Conto originalmente publicado na revista Fala Guerreira do mês de julho
A energia caiu bem na hora que ela esperava uma resposta. Passou dias ensaiando uma forma de tocar naquele assunto. Assim que ela apertou o ‘enter’ na tecla do computador, a luz acabou. Tudo desligou. O celular tinha 20% de bateria e ela correu pra continuar a conversa por lá, mas também não tinha wifi e os dados da operadora dela não estavam pagos aquele mês. Sobraram borboletas, fome e medo dentro do estômago dela.
“Dê, pega a vela no armário, por favor” gritou a mãe dela da cozinha. Foi quando ela lembrou que não estava sozinha em casa e que ela tinha ficado de picar a salsinha pra mistura. Mesmo assim, ela não respondeu. “Elodêêêêê!” insistiu dona Yá, ou Lumyá pra quem não é próximo. Nessa hora parece que uma agulha pinicou a coluna de Elodê, fez ela dar um tremilique na cadeira. “Qui é, mãe?!”, disse em um tom de reclamação. Antes mesmo dela fechar a boca, a correção veio: “Tá pensando que tá falando com quem? Oxê! Morreu um bicho no seu ouvido, é? Traz a vela pra mim, por favor. Tô com a panela no fogo!”
Elodê levantou num solavanco que até o coque que ela tinha feito com as tranças desmanchou. Enquanto procurava a vela no armário perguntava a si mesma se ele iria entender o que ela quis dizer ou se ia se sentir confrontado. Achou a vela pensando, caminhou em direção a mãe pensando. Já apoiada na mesa e protegendo a chama com as mãos até ficar firme e iluminar a cozinha, ela nem percebeu quando soltou audível que “se ele se sentir assim o problema é dele”.

“Ele quem?” perguntou a mãe.
“Quem o que?” ela retrucou sem entender.
“Eita, Elodê! Deixou a cabeça por onde?” provocou Yá, soltando uma gargalhada gostosa em seguida.
“Cadê a salsinha mãe?”, desconversou.

“Lavada já, ali na tábua… Você nunca faz as coisas que te peço por completo, eu que tive que lavar procê. Depois fica falando ai de sororidade” brincou e ofereceu outra risada, largada.

Crédito: Fábio Mota

Crédito: Fábio Mota


Não veio resposta, talvez Elodê nem tenha ouvido. Agora ela já achava que tinha sido agressiva demais com ele, eles não namoram. Ela não podia cobrar nada. “Ou posso?” se perguntou em silêncio. Yá observava e captava cada vazio em seu olhar. Já fazia um tempo que ela sacava a mudança. Uns dias sorria muito, noutros quase não mostrava os dentes. Estava ansiosa e ás vezes era descuidada com quem a cercava em casa, impaciente. Mas ela é sua mãe, pode não a conhecer por completo, mas tem algumas chaves. “Vou preparar um chá de gengibre com hortelã procê, que acha?”
De pronto Elodê sorriu um sorriso pequeno e sabia que Lumyá sabia que algo não ia bem. Elodê se sentiu cuidada nesse momento. A mãe sorriu e já se questionava como poderia fazer uma pergunta certeira que não a afastasse de uma conversa. “Minha preta” foi a forma que ela escolheu pra abrir o diálogo, é como chamava Elodê em momentos de consolo ou quando queria pedir algum favor. “Pode me falar, não vou te julgar em nada. Sabe que não faço mais isso. Você continua saindo com aquele cara?”
O sim veio até antes da pergunta concluir. Elodê estava com os olhos fixos na xícara, era verde e tinha a foto de Aylanda, sua filha, foi lembrança de seu aniversário de cinco anos. “Mãe, eu gosto dele” ela respondeu ainda com a cabeça baixa e soltando um suspiro longo no final. Afiada, mas sendo carinhosa, Lumyá controlou uma certa raiva misturada com medo que sentiu por dentro e afirmou que ele não sentia o mesmo, não da mesma forma. Que a carne e o gozo eram uma forma de amar e que Elodê a tinha ensinado a reconhecer isso. Ela respeitava. Mas que talvez, Dê precisasse de outra esfera do amor agora, uma que não necessariamente viria com palavras bonitas e um pau duro.
“Yá! Eu deveria ter gravado isso, você falou ‘pau duro’!” As duas riram uma risada verdadeira, muito leve e muito fiel. Ainda tinha sorriso nos lábios de Elodê quando ela disse que, sem perceber, parte da liberdade que ela tinha encontrado no discurso tinha se transformado em outra prisão. “Mas como saio daqui agora?” ela perguntou olhando pra cima com cara de choro, ao mesmo tempo que tinha cara de quem não ia deixar a lágrima cair.
Sua mãe respondeu que era amor o que ela sentia por Dê, mas que ela sabia que um dia ela ia procurar um outro lar, seja ele qual fosse. E completou dizendo que Aylanda também a amava e que estariam juntas pra sempre, mas isso não priva sua neta de ficar distante, se quisesse. Lumyá não achava que era amor o que Elodê sentia, mas não ia dizer isso. Tentou mostrar que ela não precisava ficar ali, esperando. Ela podia ir embora dessa relação.
Veio um silêncio arrebatador, até que passou um carro tocando funk muito alto e a janela tremeu e a luz do farol refletiu na janela  da cozinha por segundos. “Bom, Aylanda tá chegando, a comida tá quase pronta. Já coloca água a esquentar pro banho dela. Você enrola muito!”, disse Yá. “Mãe! Não palpita no jeito que lido com minha filha, por favor” ela retrucou. O chá já tinha acabado.
O pai de Landa tocou a campainha. Aylanda gritava do portão que tava com medo e que queria voltar pra casa do papai, que lá tinha luz. Dizia que tinha comido sorvete e que já tinha jantado, não tava com fome. Chorou pra entar. Elodê e ele se cumprimentaram rapidamente, mas com educação. Quando sentiu o cheiro da comida, Landa disse que queria comer sim e começou a correr pela casa, pedindo o vestido de princesa dela. Ela queria brincar de “castelo assombrado”. Elodê e Lumyá já tinham enfrentado um dia inteiro de trabalho, o relógio marcava oito da noite de uma quinta-feira. A menina precisava estar na cama as nove.
“Vamos pro banho antes do jantar, Aylanda. Vou colocar água pra esquentar”, Elodê disse.
“Tá bom, mamãe. Gosto muito de você. Muito, muito mesmo”, disse Landa sorrindo enquanto mexia no seu cabelo pretinho, grande, crespo e mais macio que travesseiro.
A luz voltou. Quando o telefone de Elodê anunciou uma resposta, ela não sentiu vontade de ler. Não naquela noite, pelo menos.
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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo