Este conteúdo integra o especial “Racismo Ambiental: mulheres indígenas e quilombolas na proteção de seus povos contra a Covid-19

“Rodando o mundo inteiro aqui da minha mesa”. É assim que Sônia Guajajara, 46 anos, descreve esse momento tão peculiar que o mundo vive em decorrência da pandemia causada pelo Coronavírus.

Aqui da nossa mesa, também vamos até o Maranhão, para ouvir de uma das maiores lideranças indígenas mulheres do Brasil as estratégias de proteção dos povos originários frente a tudo isso. 

Formada em Letras, Enfermagem e especialista em Educação Especial pela Universidade Federal do Maranhão, Guajajara é coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). 

Sônia, que foi candidata a vice-presidente do país em 2018, pelo Psol (Partido Socialismo e Liberdade), dando esperança de termos a primeira mulher indígena em um espaço como esse, agora assiste com tristeza e indignação a forma desastrosa que o Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) está lidando com a situação.

Mas o erro dele é, daqui de sua mesa, ponto de atenção redobrado, já que os povos indígenas foram as primeiras vítimas das doenças trazidas pelos brancos em território brasileiro e, historicamente, são mais vulneráveis a epidemias, em função de condições sociais, econômicas e de saúde piores do que as dos não índios, como aponta o Instituto Socioambiental (ISA). 

Segundo levantamento realizado pela organização, dos 45.927 casos de Covid-19 no país, 2.917 mortes, os casos indígenas em áreas rurais totalizam 42, sendo 4 mortes. 

“Para nós, indígenas, é bem desafiador, porque a gente já viveu períodos de epidemia desastrosos, que mataram muitos povos e se dizimou muitas culturas. E, agora, todo mundo está com muito medo, muito assustado, porque a gente já viveu isso, muitas e muitas vezes”, lamenta Sônia. 

Segundo o ISA, os povos indígenas totalizavam entre 2 e 4 milhões em todo o território nacional. Segundo o Censo 2010, existem hoje no país apenas 305 etnias, somando pouco mais de 896 mil pessoas, que falam 274 línguas indígenas, correspondendo a 0,47% da população brasileira. 

A organização lista uma série de epidemias desde a invasão dos europeus que vêm dizimando os povos. Entre elas, está a chegada do sarampo e varíola, em 1560, a cólera em meados de 1860, a gripe no início do século 20.

Apontam também o desaparecimento de comunidades por conta de doenças respiratórias como bronco-pneumonia e doenças infecciosas durante construção de grandes empreendimentos. 

Embora seja importante e necessário ter um foco no controle do vírus, Sônia acredita que não se pode perder de vista todas as outras situações históricas de violência e de violações que os povos indígenas vivem. 

As invasões de madeireiros, garimpeiros e grileiros, atrelada à exploração dos territórios faz a quarentena do povo indígena se tornar uma ameaça ainda maior. 

“Nesse período, o desmatamento na Amazônia aumentou 29,9% em um mês. Essas invasões, para fazer esse desmatamento amplo é degradante, acaba com o meio ambiente como leva ao risco de contaminação para dentro das aldeias”, destaca Sônia. 

Para ela, tão agressivo e perigoso quanto o vírus é o descaso do poder público sobre os territórios, sobre as políticas públicas e o meio ambiente. “Não tem como se garantir saúde sem combater o crime e as invasões do território indígena”.

O sentimento que atravessa as aldeias é o de medo. Para quem já teve seu povo amplamente dizimado por epidemias ao longo da história, o coronavírus vem como um grande susto, ainda mais para povos que sempre recorreram à medicina natural para se proteger. 

“Essa é uma doença nova, ninguém sabe como cura. A gente que também sempre buscou um tratamento na medicina tradicional, com muitas ervas, para essa doença não existe ainda um indicativo de que alguma erva possa curar”.

Para a  indígena, é fundamental que as pessoas possam avaliar esse momento como uma retomada de seu próprio espírito de solidariedade, entendendo isso como uma oportunidade para a reflexão sobre a própria vida, comportamento e presença no mundo.

“É um momento de olhar olhar para a criança, olhar para o idoso, olhar para as pessoas, buscar solidariedade e entender que nós precisamos desse modo de vida coletivo. É exatamente isso que vai conseguir mudar esse modelo de sociedade”.

Confira o bate-papo completo

Nós, mulheres da periferia: Qual é a relação desta pandemia com o Meio Ambiente? 

Sônia Guajajara: Essa pandemia traz perigo, mas também muitas lições. É fundamental que as pessoas possam avaliar esse momento como uma retomada de seu próprio espírito de solidariedade, porque é um momento bem complicado, mas, ao mesmo tempo, uma oportunidade para pensarmos sobre a própria vida e presença no mundo. Qual sociedade nós estamos? Qual sociedade nós queremos? O que a gente quer para o futuro da humanidade? Acho que temos de tirar lições desse momento tão conturbado. 

