Por Jéssica Moreira e Lívia Lima

Este conteúdo faz parte do especial “Na periferia da saúde: precarização do SUS afeta mais as mulheres pobres e negras

Café na mesa e bolo de chocolate. Foi assim que as conselheiras de saúde Judite de Oliveira, 55, e Maria Assunção, 66, receberam o Nós, mulheres da periferia na casa da primeira, no bairro de Perus, região noroeste da cidade São Paulo.

A militância de Maria em prol da saúde teve início nas pastorais e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, nos idos dos anos 80 e 1990. Já Judite sempre se moveu pela solidariedade aprendida nos cultos da Igreja Evangélica. O que une as duas? A vontade de reivindicar melhores serviços e condições de saúde para a população peruense.

Durante a entrevista, um livro sobre o sofá vira e mexe é pego pelas conselheiras. Trata-se da cartilha sobre a Legislação do Sistema Único de Saúde (SUS), que sempre carregam junto de si. Nos dão um de presente. Elas sabem quão difícil é a linguagem legislativa, mas também acreditam que só entendendo bem o SUS as mulheres periféricas vão conseguir lutar por seus direitos.

“Os conselhos são pouquíssimos divulgados pelo poder público. Nós somos uma pedra no sapato, estamos ali para discutir os problemas”, conta Judite, que acredita que são mais livres para “bater de frente”, por não ter vínculos empregatícios como os funcionários.

As mulheres nos conselhos

Quando o SUS nasceu como política pública, em 1988, um dos seus principais pilares e inovações foi a inclusão da participação popular. Suas leis garantem o controle social da população, por meio dos conselhos gestores das Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde estão funcionários dos serviços públicos e também a comunidade local. Por lei, toda UBS deve ter um.

Escolhida pela própria população por meio de eleições, as conselheiras ou conselheiros de saúde possuem mandatos de dois anos, sendo renováveis por mais dois. Todo o trabalho é voluntário e não remunerado.

Mesmo sem um estudo, integrantes de conselhos acreditam que esses são espaços formados majoritariamente pelas mulheres, fazendo delas uma representação importante e uma ponte efetiva das necessidades da população e o poder público.

Quem são elas

Nascida em um arraial de Mato Dentro, em Minas Gerais, Maria Assunção cresceu rodeada pela medicina homeopática do pai e o trabalho como parteira da mãe. Não havia SUS naquela época e, povoados como o dela, não tinham sequer um médico pelas redondezas.

“Eu aprendi a fazer trabalho social desde lá. Quando as pessoas adoeciam, era o meu pai que conduzia até Belo Horizonte. Meu pai também fazia os medicamentos e o povo sempre ia procurá-lo. Ele não era pago, não. Ele distribuía. Só quando a pessoa passava muito mal que ia ao médico, levada de cavalo. Quando não era tão grave, buscava pelo farmacêutico”, relembra e conselheira, que chegou ao bairro de Perus em meados de 1970, aos 21 anos, e, mesmo na ‘cidade grande’, não encontrou um cenário tão diferente.

“Quando ainda não existia água encanada, eu tinha poço d’água em casa. Não tinha luz na rua. Era a vila mais atingida pelo pó de cimento da Fábrica de Cimento Portland Perus. Era muito pobre, como é até hoje”.

O mesmo sentiu Judite, que migrou para o bairro ainda quando adolescente, junto à sua família. Moradora de Cordeiros, no interior da Bahia, quando chegou em São Paulo logo se tornou empregada doméstica e só conseguiu e finalizar os estudos quando já estava na fase adulta.

Mulheres periféricas em movimento

O período foi marcado por migrações do nordeste para São Paulo e o espírito comunitário foi um fator determinante para quem acabava de chegar, conta Maria. “Em 1978, juntava um grupo de mulheres do Jardim do Russo e nós dormíamos na porta do posto de saúde de Perus para conseguir vaga para as crianças passarem no pediatra”.

Se a década de 1970 foi marcada pela revolução feminista, em bairro periféricos como Perus crescia o senso de solidariedade entre mulheres que estavam pedindo o básico para elas e suas famílias.

“Nós também íamos no Pronto Socorro (PS) quando alguma criança passava mal à noite. Ninguém tinha carro, então, juntava duas ou três mulheres e vinha com as crianças de noite. Meia noite, uma hora da manhã. Sempre uma com a outra de companhia”, relata.

A conselheira recorda que, na falta de especialidades em Perus, as mulheres iam para o Hospital Sorocabano, na Lapa, aproximadamente 20km de distância, onde enfrentavam filas de até 2 mil pessoas para passar no ginecologista.

“Não era fácil pra nós, pobres. O médico era extremamente grosso. Pessoas da minha idade têm trauma até hoje. Quando a gente vai ao médico, a gente ainda fica preocupada se o médico vai xingar a gente. E quando não era grosso, não falava nada. O acolhimento nas unidades de saúde era agressivo. Era como se a gente tivesse mendigando um pão na casa de outra pessoa. Era grosseiros, estúpidos, não davam atenção”, diz.

“E nós também íamos ao Pronto Socorro (PS) quando alguma criança passava mal à noite. Ninguém tinha carro, então, juntava duas ou três mulheres e vinha com as crianças de noite. Meia noite, uma hora da manhã, nós íamos. Sempre uma com a outra de companhia ”

Meio ambiente e saúde: uma luta que se complementa

A luta por saúde na região sempre esteve conectada à questão ambiental. Inicialmente, a população sofria com problemas respiratórios devido ao pó que a Fábrica de Cimento Portland Perus jorrava em todo o bairro.

