Bianca Silva tem 20 anos é jornalista, nasceu em Perus, região noroeste da cidade de São Paulo e atualmente, mora na Vila Prudente, zona leste. Seu relato faz parte do especial “Ser LGBT+ na periferia“. Clique aqui para ler o conteúdo completo

Quando eu era criança, adorava brincar com meus primos e amigos. Sempre tinha sonhos não muito naturais para  a minha idade.

Enquanto o comum era ter amiguinhos querendo ser astronauta, jogador de futebol ou modelo, o meu maior sonho era ser diferente das pessoas da minha casa e fazer faculdade, dar um passo a mais nos estudos – até porque por diversas circunstâncias, nenhum dos meus familiares próximos tiveram a oportunidade de concluir até mesmo o Ensino Médio. E, por isso, sempre procurei dar o melhor de mim na área educacional.

Sou uma pessoa muito curiosa. Sempre busquei descobrir coisas fora da minha bolha, seja por culturas, músicas, religiões. E, atualmente, trabalho como jornalista, criando conteúdo e isso super deu match com o que gosto de fazer, conhecer novas pessoas e desfrutar de novas experiências.

Na adolescência, tive muita dificuldade em me reconhecer como pessoa. Eu sabia que havia algo de diferente. Sabia que eu não me encaixava nos grupinhos que falavam apenas dos meninos mais bonitos.

Mas por outro lado, por ser doutrinada em igreja evangélica desde quando nasci, era muito errado até mesmo pensar na possibilidade de eu ter outros gostos. O medo do “pecado”, por diversas vezes, falava mais alto do que o prazer.

E, para falar a verdade, eu ainda não tive a oportunidade de falar sobre minhas escolhas afetivas para minha família.

Por saber da resistência deles até por eu não poder me relacionar com homens que não frequentam a igreja que eles congregam, não falei sobre quem eu realmente sou.

Isso dentro da periferia pode ter uma dificuldade ainda maior por ter a tendência de a família ser mais conservadora, até por falta de informação e de acesso à outras realidades.

Tive três relacionamentos sérios com mulheres até hoje e, desde o primeiro, os desafios sempre estão em volta do medo. O medo da minha família descobrir, o medo de ser punida de alguma forma e o medo do que iriam achar ao ver duas mulheres de mãos dadas na rua.

Hoje, moro com minha namorada e, juntas, todos os dias nos fortalecemos. Com muito amor e persistência, porque não dá para fugir de algo tão genuíno, tão puro e tão sincero como o amor.

Precisamos evoluir muito em relação ao respeito. Não é preciso estar de acordo, até porque todos temos a democracia ao nosso lado para pensar e discordar do que não vai de encontro com nossos valores.

Porém, a partir do momento que a opinião do outro começa a se tornar uma ameaça à existência de uma outra pessoa, é necessário rever esse comportamento.

Há pontos para comemorar, como a possibilidade de se expressar, seja em forma da música, da dança, de teatros ou de projetos cinematográficos.

Mas, hoje, ser mulher vinda da periferia e integrante da comunidade LGBTQIA+, é ser desafiada todos os dias a continuar pelo o que se acredita ou se render ao que dizem estar fadado no estereótipo criado há muito tempo.

 

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