Para nós, indígenas, é bem desafiador, porque a gente já viveu períodos de epidemia desastrosos, que mataram muitos povos e se dizimou muitas culturas. Para nós, tão agressivo e perigoso quanto o vírus é o descaso do poder público sobre os territórios, sobre as políticas públicas e o meio ambiente. 

Para nós, tão agressivo e perigoso quanto o vírus é o descaso do poder público sobre os territórios, sobre as políticas públicas e o meio ambiente (Sônia Guajajara)

Nesse momento, embora seja importante e necessário ter foco no controle do vírus e nas medidas preventivas, não podemos perder de vista todas as outras situações históricas de violência e de violações que a gente vive, como invasão de madeireiros, garimpeiros, grileiros e o aumento do desmatamento. Todo quanto é tipo de invasão continua muito latente. 

E, ao mesmo tempo, que nós temos que nos preocupar em orientar os povos a permanecer na aldeia, permanecer no território considerando que o isolamento ainda é a forma mais eficaz de evitar contaminação. 

Também temos que estar o tempo todo prontos para desconstruir o discurso do Presidente da República (Jair Bolsonaro, sem partido) que, ao invés de ajudar a orientar, desorienta e coloca a vida de todo mundo em risco. 

Quem mais sofre com tudo isso somos nós, mulheres. Se alguma criança nossa se contaminar é preciso ficar longe da gente, quem é que tem essa sensibilidade maior? Quem é que tem esse espírito materno que coloca a sua vida no lugar para proteger a vida do filho?

Esse tempo que os filhos não estão na escola, e estão em casa, a gente se redobra para poder dar atenção. Então, toda e qualquer consequência ou impacto cai sobre os nossos colos. Temos essa sabedoria que vem da Mãe Terra, que orienta e que guia, para que a gente nunca perca o equilíbrio. 

A harmonia que precisa haver no mundo só vai acontecer se as pessoas adquirirem consciência política e ecológica para entender que o modo de vida coletivo é a saída. Deve ser a saúde acima de tudo, a vida acima do lucro.

Esse coronavírus, com certeza, é uma providência da Mãe Terra, porque o mundo está muito acelerado, as pessoas em um corre sem fim, ninguém tem tempo para parar, olhar para o outro, cuidar de seus idosos. 

Temos essa sabedoria que vem  Mãe Terra, que orienta e que guia, para que a gente nunca perca o equilíbrio.

Na cidade, agora, esses idosos estão em casas especiais, porque a família não quer cuidar. E para nós, indígenas, os nossos velhos são sempre foram e continuam sendo a continuação da nossa identidade. É a nossa raiz, é a nossa força. E o que sustenta enquanto povo. 

É um momento de olhar olhar para a criança, olhar para o idoso, olhar para as pessoas, buscar solidariedade e entender que nós precisamos desse modo de vida coletivo. É exatamente isso que vai conseguir mudar esse modelo de sociedade. 

NMP: quais são os maiores desafios dos povos indígenas? 

Sônia Guajajara:  Um dos maiores desafios é exatamente esse distanciamento. Não estou nem falando isolamento social, porque o nosso modo de vida na aldeia continua entre nós. Só que, agora, com a necessidade de um certo distanciamento.  

E a gente, que tem um modo de vida comunitário, partilhado, onde todo mundo compartilha tudo, dorme junto. Como que a gente vai manter esse distanciamento, se a gente tem uma outra estrutura? 

Os nossos velhos são sempre foram e continuam sendo a continuação da nossa identidade. É a nossa raiz, é a nossa força. E o que sustenta enquanto povo

A alimentação é uma outra necessidade grande. Nós estamos recebendo muitas demandas de famílias que simplesmente não têm o que comer. 

O que nos coloca em estado de alerta sobre o quão desprotegido a gente está e o quanto o Estado Brasileiro não está preparado para cuidar e proteger a vida das pessoas.

Quanto o Estado brasileiro não reconhece essa diversidade e não tem nenhum compromisso mesmo. Nesse momento, é responsabilidade do governo dar conta de atender todas essas demandas para proteger a vida e a saúde das pessoas. 

Em vez de se preocupar em buscar, medidas, para garantir uma alimentação e o isolamento, eles fazem totalmente o inverso, incentivando as invasões, os ataques. Nesse período, o desmatamento na Amazônia aumentou 29,9% em um mês.

Essas invasões acabam com o meio ambiente e leva ao risco de contaminação para dentro das aldeias. Não tem como se garantir saúde sem combater o crime e as invasões do território indígena. Sempre buscamos tratamento na medicina dos povos tradicionais, com muitas ervas. Para esta doença não existe ainda um indicativo de que alguma erva possa curar. 

NMP: quais são os trabalhos em conjunto e em rede que estão sendo realizados pelos povos indígenas neste momento? 

Sônia GuajajaraEstamos com muitas iniciativas em rede. Precisamos de várias formas de orientação, a diversidade de linguagem que tem que ser adotada para a informação chegar, porque não adianta produzir uma cartilha com orientação e circular nas redes sociais, porque a internet não é uma realidade para muitos povos indígenas. Benefícios do governo para serem acessados por aplicativos não dialogam com a realidade dos povos indígenas. Além de não ter o acesso à internet, não tem também o celular. 

Precisamos dar atenção especial a esses povos, respeitar esse modo de vida e garantir a sua segurança. As políticas públicas para todo mundo não vão atender a estas especificidades.

A cada medida que é adotada, isso exige de nós um esforço para transformar acessível ao povo.  Na minha terra, no território Arariboya (Maranhão), tem exemplos de indígenas isolados que não tem nenhum contato, nem com nós mesmos, com a gente que mora lá.

Na Amazônia, temos 114 grupos de povos que vivem em isolamento voluntário e que negam ter qualquer tipo de contato com a sociedade, nem mesmo com outros indígenas. Precisamos dar atenção especial a esses povos, respeitar esse modo de vida e garantir a sua segurança. As políticas públicas para todo mundo não vão atender a estas especificidades. 

Da nossa parte, é articulação em rede, tanto com organizações indígenas quanto organizações indigenistas, junto à sociedade civil, tentando pressionar o governo tanto do lado estadual quando do federal, para que essas políticas sejam adequadas para cada povo, de acordo com as realidades regionais e territoriais. 

Fizemos uma carta para o governo federal, considerando que nós estamos no grupo de alta vulnerabilidade. Fizemos uma pressão na Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) e na Frente Parlamentar que está se reunindo toda semana em uma reunião liderada pela deputada federal Joênia Wapichana (Rede Sustentabilidade). Conseguimos já a vacina de H1N1, que começa ainda este mês.

Lançamos também o Abril Vermelho, com atividades de várias pessoas, várias regiões estão mandando atividades que possam integrar essa programação. e vamos realizar o acampamento terra livre online.  A atividade aconteceria em Brasília de 27 a 30 de abril, agora vamos realizar online. É uma forma de dar visibilidade à questão indígena como os estados e os governos pra medidas preventivas. mas visibilidade para todas essas denúncias que ainda estão acontecendo

Temos problemas cruciais que precisam ser enfrentados que ainda não foram resolvidos em relação ao coronavírus: a aquisição de testes rápidos para as unidades de saúde. A ausência deles está dificultando uma visão clara de quantos indígenas estão contaminados nesse momento.

A outra coisa é a contabilidade da própria Sesai, não estão contabilizando os indígenas que estão em contexto urbano, somente os indígenas aldeados, e, com isso, dá às vezes uma discrepâncian de óbitos entre os indígenas e de casos confirmados.

Temos três especificações geográficas que a Sesai não pode tratar com diferença, temos os indígenas aldeados, em contexto urbano e os indígenas em isolamento voluntário (completamente distantes da sociedade, inclusive de outros indígenas). Todos precisam ter o atendimento igualitário.

Além disso, estamos presentando a demanda para construção de hospitais. exclusivos e específicos para atender povos indígena na Amazônia, tendo em vista que há crescimento exorbitante de casos confirmados. É preciso que tenha um lugar específico para atender essa população, porque as casas de saúde que existem hoje não dão conta nem de atender o contingente atual. imagina tratar ou receber casos de coronavírus. 

NMP: como está sua rotina enquanto mulher militante nesse momento? 

Sônia Guajajara: 

Realmente, minha rotina está tão agitada, estou rodando o mundo inteiro aqui da minha mesa. Começo todo dia às 9h e encerro às 21h, quando passa minha live no Instagram. Tem dias que eu não paro, não tenho tempo nem para comer. Estamos fazendo articulações nacionais e internacionais, e principalmente o atendimento à base, fazendo ligações, orientando, conversando. 

Ao mesmo tempo, me sinto amarrada, porque estou fazendo tudo do celular, do notebook, graças a uma conexão de internet. Para quem tem o costume de estar perto, de estar olhando, pegando, falando direto, é uma dificuldade. Eu acabei me adaptando a esse novo momento. para dar conta de continuar.

A rede social é o nosso lugar. Não temos acesso à imprensa tradicional, aos meios formais, pois não se fala da questão indígena. Temos que aproveitar ao máximo a conexão das redes abertas. 

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