Data dessa época, um dos primeiros movimentos ecológicos do Brasil, quando mulheres donas de casa se unem na campanha “o pó de cimento esmaga a vida” e saem às ruas da região pedindo modernização dos filtros e mais saúde para suas famílias.

Com o fechamento da fábrica, em meados dos anos 80, a população foi assolada com outro problema: a instalação de um lixão, que também trazia diversas doenças para a comunidade. Organizada, a população conseguiu dar fim ao lixão no ano de 2000 e, ainda, angariar créditos de carbono para o bairro.

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Fomos recebidas com café e bolo de chocolate

 

“Um dia, eu fui à reunião, mas não entendi nada”

Data desse período os primeiros passos do Movimento de Saúde de Perus. O lixão vinha acompanhado de doenças que acometiam, principalmente, as crianças, o que preocupava mulheres como Maria. “O lixão era aberto, as crianças pegavam coisas lá e começaram a ficar com problemas de pele”, relembra Maria, que ingressou na Pastoral da Saúde e, logo em seguida, foi convidada a participar das reuniões do conselho gestor de saúde.

“Pra mim, foi muito bom, porque facilitou o trabalho e informação que eu tinha para passar para as pessoas”, conta a conselheira de forma orgulhosa. “Eu aprendi quais eram as dificuldades que existiam atrás das Unidades Básicas de Saúde, por que não tinha médico. Ninguém explicava pra gente. A gente chegava lá, não tinha médico, o povo simplesmente xingava o médico. Não eram os médicos os culpados”.

A participação de Judite seguiu caminhos distintos àqueles de Maria. Tudo começou quando suas amigas a convidaram a participar de uma reunião do conselho. “Sempre fui briguenta, ia reclamar no posto que não tinha médico, remédio. As amigas chamavam pra ir na reunião do conselho, eu não sabia direito o que era, não queria saber de política e elas falavam: você gosta de reclamar, por que não vem pro conselho?”.

“Um dia, eu fui. Não entendi absolutamente nada. Quando você chega, você não entende muito o que é, depois você começa a entender e vê que o negócio é muito complexo”, lembra.

No ano seguinte, em 2014, já participou das eleições e se tornou oficialmente conselheira da UBS Perus. Em 2015, participou de um curso da prefeitura para ter mais formação na estrutura e funcionamento do SUS.

Uma causa coletiva

Para a conselheira, ainda falta esclarecimento sobre a função dos conselhos e o incentivo para a participação. A cada eleição é difícil surgir novos candidatos, e como os conselheiros só podem ter até dois mandatos consecutivos, a estratégia é eles ficarem mudando de UBS, para garantir a representação.

“A pessoa pensa que tem dinheiro envolvido. Não é emprego, é uma luta. Quando a pessoa vê que não tem dinheiro, não tem benefício, aí ela já desiste. Quando chega eleição, não tem conselheiros novos para apresentar. São sempre os mesmos”.

Além das reuniões mensais e abertas do conselho na UBS, como movimento, os conselheiros de diversos equipamentos também realizam ações para mobilizar mais a comunidade.

Em uma dessas ações, em prol de uma nova Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na Vila Caiúba, o movimento de saúde promoveu abaixo-assinado e um “abraçaço” como protesto em volta do terreno onde estava prevista a construção do equipamento, em 2018. Agora, o serviço já está em funcionamento. “A gente acaba fazendo o trabalho da administração pública. Depois de oito anos que entregaram, tinha rachadura no teto, infiltração, foi outra briga”, complementa Judite.

Maria enxerga a entrega da UPA como um resultado das discussões que acontecem no conselho, que entende bem quais são as prioridades da comunidade, uma vez que também é parte dela. “A gente cata lá na rua [as necessidades] e leva para o conselho. Já conquistamos muitas vitórias, conseguimos UPAS, construção da UBS na Caiúba, o AMA, a especialidade AMA, o CAPS”, enumera a conselheira.

“O poder público tem medo do povo mobilizado”

Judite acredita que é muito importante que não só os conselheiros, mas toda a comunidade esteja consciente da necessidade de participação para o efetivo controle social, como o próprio SUS determina.

“Se tem uma coisa que o poder público tem medo é do povo mobilizado”.

“Quando o povo está na rua, imediatamente vem a resposta. Se o povo soubesse o poder que tem. Falta mobilização para uma luta que não é minha, é de todos. E aí não adianta dizer que não se envolve em política, a vida é política. Todo mundo fica doente, precisa de médico, de transporte, de moradia. Não adianta eu ficar de braço cruzado, tenho que dar minha contribuição. Quando briga todo mundo junto, você tem voz. Nossa luta é imensa”, pontua.

A conselheira frequenta a Igreja Evangélica Congregação Cristã no Brasil. Para ela, porém, a religião não deve influenciar em sua atuação como conselheira. Ela não nega, por exemplo, a necessidade de orientação sexual para os jovens do bairro e a distribuição de contraceptivos, apesar de acreditar que as relações sexuais devam acontecer após o casamento. “Minha condução pessoal é com minhas filhas. Como conselheira, é diferente. Eu sou uma cidadã brasileira. Há uma coisa que é o que eu acredito, outra o que eu quero pro outro no coletivo”.

 

“Para ser conselheira, é preciso conhecer a comunidade”

Para quem quer se tornar conselheira, Maria deixa a dica: “tem que conhecer as demandas e desafios de sua comunidade”. Para ela, ao entrar neste tipo de trabalho, a pessoa precisa estar ciente da missão coletiva que está cumprindo e deixar de lado os egos, pois “no conselho, há diálogo com toda a equipe, não tem um maior que o outro, nem médico, nem gerente, nem ninguém”, reafirma.

 

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Comentários:

  1. Tenho orgulho dessas duas mulheres são minhas amigas de luta em defesa do SUS.

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