A reabertura da rede de ensino paulista, prevista para 8 de setembro, segundo anúncio do governador João Dória (PSDB), tem gerado polêmica entre mães e educadoras das periferias de São Paulo. 

Diante de um cenário crescente dos casos de contaminação e de mortes por Covid-19, as mulheres ouvidas pelo Nós, mulheres da periferia temem pela vida das crianças e também pelas suas próprias. São 13,3 milhões de estudantes e 1 milhão de profissionais da educação em todo o estado. Veja a reportagem em vídeo:

“Eu não vou deixar meu filho ir porque ele tem problemas respiratórios. É uma criança de risco, já teve pneumonia, bronquite, sinusite. Prefiro um filho que perca um ano [escolar] do que a vida”, diz Aline Alves, 30, dona de casa e moradora de Caieiras, região metropolitana de SP.

Os receios de Aline não são à toa. Embora os primeiros testes com vacinas tenham se iniciado, ainda não há uma solução capaz de proteger toda a população, nem aqui, nem no mundo. O estado de São Paulo lidera o ranking de contaminações, com mais de 422 mil infectados e ultrapassando a casa de 20 mil óbitos, sendo 1 a cada 4 mortes do país.

“É um absurdo o retorno diante do alto índice de contaminação. Eu me preocupo muito com quem está na periferia, assim como eu, que estou na região da Brasilândia (zona norte de SP), onde o índice de mortalidade tem sido um dos maiores”, reflete Iva Mendes, educadora popular, mãe de alunos e coordenadora do comitê paulista da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

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Mesmo assim, em 6 de julho, a capital paulista seguiu seu plano de reabertura econômica, com justificativa de que a cidade possui estabilização no crescimento dos casos da doença e lotação de UTIs abaixo de 70%.

Para que a reabertura das instituições de ensino — públicas e privadas, da creche à universidade — realmente aconteça, no entanto, todas as regiões do estado precisam estar, a pelo menos 28 dias, na fase amarela (estágio 3) do plano de flexibilização, ou seja, até 7 agosto.

Regras e protocolos

Na primeira etapa da volta, a Secretaria Estadual de Educação sinaliza que as escolas não poderão receber mais do que 35% dos alunos em um único dia. Isso quer dizer que, em uma escola com 1 mil alunos, apenas 350 poderão comparecer à aula presencial.

Para a garantia desse número haverá rodízio entre as turmas. Na 2ª fase de abertura espera-se 75% de presença dos estudantes. Crianças com Covid-19 ou parte do grupo de risco não são obrigadas a ir. As famílias devem solicitar a liberação diretamente na escola.

Mesmo com a construção de protocolos de segurança, as profissionais de educação apontam os desafios existentes nas unidades escolares, principalmente nas periferias, onde sempre existiu a superlotação das salas de aula, por exemplo. 

Para a epidemiologista Maria Amélia Veras, professora adjunta do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), é importante refletir sobre a desigualdade de estrutura que permeia as escolas brasileiras já que muitas não possuem recursos para readaptar suas salas, laboratórios e, tampouco, possuem áreas mais amplas e verdes.

“A escola não é só o estudante e o professor. Ela mobiliza as famílias e toda uma comunidade. Dependendo da idade das crianças que estão na escola, pais ou algum membro da família precisa levar, utilizar o transporte coletivo. Pensando em toda essa complexidade, precisamos ter cautela para reabrir as escolas, pensar um planejamento e adaptações físicas”, afirma a especialista. 

Crianças brincam em playgroud em Perus, região norte de SP.

Crianças brincam em playground em Perus, região norte de SP.

Crédito: Jéssica Moreira

Pressão do setor privado

No dia 7 de julho, o Conselho Nacional de Educação (CNE) votou parecer defendendo o retorno das instituições privadas antes mesmo das públicas, com argumentos de que teriam mais estrutura e, assim, evitariam riscos de falência. Em São Paulo, Dória pontuou que ambas têm previsão simultânea de volta. 

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Laura Mattos aponta que o plano de retomada paulista recebeu apoio da Associação Brasileira de Escolares Particulares (Abepar), que inclui colégios de elite como Bandeirantes, Móbile e Dante Alighieri. O mercado nacional, porém, é composto 80% por escolas menores, que atendem as classes C e D.

Luciana* é professora de inglês da rede particular em um desses colégios considerados menores na periferia da região norte. Em casa há quase quatro meses, ela não entende a razão de voltar agora. “Meu maior medo é o vírus se alastrar e acabar aumentando o número de casos”, diz.

