O assassinato de Renee Good e a política do medo
Como o governo Trump tem normalizado o autoritarismo e definido quem pode existir nos Estados Unidos e no mundo
12|01|2026
- Alterado em 12|01|2026
Por Sâmia Teixeira
“Estamos na Alemanha?”
A pergunta é feita por um motorista de aplicativo em Minnesota, após ser abordado por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) enquanto aguardava em um estacionamento os chamados de corridas. Não havia crime, não havia denúncia, não havia mandado. Havia apenas a insistência: você é cidadão americano?
Este homem, até o momento não identificado, viralizou nas redes sociais por ter registrado a situação. Talvez, a câmera na mão tenha sido o que lhe salvou. E sua pergunta inicial não poderia ser mais certeira. Afinal, as políticas de terror de Donald Trump contra imigrantes – sem documentação ou até mesmo os legalizados – remetem perfeitamente à Alemanha nazista.
A abordagem viralizada ocorreu em 8 de janeiro, mesmo dia do assassinato da mãe e ativista norte-americana, Renee Good, muito ativa em sua comunidade. Renee foi assassinada em um episódio que escancara o ambiente de violência política e social que se intensifica nos Estados Unidos, sobretudo após o anúncio da operação “Patriota 2.0” de Trump, iniciada em seu segundo mandato.
©Geoff Livingston_flickr
O assassinato de Renee ocorreu durante uma abordagem que, assim como no caso do motorista de aplicativo, não se sustentava em denúncia formal nem em ameaça concreta. A ação foi registrada em vídeo por sua companheira e rapidamente se espalhou pelas redes, gerando indignação e protestos em diferentes estados. Este não foi um evento isolado, mas o resultado direto de uma política que legitima o uso da força, da intimidação e da desumanização como ferramentas de governo.
Misoginia como arma de ataque
De início, muitos imaginaram que a morte de Renee provocaria uma situação constrangedora para o governo Trump, a extrema-direita e seus apoiadores. Afinal, haviam assassinado uma cidadã estadunidense e branca. Mas, para o bem do discurso e alívio – imoral – dessa fração, conforme informações sobre quem era Renee foram surgindo, mais ódio e intolerância eram manifestados publicamente. Renee passou a merecer a morte não somente porque eles alegam que ela tentou atropelar o policial – o que não ocorreu – mas por ser LGBT, ativista, poeta e mulher. Exemplo disso é que em comentários publicados na rede X, alguns perfis compartilharam prints de um vídeo publicado na Porn X, plataforma de vídeos pornôs, com o título “levando uma ejaculada forte e quente no rosto”. Peço desculpas por tal descrição, mas isso é grotesco. É a manifestação máxima do prazer que um homem pode ter de ver uma mulher – que se coloca no mundo como livre, LGBT e ativista – ser morta com tiros à queima roupa.
Em um país que vive intensa crise econômica, política e social, é comum que tais violências sejam exacerbadas. Em entrevista para o jornal da Universidade da Califórnia em Berkeley, a filósofa Judith Butler destacou que “quando as pessoas não conseguem nomear o que ameaça suas vidas, sentem-se tão inseguras que têm a sensação de estar perdendo tudo o que lhes é mais precioso. Muitas vezes, essa intensa sensação de insegurança é deslocada para a migração, para as diferenças raciais, em vez de ser focada na desumanidade inerente aos Estados e aos mercados.”
As mulheres vivem isso todos os dias, sentindo na própria pele – e com maior frequência e violência, nas peles mais escuras – ou assistindo à dor das outras. Se é ruim ser imigrante, ser mulher ou LGBT imigrante é ainda pior.
Como descrito em coluna anterior para o Nós, há casos de violência sexual e até mesmo procedimentos de histerectomias (remoção do útero) forçadas que ocorrem em centros de detenção para imigrantes nos EUA. Em 2024, vieram à tona denúncias de estupros de crianças imigrantes desacompanhadas, em casas de transição em estados como Texas, Arizona e Califórnia. Estupros praticados por funcionários de um programa chamado Southwest Key Programs, que abrigava indocumentados menores.
Apesar das manifestações de ódio e misoginia, dados recentes do Pew Research Center indicam que, à medida em que o governo Trump intensifica suas políticas de deportação, cresce também a percepção de que essas ações ultrapassam todos os limites. A pesquisa revela que 53% dos norte-americanos afirmam que o governo está “indo longe demais” nas deportações de imigrantes em situação irregular. Entre democratas, esse índice chega a 86%, mas chama atenção o crescimento da discordância também entre republicanos, especialmente entre republicanos hispânicos, dos quais 47% consideram as medidas excessivas. Esses números revelam uma sociedade tensionada, em que o autoritarismo estatal começa a romper até mesmo ordens políticas tradicionais.
A fabricação do inimigo
A intensificação das políticas migratórias repressivas não ocorre no vazio. O imigrante, sobretudo o imigrante pobre, racializado e latino, passa a ocupar o lugar do inimigo interno ideal em cenário de crise. Não é coincidência que o endurecimento das deportações caminhe lado a lado com o avanço de um discurso nacionalista, punitivista e autoritário, que transforma a sobrevivência do outro em risco. Um discurso que se sustenta na ideia de que alguns teriam mais direito aos privilégios daquele território do que outros.
Essa lógica de perseguição não apenas encontra terreno, como é deliberadamente explorada em um momento de aumento do fluxo migratório em nível global.
Desde 2021, o número de imigrantes indocumentados aumentou significativamente em quase todas as regiões do mundo, com destaque para a América do Sul, que registrou um crescimento de 1,3 milhão de pessoas. Em 2023 e 2024, a chegada de grandes contingentes da América Latina resultou em um aumento anual de quase 2 milhões de pessoas na população hispânica dos Estados Unidos, o maior já registrado.
Para além dos dados, essa política se traduz em medo cotidiano e vigilância constante. *Camila, brasileira da periferia de São Paulo que vive nos Estados Unidos, relata que mesmo em “cidades-santuário”, o clima é de medo extremo.
Nos EUA, uma cidade-santuário é aquela que garante, por meio de leis, mais direitos aos imigrantes indocumentados e documentados e que limita, em maior ou menor grau, a ingerência de autoridades locais com a polícia de imigração – ICE.
“Hoje o nosso dia a dia não é mais normal. Antes a gente saía para trabalhar sem medo. Agora, sair de casa virou um ato de pânico”, conta Camila. Segundo ela, o medo não é abstrato, mas organizado no cotidiano. “A gente sai de manhã olhando para todos os lados, vendo se tem alguém parado na esquina, algo estranho. Existe uma rede de comunicação entre a comunidade brasileira e a comunidade hispana. Temos grupos de mensagens. Quando alguém vê uma abordagem, avisa: ‘não passe por tal rua, eles estão lá’.”
Mesmo em regiões classificadas oficialmente como santuário, Camila afirma que agentes do ICE atuam com arbitrariedade. “Eles entram e tocam o terror. Dizem que estão procurando pessoas com problemas na Justiça, mas isso não quer dizer nada. Se vêm atrás de alguém em um prédio, não respeitam quem está em volta. Batem na porta, entram, pegam quem estiver ali. Não importa se tem mandado, se tem documento. Eles não respeitam nada.”
Ela relata que a situação se agravou após a participação em protestos. No final do ano passado, durante uma manifestação em Nova York, imigrantes passaram a ser abordados e enquadrados como irregulares. “Foi assim que a gente entrou no sistema. Recebemos um processo.”
Segundo Camila, o que antes envolvia audiências e prazos mais longos agora se transformou em ordens diretas de saída do país. “Hoje não existem mais cartas para comparecer à Corte. Agora é decreto. Tem que sair.” A mudança, segundo ela, não se restringe às ruas, mas atinge em cheio o sistema judicial. “A maioria dos juízes de imigração agora é alinhada ao Trump. Tem gente sendo deportada sem o processo julgado. Direitos básicos estão sendo ignorados.”
O medo, que antes se concentrava na prisão e na deportação, ganhou uma nova dimensão.
“Antes, o nosso medo era sair para trabalhar e não voltar porque podia ser presa. Agora o medo é outro. É sair e ser morta. Depois do que aconteceu com aquela mulher, a gente não sabe mais o que fazer.”
Camila conta que evita abrir o carro em abordagens. “Se baterem no vidro, eu não saio. Fico ali dentro. Eu não quero ser pega.”
Apesar disso, ela insiste na resistência coletiva. “Se a gente não se comunicar, não se apoiar, não sobrevive. Essa terra foi construída por imigrantes. Se acabarem com os imigrantes, acabam com essas cidades.” E conclui: “Enquanto eu puder lutar, eu vou lutar. Não é justo aceitar esse terror.”
Nesse contexto, é preciso destacar que Donald Trump não é “apenas” um problema nacional ou do campo das relações internacionais. Nem é apenas um desvio pontual da democracia liberal. Trump é, sobretudo, a expressão explícita de algo que sempre esteve presente nas estruturas políticas, sociais e culturais dos Estados Unidos e de outras democracias ocidentais.
