O cotidiano da agente de promoção ambiental Giseli Alves, 30, sempre foi permeado de travessias. Todos os dias, ela parte de sua casa, em Perus, até a Unidade Básica de Saúde (UBS) Caiúba, onde trabalha, no mesmo bairro da região noroeste de SP. De lá, caminha por outras, várias ruas do território, passando por escolas e casas, para falar sobre meio ambiente de maneira simples e acessível para toda a população local.

“Se tem uma casa onde a pessoa está acumulando muita coisa, ou tem uma na qual a caixa d’água está destampada, nós vamos lá, conversamos, checamos se essa pessoa precisa de alguma ajuda, como a gente consegue orientar, pensando tanto na saúde dela quanto do coletivo”, explica. 

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Diante da pandemia ocasionada pelo Novo Coronavírus (Covid-19), no entanto, as caminhadas de Gisele diminuíram. Mas não acabaram. Assim como outras  agentes comunitárias de saúde, ou de promoção ambiental, Giseli não só continua trabalhando em meio à pandemia, como também integra a linha de frente de combate à doença nos territórios periféricos.

“Tentamos esclarecer, mas entendendo que o vírus é novo. Embora eu seja estudante da área de Ciências, para nós, também não tem tanta informação a respeito desse organismo”, destaca a agente, que também é estudante de Biologia.  

Entrega de cestas básicas realizada pela UBS Caiúba, em Perus (SP)

Entrega de cestas básicas realizada pela UBS Caiúba em Perus (SP).

Crédito: Arquivo pessoal

A readequação do trabalho em meio à pandemia

Se antes realizavam in loco a prevenção do mosquito da dengue, ou grupos de atividades físicas na UBS , agora as agentes orientam moradores e moradoras apenas quando passam pela unidade ou, então, arrecadam cestas alimentícias e levam até a casa das famílias em maior vulnerabilidade social. Mas tudo de forma muito rápida, para ninguém ficar exposto à Covid-19.

Gostaríamos de fazer isso [doações] para todo mundo. Mas, infelizmente, não temos pernas.

As agentes de saúde também não estão mais adentrando as casas, mas continuam realizando o acompanhamento das famílias, mesmo que seja com perguntas pelo portão e de máscara, como sugerem os órgãos oficiais.

“São as agentes de saúde que informam para nós, agentes de promoção ambiental, quais são as famílias que estão sem auxílio ou passando necessidades.”

Desse modo, conseguimos criar listas para atender essa demanda”, diz a agente, que gostaria de fazer muito mais, porém, sabe que não há braços para ampliar a demanda.

“Estamos fazendo arrecadação de alimentos porque está bem difícil para as pessoas. Estamos tentando entregar cestas, máscaras, doação de roupas. Nesse momento de retirada, orientamos modos de prevenção, cuidado, alimentação, mas tudo bem rápido, para não expôr a pessoa ou a gente”, conta Giseli.

Dia de atividade de conscientização antes da pandemia da Covid-19/Arquivo pessoal

Dia de atividade de conscientização antes da pandemia da Covid-19/Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

 

Por que falar sobre meio ambiente durante a crise?

Gisele entende que falar sobre saúde também é falar de meio ambiente. “Nosso objetivo é ajudar a comunidade a perceber que, se nós não tivermos um ambiente saudável, a gente não vai ter saúde”. 

Para ela, quando cuidamos do ambiente no qual estamos inseridos, também temos um passo dado na prevenção de doenças e promoção à saúde. É por meio do Programa Ambientes Verdes e Saudáveis (PAVS) que é possível fazer essa relação, uma vez que o programa integra a Estratégia Saúde da Família (ESF) do Sistema Único de Saúde (SUS).

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“Fazemos vivências junto a comunidade. Falamos sobre alimentação saudável, orgânica, incentivamos a criação de hortas em casa. Explicamos sobre as PANCS (Plantas Alimentícias Não Convencionais), o desperdício de alimentos, entre vários outros temas”.  

“Nosso objetivo é ajudar a comunidade a perceber que, se nós não tivermos um ambiente saudável, a gente não vai ter saúde”

Dentro das conversas e atividades são incluídos os idosos, as crianças e pessoas que têm algum tipo de doença crônica, como hipertensão ou diabetes e todos aqueles interessados na temática.

Além disso, também colaboram na revitalização de praças, ensinam como realizar o descarte correto de resíduos e divulgam o trabalho de ecopontos e organizações sociais  de reciclagem. “A ideia é que as pessoas entendam que ter uma vida sustentável é muito mais saudável e sai mais barato, quando pensamos financeiramente”. 

‘Meu maior sonho sempre foi salvar o planeta’

Por trás da correria e cadernetas nas mãos, as agentes de promoção ambiental, que passavam de casa em casa nas periferias antes da pandemia, carregam sonhos grandes para seus bairros.

Gisele Alves, 30, é agente de promoção ambiental em Perus (SP)/ Arquivopessoal

Gisele Alves, 30, é agente de promoção ambiental em Perus (SP)/ Arquivo Pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Com Gisele não é diferente. Não é à toa que ela escolheu essa profissão. Ainda criança, se desesperava e temia a morte quando via reportagens falando sobre o derretimento das geleiras no planeta. “Aquilo me doeu tanto que comecei a chorar, pensando que não iria dar tempo de eu fazer faculdade e ajudar os ursos polares”. 

Hoje, ao lado de outras mulheres, e homens também, ela vai realizando um pouco do sonho de menina, que agora toma consistência e novas reflexões. Mesmo em meio ao sistema capitalista e a conjuntura associada à Covid-19, Giseli não deixa de imaginar a ampliação das discussões sobre meio ambiente nas periferias.

“Precisamos entender que fazemos parte da Natureza. Não é o Ser Humano e a Natureza. Nós somos a Natureza, estamos inseridos nela”

 

“Meu sonho utópico é ver Perus inteiro com espaços de horta comunitária, praticando reciclagem, reduzindo o consumo, a fazer trocas entre si, aos poucos as grandes indústrias perderiam espaço, aos poucos a gente iria conseguir de baixo pra cima mudar esse cenário”.

E complementa: “a Terra pode nos dar tudo. Precisamos entender que fazemos parte da Natureza. Não é o Ser Humano e a Natureza. Nós somos a Natureza, estamos inseridos nela. Por isso, é importante tratar com respeito a planta, a terra, os animais, entendendo o planeta como um organismo vivo. Assim, vamos conseguir atender às nossas necessidades e cuidar um do outro”.

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