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Moda dos brechós como manifestação identitária na zona leste de SP

Fundadora do “Brechó Tô De Volta”, Fabiana Soares acredita que a periferia utiliza a moda como expressão cultural

Por Mariana Oliveira

21|12|2022

Alterado em 21|12|2022

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Fabiana Soares, proprietária do Brechó Tô De Volta

©Arquivo Pessoal

Fabiana Soares, de 25 anos, descobriu seu gosto pela moda ainda na infância, influenciada por revistas e pela mãe. Há cinco anos, abriu seu próprio brechó virtual. “Sempre tive a cultura de comprar em brechó, para mim sempre foi normal você comprar roupa usada”. Atualmente, o “Brechó Tô De Volta” é sua única fonte de renda.

Aos oito anos, com o pai desempregado e a mãe empregada doméstica, a família abriu o primeiro brechó para complementar a renda. Essa foi sua primeira relação na área. Aos 17 anos, conseguiu o primeiro emprego em um shopping, onde trabalhou por dois anos. Lá, teve contato com vários departamentos da loja. “Entrei como vendedora, fiz nicho de expositores, aprendi formas de gerenciar, trabalhar no caixa e organizar estoque”.

Com a rotina frenética da loja, trabalhando de domingo a domingo, Fabiana sentiu-se cansada e sem oportunidade de estudar, saiu da loja e abriu seu brechó. “Abri a página no instagram e em menos de seis meses, estava com 10 mil seguidores”, conta.

Hoje, Fabiana está no primeiro semestre do Curso Técnico de Modelagem no Senac e alimenta um sonho de abrir sua marca para produzir roupas autorais. Um ateliê, com salas para criações e espaço amplo para seu brechó. Defende a moda como forma de expressão cultural, manifestação de identidade e personalidade.

“Digo por mim mesma, sendo filha de uma mulher preta doméstica que sempre considerou essencial andarmos bem vestidos. Para nós – pessoas da periferia – é importante termos essa consciência, porque, em geral, somos julgados pela aparência. Principalmente nesse sentido é claro que a gente também usa como também a gente quer expressar”.

Chama atenção para o consumo desenfreado na ânsia de se vestir bem, que nos influencia a comprar cada vez mais e, com isso, também se endividam mais. “Estamos sempre gastando muito e nos endividando, quando na verdade não precisamos comprar coisas novas o tempo, porque você vai ter uma coisa durável e que vai conversar com seu estilo”.

Brechó não é necessariamente sinônimo de roupa barata. Nessa perspectiva, relata que a maior dificuldade vem do público mais velho, que por vezes não compreende o motivo dos valores altos de algumas peças.

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Fabiana Soares, proprietária do Brechó Tô De Volta © Arquivo Pessoal

Fabi montas as composições para fazer de looks para estimular os clientes © Arquivo Pessoal

Fabiana também faz sozinha as fotos para o Instagram © Arquivo Pessoal

“Você encontra peças com qualidade que não consegue em lojas de departamento. Vejo pessoas com preconceito de usar roupa usada e não tem conhecimento sobre tecidos. Dessa forma, não entendem porque uma calça de linho, que é uma fibra cara e totalmente natural, difícil de ser encontrada no Brasil vale R$ 100 no brechó”, explica. Também reforça que o processo de buscar as peças, limpar, fazer curadoria caso esteja faltando um botão ou tenha algum furo, até finalmente, expor para venda, influenciam no valor final. “São processos que demandam tempo. Amo o que faço, mas também trabalho pelo dinheiro”.

Essa vivência na moda consciente possibilitou que Fabiana aprendesse seus gostos, aprimorando o autoconhecimento e promovendo a sustentabilidade.

“Não compro coisas da moda, a menos que tenha a ver comigo, pois são milhares de tendências acontecendo ao mesmo tempo. Muita gente se perde porque acha que deve estar em tudo na verdade, quando na realidade precisamos encontrar o nosso próprio estilo”.

O empreendedorismo coletivo

Sua experiência em feiras de brechó independente deu-se quando abriu a loja. Participava de encontros no centro da cidade, porém o desprezo que os organizadores tratavam os expositores a incomodava. Assim, em 2022, Fabiana organizou a “Feira Ecobag Amarela” sua pela primeira feira como organizadora.

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Primeira edição da Feira Ecobag Amarela, organizado por Fabi Soares © Ramon Meirelles

Primeira edição da Feira Ecobag Amarela, organizado por Fabi Soares © Ramon Meirelles

Primeira edição da Feira Ecobag Amarela, organizado por Fabi Soares © Ramon Meirelles

A primeira edição foi realizada na região central de São Paulo. A segunda, com o intuito de valorizar empreendedores da zona leste, aconteceu no Itaim Paulista. “Eu não tenho carro, então tenho que pagar Uber ou alugar uma van para levar as coisas, para mim fica caro”. Além de oportunizar empreendedores locais por meio da “Feira Ecobag Amarela”, o foco é fortalecer o seu nome na moda independente para futuramente ter uma loja referência na periferia.

Com seu futuro ateliê, espera que o espaço acolha colegas iniciantes na moda, e que discriminação relacionadas à existência do brechó compreendam sua “função de fato”. “Quero muito educar as pessoas nesse sentido, em ter um bom custo-benefício com peças exclusivas e estilosas”, finaliza.