Brechó Muambei foi criado por Dayane Estefânio, 28, Jéssica Alves, 24, Mariana Pedreira, 24 e Michele Cazuza, 29, moradoras de Itaquaquecetuba e Suzano, cidades do Alto Tietê, no extremo leste da região metropolitana de São Paulo. Surgiu da necessidade das jovens de conseguirem uma grana extra diante do desemprego. Sem um espaço físico específico, as amigas de faculdade organizam bazares na garagem de suas casas e também levam as roupas para feiras e eventos.

Empreendedoras do Brechó Muambei (Créditos: Divulgação)

Empreendedoras do Brechó Muambei (Créditos: Divulgação)


Com uma temática voltada para a moda dos anos 70, 80 e 90, as empreendedoras garimpam roupas usadas em diversos locais para encontrar peças no estilo do Muambei. O brecho completou um ano, com o lançamento de  uma mini coleção com assinatura exclusivas com a marca.
Entrevistamos Jéssica Alves, que contou a história do grupo. Confira:
Nós, mulheres da periferia –  Como vocês se conheceram?
Jéssica – Day, Jéssica e Mari, se conheceram em 2011 na faculdade. A Mi chegou no bonde anos depois por meio de amigos em comum.
 – Como surgiu a ideia de abrir o brechó?
Marcamos de assistir o filme “Até as Últimas Consequências”  na casa da Day e conversando sobre planos futuros, veio a ideia de montar um negócio. Com a Day na época estava trabalhando fora da área, e nós outras desempregadas, pensamos em montar algo nosso, empreender. Vira e mexe a gente compra roupa em brechó e acompanhamos alguns pelas redes sociais. Vimos aí uma possibilidade de negócio, com o foco na nossa região e zona leste.
 – Como surgiu o nome Muambei?
Queríamos um nome que agregasse à nossa identidade, que tivesse relacionado a periferia, um nome fácil de ser lembrado. Eis que surgiu o nome “Muamba” que foi bem recebido por todas, porque cabia tudo o que pensávamos desde sua origem até significado e também por estar atrelado a algo tão comum pra gente da periferia, como as atividades de marreteiros e as sacoleiras. Mas ainda assim, faltava algo pra dar a originalidade. Então, depois de muito quebrar a cabeça, pensamos em criar o verbo ‘muambar’ e flexioná-lo para a terceira pessoa do singular: Muambei, como no som do Criolo. Muita gente acha que o nome vem daí, mas é uma coincidência.
  – Como funciona o brechó? Existe um espaço físico ou vocês só circulam em outros locais?
Ainda não temos um ponto de venda física. Esporadicamente, fazemos o nosso bazar em Itaquá na garagem de uma de nós. Mas normalmente fazemos exposições em eventos culturais pela zona leste.
 – Que locais/eventos vocês expõem os produtos?
Saraus, shows, eventos comunitários e culturais que fortalecem a cultura de rua.
 – Quais são os tipos de roupas do brechó? Como vocês selecionam as roupas?
Trabalhamos com peças no estilo das décadas de 70, 80, 90. Nós garimpamos, onde vamos um brechó de vila ou um bazar de igreja entramos e vamos filtrando pra ver se há peças que se encaixe na proposta do Muambei.
Coleção do Muambei, com roupas dos anos 70, 80 e 90 (Créditos: Divulgação)

Coleção do Muambei, com roupas dos anos 70, 80 e 90 (Créditos: Divulgação)


 – Vocês mantêm outros trabalhos além do Muambei? Vocês têm vontade de viver apenas do brechó?
De todas nós, apenas a Mi trabalha atualmente. Trabalha na área dela realizando trampos de modelagem e confecção. O restante segue desempregada por falta de oportunidade no mercado. O Muambei ser uma fonte de renda e dar essa independência financeira ainda é um sonho distante.
 – Quais são os planos para o negócio de vocês a partir do aniversário?
São muitos. Desde o começo pensamos em expandir e criar uma marca nossa, fazer do negócio um império de quatro manas pretas, gerar empregos e continuar valorizando o empreendedorismo na quebrada. Mas como nada é fácil e tudo é dinheiro, ainda são planos distantes. Cada dia trabalhamos mais pra conseguir alcançar esse objetivo.
Aliás, no dia da festa pretendemos lançar uma novidade que já é o início de um dos nossos planos: vamos lançar um projeto de divulgação utilizando o Muambei como marca, trabalhando o conceito de criação de peças.
 – Por que vocês acham importante manter um negócio de mulheres negras e periféricas?
Podemos usar como exemplo o modelo da pirâmide social, onde as mulheres negras ficam na base, e quando se é periférica, você fica logo na margem, invisível, útil apenas na posição de servir, limpar, obedecer.
Até nós, que conseguimos ter a oportunidade de fazer um curso superior, estamos sujeitas a essa imposição de padrão. A importância vem de quebrar esse estigma e mostrar que a mulher negra, pode sim empreender, ser bem sucedida e independente.
A independência é o primeiro passo para a mulher se reconhecer como ser autossuficiente e começar a ter noção sobre as decisões que pode tomar a respeito do seu corpo, dos seus passos, do seu trabalho e do seus gastos. O Muambei surge justamente pra nos fortalecer enquanto mulheres negras e mostrar que podemos ser o que quisermos e ocupar os espaços que quisermos com dignidade de ser o que somos.
O Brechó participou da Feira de Economia Solidária realizada pelo Nós, mulheres da Periferia em Itaquera, em 2016.

O Brechó participou da Feira de Economia Solidária realizada pelo Nós, mulheres da Periferia em Itaquera, em 2016.


 – Qual a importância de valorizar a moda para as mulheres da periferia?
A moda é uma forma de expressão, principalmente na quebrada. E quando levamos uma proposta de consumo de roupas diferente, seja pelo estilo, pela economia ou sustentabilidade, estamos oferecendo também outra opção de estilo de vida, diferente do que somos induzidos pelo mercado. Muitas pessoas passam a customizar peças e criar seu próprio estilo. Às vezes se identificam e decidem usar isso como uma forma de fazer uma grana como nós, ou se lançam na internet mostrando suas criações. Enfim, a moda é uma forma da mulher periférica ter voz e ação.
 – É possível estar na moda sem gastar muito dinheiro? Moda é só para gente rica?
É possível se vestir bem pagando quase nada, dá um pouco mais de trabalho, porque tem que garimpar, às vezes a peça é linda, mas precisa de uns ajustes, mas vale a pena, porque acaba sendo algo praticamente exclusivo, é você lançando sua própria tendência.
 

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.