sua carreira – Itamar e as Orquídeas do Brasil. 

Apesar de ser moradora da zona leste, descobri faz pouco tempo que Itamar viveu no bairro da Penha por mais de 30 anos, até a sua morte. Isso aconteceu em um show de sua filha Anelis Assumpção no Largo do Rosário, em frente à Igreja do Rosário dos Homens Pretos, ao lado do Centro Cultural da Penha, no início de 2020, pouco antes da pandemia.

Desde então, comecei a acompanhar mais sua história e também a da cantora Anelis Assumpção, com orgulho da história desta família fazer parte da  região em que nasci e cresci. E, além de dividir com Itamar o gosto pelas orquídeas, compartilho com Anelis o hábito da culinária e o desejo de que a memória das pessoas pretas seja garantida. 

 No ano em que São Paulo comemora 468 anos, entrevisto a cantora Anelis e ela conta um pouco sobre sua relação com a Penha, a cidade e também seu trabalho pela preservação do legado de seu pai, que, em muitos momentos e músicas, demonstrou afeto pelo munícipio, como na música “Persigo São Paulo”. 

Anelis Assumpção

Quando visitei a exposição “Afro Brasileiro Puro” no Centro Cultural da Penha, na zona leste de São Paulo (SP), descobri que o músico Itamar Assumpção (1949-2003) mantinha e cuidava de orquídeas, assim como eu.

Crédito: Livia Lima

E não, não / São Paulo é outra coisa / Não é exatamente amor / É identificação absoluta / Sou eu

Nós, mulheres da periferia: Quando você nasceu, seus pais já viviam na Penha. Sabe como se deu essa escolha deles para viver no bairro? Têm algum relato sobre isso?

Anelis Assumpção: Sim, a minha mãe já morava na Penha, uma parte da família da minha mãe já vivia no bairro da Penha. Quando meu pai veio pra São Paulo, definitivamente, se casar com a minha mãe, ficar aqui, fazer moradia e tentar a vida na cidade, a minha mãe já morava no bairro.

Então, acho que foi um encontro muito positivo também, vindo de uma cidade do interior, querendo encontrar dentro de São Paulo uma possibilidade de vida, tinha ali, no bairro da Penha muitos grupos de interesse, né? Era um bairro de periferia, portanto, era mais barato, era mais possível na cidade de São Paulo. Era um bairro majoritariamente preto naquela época, anos atrás, quase cinquenta, era um bairro muito negro, e tinha aí um clima muito interiorano. Ainda tem, né? Mas é um bairro já hoje bem mais globalizado, enfim. Então, acho que ele foi ficando e fez essa escolha ali por aquele lugar por conta desses grupos todos de interesse, né? E se apaixonou imediatamente pelo bairro.

Meu pai nunca quis morar em outro bairro de São Paulo que não fosse na Penha.

Nós – Que lembranças da infância você tem da Penha? Como foi o período em que viveu no bairro?

Anelis Assumpção: Eu saí de lá com vinte anos, mais ou menos, dezoito, dezenove, vinte. E minha mãe ainda vive na casa em que eu nasci, então ainda me relaciono muito com o bairro. As minhas lembranças são maravilhosas, são lembranças de uma criança que viveu num bairro onde era possível brincar na rua, com outras crianças, sem perigos de atropelamento, pouco movimento. A rua que a minha mãe mora é uma rua muito tranquila. Sempre tiveram muitas crianças.

Eu fazia tudo andando. A gente nunca teve carro na casa dos meus pais. Então eu ia para  escola, mercado, farmácia…no centro da Penha onde tinha a concentração de uns comércios maiores. E a gente fazia tudo caminhando. Então eu conheci muito o bairro, conheci muitas pessoas.

Anelis Assumpção

Show de Anelis Assumpção no Largo do Rosário, em frente à Igreja do Rosário dos Homens Pretos, ao lado do Centro Cultural da Penha, no início de 2020, pouco antes da pandemia.

Crédito: Livia Lima

Tenho a lembrança de um lugar seguro, possível. E talvez seja o melhor tipo de ambiente para criar crianças mesmo, né?

Nós – Ainda hoje sua mãe vive lá… O quanto de mudança você percebe no bairro? Você ainda acha que ele é periférico?

Anelis Assumpção:  O que eu percebo de mudança são estruturais, econômicas, comércio. Quando eu era pequena não tinha metrô, não tinha shopping, não tinha supermercados grandes, né? Minha mãe tinha que fazer compras mensais, naquela época, por conta da inflação, fazia uma grande compra por mês. Então, ela ia lá na Marginal fazer compras no ‘Paes Mendonça’, no Carrefour. E sempre houve um mercado pequeno na rua que atendia as demandas do dia a dia.

Olha, hoje eu não consigo pensar muito na Penha como um bairro periférico porque o [conceito de] centro expandido se ampliou demais. Minha mãe mora há cinco minutos da estação do metrô, da casa da minha mãe se vê o metrô. Então o transporte, o acesso, a acessibilidade expandiu o que a gente entendia de centro da cidade e centro comercial.

Hoje a Penha é um bairro que tem centro cultural, teatro, shopping, comércios grandes, bancos, correio, tudo. Como qualquer bairro na cidade de São Paulo, mesmo em zonas mais extremas da cidade. Não é mais a periferia que foi quando eu era criança.

Ainda tem um recorte periférico pela localização, mas do ponto de vista do pensamento socioeconômico, eu já não vejo isso e já não percebo esse tom de um lugar periférico, onde quando, na minha infância,  havia bastante dificuldade de acesso. Era difícil chegar, era difícil sair.

Nós – Você se considera uma mulher da periferia?

Anelis Assumpção: Eu acho que hoje eu não posso dizer que eu sou uma mulher da periferia, porque eu não vivo na periferia hoje. Mas isso não significa que eu não possa voltar, geograficamente, para qualquer lugar periférico da cidade de São Paulo ou no Brasil.

Ter nascido, sido criada na periferia traz pra mim valores que nunca sairão. Da minha construção, da minha personalidade, do meu caráter, da minha compreensão de mundo, a minha compreensão social.

Obviamente, na primeira infância, quando você cresce num ambiente, um tipo de espaço – seja ele periférico, central, pobre, rico, zona rural, urbana – esses valores vão ser carregados para toda a vida. Então, em algum aspecto, eu não estou periférica. Talvez seja isso.

Tenho valores que só a periferia pode dar. Para uma mulher, uma criança, uma adolescente.

Nós – Seu pai, apesar de não ter nascido em São Paulo, faz parte da memória da cidade e compôs muitas músicas sobre a cidade. E você? O quanto a cidade te inspira?

Anelis Assumpção:

São Paulo me inspira muito, mas também me expulsa, me expurga, me cansa. São Paulo é uma cidade muito difícil.

E acho que a minha geração, ou até mesmo as minhas escolhas de localização, de trabalho, talvez tenham me trazido [esse cansaço]…e o crescimento da cidade, né? É uma exaustão maior em ser urbana. Ao passo que eu não consigo me imaginar sendo outra coisa, a não ser uma urbanoide.

São Paulo me inspira em tudo. Em crescimento, em possibilidade. É uma poesia caótica, é uma cidade complexa e fundamental pro Brasil. Acho que sessenta, setenta por cento dos meus amigos íntimos não são de São Paulo, acho que isso diz muito, né?

São Paulo me inspira porque eu tenho todo mundo muito perto. Tenho culturas, religiões, línguas, costumes, tudo muito próximo de mim. O que na verdade não me deixa acostumada,  talvez me deixe instigada, porque é uma pílula, né? Um breve momento de experiência de outros lugares que a gente tem através de pessoas, de migrantes, de imigrantes que vivem aqui, mas me estimula muito a mergulhar.  É o quanto eu consiga [absorver] uma dessas culturas e cada um desses costumes.

Nós – Qual a importância de se ter um museu do Itamar? Qual seu principal objetivo e de todos da equipe em preservar a memória do seu pai?

Anelis Assumpção: A importância de ter um Museu do Itamar é imensa. E infelizmente é um museu solitário, nesse aspecto, quando a gente pensa num museu temático, mas é um começo, né? Acredito que seja aí um pequeno rompimento de barreiras para que a gente volte os nossos olhares de cuidado e preservação da memória brasileira, depois de muita batalha dos movimentos todos para que essa invisibilidade do nosso passado fosse reconhecida e reparada.

A importância do Itamar também nesse aspecto extrapola a própria vida e o próprio corpo do Itamar. Joga luz sobre um assunto muito importante que é o apagamento das histórias negras no Brasil.

É fundamental, é mais do que importante, é fundamental. E o principal objetivo é que isso perdure. E que aumente, que cresça, que a gente consiga ter museus de Elza Soares, Luís Melodia, de Nelson Cavaquinho, de Paulinho da Viola, de Milton Nascimento. Museus temáticos de toda ordem de cultura, de ciência, para gente, aos poucos passos, reconstruir a história, a memória da música, da cultura e da construção da sociedade preta brasileira, né? Começamos!

Nós – Qual foi seu sentimento na abertura da exposição no Centro Cultural da Penha e no evento de inauguração da estátua?

Anelis Assumpção: Olha, os sentimentos são muito mistos nesse tipo de situação, porque tem uma parte que é do corpo e da cabeça, que é operacional, funcional e prático no ponto de vista de produção e de execução da coisa. E uma outra parte imensa, que talvez seja a minha maior, que é lidarmos emocionalmente com cada feito desses, né? É muito além, é uma coisa que atravessa a minha vida, dos meus filhos, de todos os meus companheiros, companheiras.

