A importância de dados sobre empregabilidade trans

Ter dados concretos sobre empregabilidade de pessoas trans nos possibilita construir políticas públicas e privadas

14|12|2023

- Alterado em 17|05|2024

Por Victória Dandara

No último dia 28 de novembro, no 12º Fórum das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos em Genebra, foi anunciado pelo Pacto Global da ONU no Brasil que, em 2024, será realizado um censo inédito sobre empregabilidade da população trans e travesti, em parceria com a startup Nhaí e a agência AlmapBBDO.

Em 08 de novembro, a CIA de Talentos, consultoria reconhecida de recursos humanos, em parceria com ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), FONATRANS (Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros), IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) e CONATT (Conexão Nacional de Mulheres Transexuais e Travestis de Axé), lançou uma pesquisa buscando também compreender os desafios da população trans no mercado de trabalho.

Essas iniciativas, a nível global e nacional, nos mostram que, aos poucos, ganhamos visibilidade para duas pautas urgentes: a primeira é o acesso da população trans e travesti ao mercado de trabalho; a segunda é a necessidade de produção de dados sobre o assunto para construirmos ações efetivas e pautadas em evidência.

Nos últimos anos, o mercado de ESG (do inglês “ambiental, social e governança”) tem crescido muito no Brasil, pela preocupação das empresas em cumprirem um compromisso com os direitos humanos e ambientais.

Daí veio uma explosão (positiva) de discussões sobre diversidade e inclusão no mercado. Porém, mulheres ainda representam apenas 34% dos cargos de liderança, ainda que sejam metade da população. Se analisarmos a média salarial de mulheres negras, percebemos que é 57% menor que a de homens brancos.

Quando falamos da população trans e travesti, então, nem sequer chegamos lá: 90% de nós está na prostituição compulsória por falta de oportunidades, isso no país mais violento no mundo com nossa comunidade.

Victória Dandara

Temos que considerar ainda que essas estatísticas são todas independentes e extra oficiais. Mesmo tendo indícios de que existe um problema, ainda não temos sequer a dimensão de seu tamanho total. Quantas pessoas trans temos no Brasil? Dessas, quantas, de fato, estão no mercado de trabalho formal e quantas foram empurradas para a marginalidade? O quanto ainda precisamos avançar?

Ter dados concretos sobre isso nos possibilita construir políticas públicas e privadas para tentar atacar o problema. No entanto, é difícil tentar resolver uma questão social sem conhecê-la por completo.

Por isso, iniciativas como as citadas acima são importantes. Precisamos de censos, mapeamentos e estudos oficiais e extra oficiais sobre o (in)acesso da população transvestigênere ao mercado de trabalho.

É mais do que necessário que paremos de ignorar o elefante na sala e comecemos a aceitar que, sim, temos um problema de exclusão dessa comunidade e precisamos do compromisso de todos, todas e todes para resolver essa questão.

Não é só o governo, mas também a sociedade civil, as empresas e as pessoas com poder de decisão que precisam se apropriar dessa pauta. Afinal, como sempre repito, se vivemos num país (até onde sabemos) onde 90% de um grupo sobrevive a partir da exploração sexual, o direito de todos e todas está sob ameaça.

Victória Dandara Victória Dandara é travesti, cria da zona leste de São Paulo (SP), pesquisadora em direitos humanos, advogada transfeminista e filha de Oyá. Foi uma das primeiras travestis a se graduar em direito na USP e hoje luta não só pela inclusão da população trans e travesti, mas por uma emancipação coletiva a partir da periferia e da favela.

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.

Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.

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