Quando o rock também é preto e periférico

Crescer nas periferias de São Paulo ouvindo rock me gerou, em alguns momentos, divisões e reflexões

06|01|2026

- Alterado em 06|01|2026

Por Aline Bispo

Do metal ao grunge, do hardcore ao indie… Não importa, embora o rock tenha uma conexão direta com a música negra e com as minorias, já que suas origens nasceram na negritude e sua força atravessou e questionou a moral de muitos regimes tradicionais, autoritários ou burgueses, crescer nas periferias de São Paulo ouvindo rock me gerou, em alguns momentos, divisões e reflexões em relação à estética musical e à realidade presente em meu cotidiano.

Ainda dentro desse tema, mas viajando para outro continente, por muitas décadas, em Londres, placas com a frase “No Blacks, No Dogs, No Irish” (Sem negros, sem cães e sem irlandeses) foram expostas em muitas pensões e casas para aluguel. Apesar das leis de direitos civis adotadas após os anos 60, as placas desapareceram, mas o racismo e a xenofobia permaneceram presentes nas atitudes.

A Inglaterra colonizou países como a Índia, a Jamaica e a Irlanda, e, por muito tempo, a hostilidade contra os irlandeses se naturalizou nessas placas, assim como outros preconceitos relacionados à raça. É por isso que uma foto da qual gosto muito, quando penso sobre os negros e o rock, é a de Phil Lynott, jovem, negro, irlandês e vocalista da banda de hard rock Thin Lizzy. Nessa foto clássica, Phil usa uma camiseta com a seguinte frase: “More Blacks, More Dogs, More Irish” (Mais negros, mais cães e mais irlandeses), em resposta às placas preconceituosas.

Rock na quebrada

Cresci e vivi minha adolescência e o início da juventude na periferia de São Paulo. Circulando pela cidade, estive muito envolvida em ambientes conectados ao rock de alguma maneira, especialmente ao hardcore e ao punk: shows, festivais, zines e diversas atividades culturais. A imagem de Phil usando essa camiseta me tocou muito porque, além da provocação da frase, vê-lo se destacar como vocalista em um gênero musical como o hard rock, no qual o mercado buscava e incentivava outras imagens, em sua maioria brancas, é algo muito significativo.

Sempre que penso sobre minha formação de vida e olho para os períodos mais jovens e de descoberta, imagino como teria sido minha adolescência ouvindo mais bandas com pessoas que se parecessem comigo e que falassem mais abertamente sobre vir de um contexto de periferia, como tenho visto de modo mais acessível atualmente. Isso tem sido mais presente hoje, com os recursos que temos, como as mídias sociais, os podcasts e os serviços de streaming, que facilitam o acesso à música e a outras discussões.

Sei que esse sentimento em relação ao pertencimento (ou a falta dele) no rock não é individual nem exclusivo. Em 2015, uma entrevista do cantor Seu Jorge para a Noisey, portal de música da Vice, ferveu nas redes sociais, tanto pelo título “O rock não é um gênero para negro” quanto pelo posicionamento do cantor sobre a relação entre a categoria musical e as periferias, subúrbios e favelas. Apesar de o cantor falar sobre sua perspectiva e conexão com o rock a partir de sua própria geração e experiências, muitas pessoas comentaram e escreveram a respeito, tanto pardas-negras, light skin ou pretas com conexão direta com o estilo musical, quanto em relação à própria história do rock, que é preta.

O artigo “Protagonismo negro no rock: onde estavam os representantes dos anos 1980 e 1990?” traz o seguinte apontamento sobre a pouca presença de pessoas negras no imaginário popular do rock:

“Existem algumas hipóteses para a pouca presença de representantes negros no rock nacional dos anos 1980 e 1990. Para Muniz Sodré (2015), como vivemos em uma sociedade regida por um pensamento branco, ‘a clareza ou brancura da pele (…) persiste como marca simbólica de uma superioridade imaginária’ (p. 266). Nesse panorama, a mídia acaba atuando de forma macro e desempenhando um papel fundamental na produção e reprodução do preconceito e do racismo, legitimando a desigualdade social através da cor da pele. Para Sodré, editores, colunistas, jornalistas, entre outros profissionais de mídia, atuam como um tipo de grupo técnico de imaginação, ‘responsável pela absorção, reelaboração e retransmissão de um imaginário coletivo atuante nas representações sociais (…) o imaginário é categoria importante para se entender muitas das representações negativas do cidadão negro’ (SODRÉ, 2015, p. 278).”

Quem cresceu entre o fim dos anos 90 e a metade dos anos 2000, com acesso à MTV, pôde acompanhar o auge daquela que, talvez, tenha sido a primeira emissora aberta a investir em videoclipes, revelando e alavancando nomes de sucesso na música. No Brasil, essa fase muitas vezes foi determinante para definir o que era considerado bom e culto no cenário musical e, quase consequentemente, isso significava branco. Para algumas pessoas, esse foi um momento que relegou gêneros como o rap a uma segunda categoria, enquanto outros, como o pagode e o samba, permaneceram exclusivos das camadas populares por estarem diretamente conectados a pessoas negras.

Apesar da influência da TV e do rádio nesse contexto, muitas pessoas e movimentos trabalharam e ainda trabalham para resgatar esse espaço, tanto em termos de origem quanto de representatividade. Um deles é o AFROPUNK, que hoje é também um festival presente no Brasil, mas surgiu como um movimento cultural e de resistência negra dentro da comunidade punk rock, que passou a ser majoritariamente dominada por brancos. O primeiro passo para o que vemos hoje começou com o documentário “Afro-Punk: O Filme” (2003), dirigido por James Spooner. O documentário acompanha e conta a história de quatro afro-americanos que viviam a cultura punk rock no início dos anos 2000.

Hoje, no Brasil, o podcast Balanço e Fúria (disponível também no Spotify) apresenta entrevistas sobre temas diversos ligados à música e à política. Destaco alguns episódios relacionados a pessoas negras, às quebradas e ao rock:

Pensando nessas conexões, na história e na importância do gênero para pessoas negras no Brasil, ao longo dos próximos meses, trarei entrevistas com pessoas ligadas ao rock e ao seu legado próximo à negritude e à periferia. Falaremos um pouco mais sobre sua história e seus sentimentos ligados à representatividade.Mas, antes disso, quero deixar o link da playlist Rockzinho Melaninado, disponível no Spotify e atualizada continuamente. Ela apresenta bandas que são referências nacionais e internacionais dentro do rock, com integrantes negros, birraciais e/ou mestiços.

Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.

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