Para chegar ao trabalho Luciana precisa utilizar transporte coletivo, ônibus ou trem, em horário de pico, e teme que, para além da sala de aula, crianças e professores também possam se contaminar nos trajetos.

“Eu pego condução e vou até a escola, quantas pessoas eu tive contato para chegar até a escola? Lá, eu tenho os meus alunos me esperando, eu não sei se eu estou saudável para estar compartilhando o mesmo ambiente, que não tem tanta ventilação, não tem tantos recursos para que seja um ambiente seguro para eles”, aponta. 

Reabertura em detrimento da aprendizagem

Do outro lado da cidade, outra educadora concorda com Luciana, mesmo sem conhecê-la. Diretora de um Centro de Educação Infantil na zona sul da capital, Juciele Nobre enxerga a reabertura com desconfiança, principalmente para os pequenos.

Ela explica que, na educação infantil, as crianças aprendem por meio da interação e socialização, sendo que o brincar coletivo que propicia a aprendizagem com mais qualidade e significados.

Para ela, o protocolo não olha para a questão pedagógica, comprometendo o processo de ensino e aprendizagem.“Em uma escola de educação infantil onde não existe o contato, o direito à aprendizagem está comprometido. Ou a gente tem o atendimento dos protocolos de segurança, ou a gente tem condições de aprendizagem real na infância. Uma coisa se opõe à outra”, diz. 

A educadora se preocupa ainda com as famílias que não poderão levar seus filhos à escola, entendendo que deveria ser direito desses cuidadores e cuidadoras a escolha em levar ou não a criança, diante do cenário de crise sanitária.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), as famílias são obrigadas a matricular as crianças a partir de 4 anos e não podem interromper o vínculo. “Precisamos fazer uma grande mobilização, recorrer à justiça ou conselhos tutelares, garantir que os direitos das crianças e nossos direitos como pais de deixar essas crianças em casa e a criança não perder a vaga na escola”, aponta Iva. (Veja onde encontrar conselhos tutelares).

 Mães arrimo de família

“Todas as mães pensam como eu, de não mandar os filhos. A não ser as mães que trabalham, que realmente estão precisando do sustento dentro de casa, passando muita necessidade e precisam mandar os filhos para a escola para poder trabalhar”, comenta Aline, que entende que o cenário muda em cada família. 

Afinal, mesmo com todos os desafios já apresentados, é importante lembrar que a volta à escola acontece perante a volta do comércio, onde muitas mulheres chefes do lar atuam. Algumas, inclusive, nunca nem tiveram quarentena e são as mais afetadas pela quarentena, economicamente e socialmente.

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Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), até 2015 o Brasil tinha, ao menos, 11,6 milhões de arranjos familiares monoparentais, ou seja, lares chefiados por mulheres, sendo a maioria (61%) de mulheres negras. Dentre esses lares, 63% estão na linha abaixo da linha da pobreza. 

O Instituto Polis também realizou um levantamento mostrando que, entre 21 de março e 27 de maio, alguns dos bairros com maior índice de mortos pela Covid-19, como Brasilândia e Capão Redondo, são os que possuem maiores concentrações de famílias de baixa renda chefiadas por mulheres.

Pelo mundo

Quando o assunto é volta às aulas, mesmo países que já estão em situações de maior estabilidade e afrouxaram o isolamento social, ainda não há uma resposta pronta. O cenário muda de um país para outro, a depender das condições sanitárias e das políticas adotadas na prevenção e combate à Covid-19. Desde o princípio da crise, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que as crianças correm menos risco de se contaminar. Em contrapartida, podem ser vetores para levar aos familiares.

Em julho foi divulgado o maior estudo sobre Covid-19 no Brasil, apontando, dentre outras questões, que as crianças pegam o vírus tanto quanto as pessoas mais velhas, mas as últimas têm maior risco de evoluir o quadro grave.

Já o Centro de Controle de Doenças da Coreia do Sul, país que está em uma fase mais avançada de retomada, aponta que, no país, crianças de até 10 anos correm menos riscos que os adultos. Os cientistas apontam que elas exalam menos ar e, por isso, espalham menos o vírus. No entanto, aquelas entre 10 e 19 anos, podem contrair a doença tanto quanto os adultos.

Por outro lado, nos Estados Unidos, houve aumento da proporção de crianças e adolescentes infectados, a depender da localidade, como mostra reportagem da Bloomberg (em inglês).

 

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