Trump retira o véu. Ele diz em voz alta aquilo que antes era sussurrado nos bastidores. O racismo estrutural, o autoritarismo latente, a naturalização da violência contra corpos vulnerabilizados.
Mas, mais importante que constatar tudo isso, talvez seja entender que Trump traz para o mundo algo preocupante e novo – ou “de novo”. Ele encarna um momento histórico de profundo retrocesso civilizatório institucional, em que direitos passam a ser tratados como privilégios revogáveis e não há mais qualquer marco de segurança ou multilateralidade. Por mais toscas que figuras como Trump possam ser, elas representam algo maior que não pode ser subestimado: a naturalização e aceitação da barbárie. Nesse cenário, quem está no topo segue seguro, enquanto a desigualdade e a violência matam mais e mais os de baixo.
Tal como Jair Bolsonaro no Brasil, Trump transforma a política em um espetáculo permanente. Um teatro sustentado pelo ego, pelo narcisismo e por uma masculinidade frágil, infantilizada e agressiva. Não há projeto coletivo, há performance. Não há responsabilidade pública. Cada gesto, cada declaração, cada ataque serve menos à administração do Estado e mais à manutenção de sua centralidade performática. Ele governa pelo medo. Cria inimigos internos, estimula a intolerância como linguagem política legítima.
Imigrantes, pessoas negras, mulheres, pessoas LGBT, ativistas e jornalistas tornam-se alvos preferenciais. O conflito é o método, o caos é a estratégia, e o terror cotidiano é o efeito desejado.
Essa teatralização da política não é improvisada. Ela se apoia em técnicas clássicas do populismo autoritário, tendo como base a simplificação extrema dos problemas, apelos emocionais constantes, desinformação deliberada e a criação de uma narrativa de guerra permanente, direcionando a frustração popular contra si mesma e a grupos historicamente vulnerabilizados.
A entrevista de Butler também explica tal fenômeno, quando a filósofa afirma que “aqueles que seguem a propaganda de Trump podem não se importar se ela é verdadeira ou falsa. Eles gostam da sensação que ela lhes proporciona”. Essa afirmação ocorreu em uma conversa de 2022, início do movimento Maga (Façamos a América grande novamente) nos Estados Unidos, e exemplifica uma característica perigosa que tem sido notada em todo o mundo “isso [a sensação que a propaganda causa] lhes permite imaginar que vivem em um mundo que reflete seus valores ou que patologiza e demoniza os outros de forma legítima”, frisa a filósofa.
Temos passado os últimos anos assistindo aos horrores das guerras, o genocídio do povo palestino sendo transmitido ao vivo pelas redes sociais, o abandono do Sudão, um país latino-americano tendo seus recursos naturais roubados, seu presidente sequestrado e sua soberania atacada, enquanto um chefe de Estado laranja faz dancinhas, piadas e ameaças, agindo como se o o mundo fosse seu joguinho de tabuleiro.
Diante disso, a pergunta feita pelo motorista de aplicativo segue fazendo muito sentido: estamos na Alemanha?
“A história ainda que não se repita, ela rima”, comentou o jornalista Jamil Chade em um dos seus recentes artigos, nos lembrando que quando práticas autoritárias passam a ser normalizadas, quando a violência estatal se torna espetáculo, quando a desumanização vira política pública, o alerta já foi dado. Em 2025, foram 32 imigrantes mortos em abordagens e, em grande parte, sob custódia do Estado. De setembro até janeiro, foram quatro mortes em abordagens policiais, o que revela postura mais agressiva por parte dos agentes de imigração.
A resistência, hoje, não é uma opção moral abstrata, mas uma questão de sobrevivência e uma necessidade histórica.
Resistir é nomear o terror, denunciar a violência, recusar a naturalização do ódio.
É lembrar, insistentemente, que direitos não são concessões e que nenhuma democracia sobrevive nessa conjuntura. A pergunta, portanto, talvez precise ser ampliada. Se sabemos para onde esse caminho leva, o que estamos dispostos a fazer para interromper e mudar esse percurso?
*Nome fictício para preservar a identidade da fonte
Sâmia Teixeira é mãe de gêmeas e jornalista. Foi assessora da União Nacional Islâmica, onde criou o jornal Iqra. Atualmente integra a comunicação da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas, escreve sobre movimentos sociais e mundo sindical internacional.
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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