Era um sábado de manhã, uma fila de mulheres esperava pela abertura do portão. Desde o início da crise gerada pelo Covid-19, cestas básicas têm sido um recurso fundamental para garantir a alimentação.  Responsáveis pelo sustento de suas casas, lá estavam elas para garantir o prato na mesa.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres passou de 25%, em 1995, para 45% em 2018. Os números mostram ainda que 57% delas estão nessa posição sem a presença de um parceiro: 32% são mulheres solteiras com filho, 18% vivem sozinhas  e 7% dividem a casa com amigos ou parentes.

Em abril, o Lar Maria e Sininha, associação sem fins lucrativos localizada no bairro Jardim Mata Virgem, extremo sul da capital paulista, contemplou 80 famílias com um kit de alimentação e limpeza. Sem apoio do poder público, arrecadações e doações de pessoas físicas é o que viabilizou a ação. 

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O cadastro teve um único critério: ser moradora ou morador do Morro do Macaco, ocupação vizinha. Não por acaso, 98% das pessoas inscritas e que compareceram na retirada eram mulheres. 

A necessidade do isolamento social para evitar as contaminações por coronavírus escancarou desigualdades que são anteriores à atual crise. Considerando a questão de gênero e raça, veja alguns indicadores que evidenciam o quanto esse problema é profundo e histórico: 


  • No quarto trimestre de 2019 a taxa de desemprego entre mulheres atingiu 13,1% e 9,2% entre os homens. Elas representam 53,8% da população desempregada (PNAD Contínua);

  • Mulheres negras são a maioria no trabalho informal (47,8%), as mulheres brancas correspondem a 34,7% (Síntese dos Indicadores Sociais – IBGE);
  • 71,5% das pessoas registradas no Cadastro Único para Programas Sociais são negros, sendo 62,6% mulheres e com renda de R$ 285 (IDados);
  • 63% dos lares chefiados por mulheres negras está abaixo da linha da pobreza (Síntese dos Indicadores Sociais – IBGE)


O corre da sobrevivência

O Nós, mulheres da periferia esteve presente na distribuição das cestas e conversou com algumas das beneficiadas. Diante da instabilidade econômica e um contexto que já não era favorável, elas estão usando as armas que têm para cumprir o isolamento e sobreviver.

Entre as cinco entrevistadas, todas atuavam como diarista, coletando materiais recicláveis ou outros trabalhos não formais. Cuidadoras de seus filhos e filhas e sem poupança, garantir a alimentação e os produtos de limpeza são os objetivos mais urgentes.

Márcia Gomes, 25, mora com o companheiro e dois filhos pequenos. Com a queda nas solicitações de serviços de limpeza e também para se preservar, ela tem buscado alternativas que permitam os cuidados e a sua sobrevivência.

“O pessoal avisa das cestas básicas e a gente vem. Isso é importante porque meus filhos vão ter comida pra comer. Para a limpeza eu fiz sabão caseiro. Consegui óleo e fiz o sabão. Eu limpo a casa todo dia, lavo a roupa das crianças todo dia e limpo tudo com álcool em gel”, contou.

Ela e as outras entrevistadas são contempladas pelo Bolsa Família e estão aguardando a liberação do benefício, que segue uma agenda já definida pela Caixa Econômica Federal. O que gera dúvidas é a dificuldade de acessar o aplicativo, por falta de aparelhos de celular ou acesso à internet, para checar informações.

Ana Paula Cândido, 46, mora com seus filhos, um menino de nove anos e uma menina de 14 com necessidades de saúde específicas. Fora da escola, ela tem recebido as atividades de ambos pelo celular.

Desempregada há alguns anos, ela tem se dividido entre os cuidados com a casa, com as crianças e a busca por doações de alimentos. “No meu caso a doação da cesta é muito bom. Chegou em uma boa hora, ainda mais que sou sozinha”, disse.

Assim como a Ana, Tatiane Varjão também é a responsável por sua casa. Ela costumava recolher materiais de reciclagem, mas o risco de contaminação fechou e grande parte dos ferros-velho da sua região não estão comprando materiais.

Por enquanto, as doações e o Bolsa Família são sua fonte de sobrevivência. Para o café da manhã, ela, às vezes, vai até a padaria pedir alguns pães para ela e seus dois filhos, ainda pequenos.

Ela contou que, quando começou a quarentena, os supermercados passaram a não permitir  que ela ficasse na frente dos estabelecimentos para pedir mantimentos. Com a necessidade do distanciamento, pensou que todo mundo fosse se trancar dentro de casa. Ficou surpresa com a mobilização que acabou a beneficiando.

“Antes disso eu não conseguia cesta básica em lugar nenhum, agora passa até uns caminhões, param lá na frente da viela e entregam pra gente. Tem muita gente ajudando, eu não sabia que ia dar tudo isso, sabia? Tá melhor do que eu imaginei”, disse Tatiane.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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