Os cuidados ligados à saúde se tornaram mais recorrentes nos últimos tempos. Não à toa, já que os riscos relacionados ao coronavírus atravessam o mundo. Em meio a tudo isso, olhar para a saúde mental neste momento também se torna importante, principalmente para quem está em casa durante a quarentena. Para dar conta das mudanças que esse período pandêmico trouxe, profissionais como Tatiane Menezes, 27, estão realizando aulas de Yoga a baixos custos para mulheres moradoras de bairros periféricos.

Além de ser um grande auxílio nesse momento, a prática também acaba colaborando no pagamento das contas, já que Tatiane também é mãe solo e depende dessa atividade para o sustento e sobrevivência dela e do filho, Johnny, de 11 anos.

Yoga para tempos difíceis 

Os benefícios são inúmeros e imediatos já nas primeiras sessões, conta Tatiane. As pessoas relatam diminuição de dores, maior disposição e leveza e melhora na qualidade do sono.

A medicina milenar do Yoga combate, entre outras coisas, ansiedade, depressão, angústia, pois  ajuda o praticante a se colocar em contato consigo mesmo, trabalhando sua reforma íntima.

“Fisiologicamente, os àsanas ( posturas) trabalham diversas glândulas, órgãos internos e músculos melhorando muito a saúde do corpo. O resultado é exteriorizado em um corpo saudável, tonificado e definido e uma alma mais leve”,

A instrutora explica que o Yoga pode ajudar a entender o estado de confinamento que muitos estão. “Muitas vezes sem acesso ao sol, ao ar puro e à convivência social, faz com que tenhamos que lidar com nossos ‘monstros’, gerando ansiedade e sentimentos depressivos, ruminações extremas. O que antes era preenchido das mais diversas formas, hoje tem-se esse vazio latente que não pode ser estirpado, mas pode ser enfrentado”,

Veja aqui os demais benefícios da prática nesse momento: 

  • Aumento da imunidade, pois enche nosso corpo de Ojas (energia cósmica de auto-proteção do nosso ser);
  • Aumenta nossa vibração fazendo com que tenhamos energia no dia a dia;
  • Um jeito de de aprender a ter auto-disciplina e cuidar do corpo e mente;
  • O Yoga é um caminho maravilhoso que auxilia você olhar a fonte desse vazio e preencher de ar, de movimento, de presença, e de um olhar mais carinhoso e profundo de você consigo mesmo;
  • Em um sistema social que preza por nos fazer doentes e ignorantes o melhor caminho é o que nos leva à saúde como forma de resistência e a levar a cabo o que o velho jargão grego dizia: ” Conhece-te a ti mesmo e depois conhecerá todo o universo e os deuses, pois se o que procuras não achares dentro de ti, não acharás em lugar algum”.

Tatiane acredita que a prática pode ajudar todas as gerações

Crédito: Arquivo pessoal

Yoga não é só para classe média

Nascida e crescida em Perus, na região noroeste de São Paulo, Tatiane também é formada em Filosofia pela Unifesp e, há pelo menos três anos, tem voltado suas pesquisas no campo da estética política dos corpos na sociedade contemporânea e como isso se relaciona com a Yoga.

A imersão com os exercícios começaram quando ela estava vivendo processos de depressão e ansiedade. “Foi por meio do Yoga que consegui encontrar equilíbrio para poder continuar na luta e hoje, além de uma ser uma experiência de estudo de si e de crescimento pessoal, é meu trabalho, minha principal fonte de renda”, conta.

Quando se fala em Yoga, muita gente imagina que isso é coisa de gente com dinheiro. Tatiane explica que, por muito tempo, o Yoga realmente foi elitizado e ficou restrito a uma pequena parcela de pessoas, geralmente branca e de classe média.

“Os espaços que oferecem a prática e estudos ficam nos bairros nobres da cidade, e os valores das aulas totalmente inacessíveis para nossa realidade”, explica a professora, que se sente incomodada com o fato e que, por isso, começou a democratizar a prática em seu bairro, pois entende que são as pessoas na periferia, principalmente as mulheres, que mais podem ser beneficiadas com a imersão.

“O Yoga é algo muito simples, muito humano, ele vem pra descomplicar [a vida]. No entanto, é colocado em um pedestal que impede que as pessoas que estão condicionadas à uma vida de extremo estresse, pressões psicológicas, sofrimentos, transporte público caótico, má alimentação e privação de direitos básicos de humanidade e cidadania , tenham acesso”.

A instrutora explica, no entanto, quão importante a prática é para as mulheres negras. “Estamos à margem da margem na sociedade e sofrem diariamente os impactos da desigualdade social e do racismo estrutural, sendo privadas do auto-cuidado, auto-conhecimento e amor próprio”.

Tatiane explica que a presença de mulheres negras na cultura do Yoga, seja praticando, estudando ou instruindo ainda é muito baixa e que constatou isso também em suas aulas. Embora ela seja uma instrutora negra, a maioria de suas alunas ainda eram brancas e, por isso, ela passou a pesquisar e a introduzir nos encontros uma vertente de origem africana egipícia chamada Kemetic, para trabalhar mais o empoderamento das mulheres negras.

“Uso isso como um signo de empoderamento das pessoas negras no que tange à apropriação e resgate desse cuidado de si, cuidado dos nossos corpos que ainda sofrem dores profundas, que são somatizadas de forma muito violenta. Através da postura do corpo, do olhar, do posicionamento nas relações sociais e na sociedade como um todo.  Meu sonho é ver mais mulheres negras tendo acesso ao Yoga, ao auto conhecimento, à espiritualidade e assim se tonarem donas de si e poderem se cuidar de forma efetiva, uma cura de dentro pra fora”, conclui.

Desmistificando a prática 

As aulas, que duram em torno de 1h, são feitas tentando compreender o ser humano em uma complexidade não-limitante, ou seja, Tatiane não segue uma escola ou estilo específico da prática, mas sim personifica isso a cada um dos alunos que chegam até ela. Ela atende hoje idosos, crianças, gestantes, por exemplo.

“Aos poucos vou conhecendo o corpo, as limitações e o ritmo e, assim, a aula fluí na leveza. Procuro alinhar a questão principal do Yoga que é a consciência focada no presente, principalmente na respiração e consciência corporal, a fluir nos movimentos como uma dança através da respiração, a superar os seus limites, e enfrentar os desafios saindo da zona de conforto”, explica.

As aulas ainda contam com aplicações práticas dos estudos feitos no campo da corporeidade com introdução de técnicas psicossomáticas de Bioenergética Reichiana, Antiginástica e Consciência de si.

Faça sua aula também

As aulas, antes oferecidas em sua casa e também na Comunidade Cultural Quilombaque, estão sendo realizadas agora de maneira virtual. Os preços variam conforme as possibilidades financeiras de cada pessoa. Basta entrar em contato por meio das redes sociais, seja no perfil do Instagram Aum Soham Yoga, onde há várias dicas, no Facebook Soham Yoga Terapia ou enviar uma mensagem para o número  (11) 9-4346-0081.

Cuidar de quem cuida: saúde mental da mulher negra da periferia

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