Esse caso da menina Bella, que teve o cabelo alisado pela madrasta, me deixou muito angustiada. Em um momento no qual a gente tem, minimamente, conseguido pautar a questão da representatividade e, assim, do racismo em vários lugares, é muito triste ver que ele ainda nasce dentro da casa de uma criança.

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Bella teve seu cabelo cortado e alisado sem seu consentimento

Crédito: Arquivo pessoal | Instagram

Para quem não está entendendo muito, a Bella é uma criança negra, de cabelos crespos, que adora a textura de seus cachos. Com a ajuda da mãe, Fernanda Taysa, mantém uma conta no Instagram que conta com mais de 270 mil seguidores: o Dicas da Bella. Isso quer dizer que muitas outras meninas pretas podem se inspirar nela na busca de sua autoestima.

Porém, Bella teve seu cabelo cortado e alisado sem consentimento ou autorização da mãe, que relatou em sua conta no Facebook que a madrasta já havia feito comentários negativos sobre o cabelo da menina outras vezes.

“É direito dela se sentir bem com a identidade dela, suas raízes, sua história. Isso não pode ser violado por vaidade nenhuma, a menos que a mesma queira e isso eu tenho a convicção que ela não quis. Quem acompanha os trabalhos da Bella e a acompanha nas redes sociais sabe que ela desde pequenininha é uma criança empoderada e hoje nem dorme direito pois ela já chegou aqui em casa com uma baixa autoestima”, contou a mãe na rede social.

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Lembrei, automaticamente, da história da minha vida. Me ensinaram que ele deveria permanecer bem amarrado porque “ai de mim” se eu pegasse piolho com esse cabelo tão difícil de pentear. “Vai ter que raspar careca”, brincavam. Imagina só pra uma criança ouvir que você vai ter uma parte sua tirada sem você querer?

Pois, bem. Aos 7, eu cortei, pois eu acreditava que cortando poderia ocorrer o milagre dele alisar. Era uma busca tão triste, pois quanto mais eu tentava ficar parecida com as meninas de cabelos lisos, menos eu conseguia. É tão angustiante isso, causando marcar que perduram até hoje no que diz respeito à autoestima enquanto mulher negra.

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Diferente da pequena Bella, que desde pequenininha gosta de seu cabelo e de sua imagem, eu só fui aceitar o meu cabelo crespo pela primeira vez aos 17 anos. Mesmo assim, eu não conseguia me achar bonita e fiz uma escova progressiva e quase morri asfixiada pelo cheiro do formol.

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Eu precisei desse choque para não alisar mais o cabelo e começar a deixá-lo voltar ao normal. Isso foi em 2008, quando nem discutiam esse lance todo de transição capilar. Eu não tinha referência de nada, mas eu sabia que eu não queria morrer asfixiada. Ou seja, ainda ali eu não estava aceitando minha imagem, mas só sobrevivendo com ela.

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Foi aos 20 anos, ao ter minha primeira chefe negra, começar a frequentar espaços de cultura afro-brasileira, que eu finalmente comecei a ver mulheres de cabelos crespos e enxergar toda a beleza que vinha deles. Aí, então, comecei a deixar o meu cabelo só enrolado. Em 2018, faz 5 anos que eu nunca mais passei chapinha nesse cabelo que hoje tanto aumenta minha autoestima.

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