Neste sábado (30), a partir das 18h30, em comemoração pelo aniversário de 3 anos, o Grupo de Coco Semente Crioula realiza a 1ª Noite do Coco, que acontecerá na Okupação Cultural CORAGEM, na Cohab José Bonifácio, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

O objetivo do evento é reunir grupos e brincantes para realizar sambadas de coco pela Zona Leste e outras quebradas. Nesta primeira edição, a Noite será de festa em comemoração ao aniversário do grupo e terá uma programação totalmente permeada pela presença das mulheres no coco em todas as suas vertentes (música, dança, poesia), e também nas vivências, oficinas, exposições de artesanatos, roupas, livros, comes e bebes,  já que, segundo o grupo, o recorte de gênero é elemento fundamental na formação do Semente Crioula, assim como a referência às Mestras.

Apresentação do Grupo de Coco Semente Crioula (Créditos: Divulgação)

Apresentação do Grupo de Coco Semente Crioula (Créditos: Divulgação)

Dentre as apresentações, o Grupo de Cultura Popular Lelê de Oyá, As Três Marias, o Sol e a Lua, Marabaixo do Amapá, com Suane Brazão, e Grupo de Coco Semente Crioula, com participação especial da rabequeira Kelly Guimarães.

Haverá também vivência de coco de roda com Kelly Santos, oficinas de bonecas Abayomi, com coletivo Abayomi Ateliê, pinturas Efik com Gabi Big Coffe e discotecagem de DJ Alek, além de exposição de artesanatos, produtos e comidas típicas.

Semente Crioula

Grupo de Coco Semente Crioula (Créditos: Divulgação)

Grupo de Coco Semente Crioula (Créditos: Divulgação)

O Grupo de Coco Semente Crioula surgiu em 2014, informalmente entre amigas artistas. Entretanto, segundo elas afirmam, essa história teve início muito antes na vida de cada uma de suas integrantes, em parte nordestinas e em sua maioria, filhas de nordestinos  migrantes que trouxeram na mala suas origens misturadas ao desejo de uma vida melhor em São Paulo.

Por conta disto, o samba de coco já se fazia presente, às vezes até de forma  inconsciente na vida familiar e, consequentemente, nas atividades que realizavam em outros  coletivos e projetos culturais, como forma de expressão, manifestação e brincadeira, que de fato é o coco de roda.  A partir dessas experiências, sempre existiu a vontade de se dedicar a esta linguagem e, por conta disso, este grupo de mulheres se reuniu, pela primeira vez, em Guaianases (extremo Leste de SP) para brincar, tocar, ensaiar e dar início ao que se tornaria o Grupo​ ​de​ ​Coco​ ​Semente​ ​Crioula.

O grupo passou a organizar e realizar oficinas e vivências, compartilhando saberes individuais que, com o passar do tempo, vieram a contribuir com o aprimoramento da técnica do canto, dos instrumentos e da dança de forma coletiva, característica genuína das culturas populares que repartem e multiplicam conhecimento.

Dessa forma o grupo passou a estudar coletivamente o toque dos instrumentos (alfaia, pandeiro, ganzá, maracás, triângulo, rabeca, dentre outros), o canto, a dança, e a poesia do coco, ouvindo Mestras e Mestres coquistas e também fazendo composições próprias, marcadas pelo recorte de gênero.

A partir das próprias bases familiares, territoriais e formações individuais e coletivas, o Semente Crioula, ainda em processo de formação, entrou em contato com outras experiências de grupos/brincantes e partiu para realização de algumas oficinas, dentre elas com importantes referências do coco pernambucano, como o Grupo de Coco Raízes de Arco Verde e o Grupo Bongar, e tiveram contato com Mestras e Mestres como: Dona Glorinha do Coco; Dona Beth de Oxum; Mestre Galo Preto; Zeca do Rolete e Coco de Toré, inclusive em viagens para Olinda (PE), além de participar, frequentemente, de outras rodas de  coco que acontecem em São Paulo, como do Grupo Candearte, Cocomelo, As Três Marias o Sol e a Lua, assim como outras manifestações de cultura popular tradicional que fazem parte desse incrível caldeirão cultural, como Jongo, Maracatu, Samba de Bumbo, Samba de Roda etc.

O Semente Crioula​ também participa de saraus periféricos, cuja experiência soma-se ao trabalho do grupo, a medida em que, nas rodas de coco  intercalam, entre uma cantoria e outra, poesias autorais, trazendo nelas o contexto implícito na poética defendida e expressa pelo grupo: a poesia negra feminina, feminista e periférica.

Conforme o grupo foi se firmando, surgiu a necessidade de se reconhecer através de um nome, e a escolha feita por Semente Crioula​, faz referência à agricultura familiar. As sementes crioulas são sementes que as famílias vêm selecionando, guardando, conservando, ao longo do tempo. São sementes que respeitam o clima, o solo, o ambiente e a cultura das pessoas. Segundo, o agrônomo e pesquisador da Embrapa, Gilberto Antonio Bevilaqua, “A conservação das sementes crioulas faz parte de uma campanha mundial de soberania dos povos quanto à posse de suas sementes”​. São elas as responsáveis pela vida na agricultura familiar de comunidades indígenas e quilombolas.

Para compartilhar a riqueza da produção, os pequenos agricultores promovem encontros para  trocar sementes, passar para frente; de um vizinho para outro ou de pai para filho. As  sementes crioulas se tornaram uma bandeira de resistência ao agronegócio e de afirmação da independência da agricultura familiar. Para o grupo, ser Semente Crioula ​é, ao mesmo tempo, preservar e compartilhar a riqueza da cultura nordestina, de origem afro-indígena, contida no samba de coco e também ser responsável em fazer com que esta cultura resista e também possa ser semeada nos periféricos de descendência nordestina, indígena e negra, que muitas vezes perderam esse contato devido ao processo migratório e as urgências em se viver na metrópole.

1ª Noite do Coco

Data: 30/09/2017

Horário: 18h30

Endereço: Okupação Cultural Coragem – Rua Vicente Avelar, 53 – Cohab II – Itaquera (Próxima à Estação José Bonifácio da CPTM).

 

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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