É um rito. É algo que conecta quase que espiritualmente esses corpos todos, que se reúnem em prol de olhar para uma existência, para a história de uma pessoa, e, a partir disso, reconstruir trajetórias das suas próprias particularidades. Então é algo que mexe muito comigo, que dura muito mais do que o dia específico da inauguração, é elástico mesmo, o sentimento que navega num tempo bastante molar.

Nós – Como está o plano para que o Museu de Itamar tenha um espaço físico? Há uma previsão?

Anelis Assumpção: Não há uma previsão. São planos. Assim como a gente já teve num passado não muito distante um plano de organizar a obra do Itamar e o acervo dele e transformar isso no que hoje a gente chama de museu, avançamos um pouco no plano dos sonhos para tentar trazer isso para uma realidade física, mas ainda não temos previsão. É um projeto bem maior, precisa de aportes realmente comprometidos, né? Mas a gente não vai desistir!

Nós – Ano passado você lançou o livro de receitas Taurina, relacionado com o álbum musical de mesmo nome. Qual sua relação com a culinária? Ela é terapêutica para você?

Anelis Assumpção

“Taurina” é o terceiro álbum de estúdio de Anelis Assumpção.

Crédito: divulgação

Anelis Assumpção: Ela é terapêutica sim, ela é uma atividade que me organiza, que me ajuda a organizar ideia, pensamento, corpo, físico. Além disso, eu tenho muito prazer em cozinhar para as pessoas. E pra mim também, cozinho muito pra mim. É uma paixão mesmo.

A cozinha é um lugar ancestral, comida, alimento, o plantio, a terra. A comida e a sua história, tudo isso me encanta muito, o encontro dos sabores num prato. A culinária é algo com muito que traz, carrega muita poesia, muita história, muita beleza. Além de ser fundamental pra gente viver, né? Então é terapêutico sim, eu gosto muito de cozinhar, gosto muito de investigar a comida.

Nós – Quais são suas práticas de autocuidado? O que acha que nós, mulheres negras e periféricas, podemos fazer por nosso autocuidado nesse ano de 2022?

Anelis Assumpção: Acredito, cada vez mais, que, principalmente as mulheres, e sobretudo as mulheres negras que estão na linha de frente de um pensamento revolucionário, um pensamento de mudança, de comportamento macrossocial, que é fundamental que a gente cuide desse território que é o nosso corpo. Em todos os aspectos, claro que as práticas variam muito para cada pessoa e cada encontro, mas fui ao longo desses anos encontrando as minhas necessidades.

Acho que ainda é preciso encontrar mais, fazer mais por mim mesmo. É muito comum que a gente se abandone, é da condição feminina e da condição da mulher negra cuidar primeiro de fora, dos outros, então é uma prática mesmo, é um esforço, um exercício de primeiro conseguir impor limites, que ultrapassam o que a gente consegue fazer, então não tentar fazer mais do que se pode.

E as minhas práticas, eu faço terapia, faço análise há muitos anos já, quase dez anos, oito anos. Eu faço sauna, uma sauna que tenho no meu bairro. É um grande privilégio, porque é uma sauna familiar, uma das pouquíssimas que tem em São Paulo, muito perto da minha casa. Nessa sauna,  às quintas-feiras, só podem ir mulheres. Todos os outros dias são para homens. A gente tenta mudar isso, mas infelizmente eles justificam que não tem adesão suficiente pra abrir mais dias para mulheres.

É uma prática, um ritual super importante pra mim. Conseguir ter um momento sozinha, ter um momento com essas mulheres mais velhas, trocar esses conhecimentos, observar. Um espaço seguro em relação ao meu corpo que me faz muito bem. Fisicamente.

Eu também pratico yoga há muitos anos. Caminho. Agora na pandemia eu parei com academias e coisas assim que precisam de um espaço fechado, mas sempre que  posso  faço os meus próprios treinos, baseados no conhecimento que eu já tenho. Para mim é muito importante atividade física. Eu tenho muita energia, então, me ajuda a organizar o corpo, a cabeça.

Acho que isso são coisas simples que  fui encontrando pra mim. Cada um, cada pessoa tem o seu jeito. Mas a primeira coisa, a mais importante, talvez, seja perceber que a gente precisa olhar pra cuidar da gente, como a gente consegue.

E isso não significa que a gente não precise também de cuidados de fora, né? Então também exercitar a prática do outro, de quem está perto de nós, para que o exercício de empatia nunca pare de acontecer. Assim como a gente cuida, a gente também precisa ser cuidada. E é importante estar perto de pessoas que prestam atenção nisso. Acho que é isso.

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Reportagem publicada originalmente no portal Expresso Na Perifa – Estadão.

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.