Este conteúdo faz parte do especial “Cuidando de quem cuida”. Confira aqui o especial completo.

Desde 2016 um coletivo de psicólogas negras realiza um trabalho de atendimento clínico para suas iguais. O projeto da Roda Terapêutica das Pretas teve a iniciativa de 10 profissionais e hoje já conta com 38 psicólogas voluntárias e ativistas, que promovem atendimentos grupais e oficinas para mulheres negras nas diferentes zonas da cidade São Paulo e também na região metropolitana, partindo de um compromisso e posicionamento ético clínico e político diante de suas pacientes.

“Parte-se do pressuposto que as questões raciais dentro da psicologia são totalmente negligenciadas, surge então a necessidade de psicólogas negras proporcionarem uma escuta mais qualificada para essa demanda. A formação inicial do grupo foi composta por 10 psicólogas pretas que percebiam o incômodo de suas pacientes negras ao relatarem experiências com psicólogas brancas, no discurso percebiam o quanto foram silenciadas quando traziam questões raciais, reproduzindo assim a violência racial dentro do setting que deveria ser terapêutico e seguro para a verbalização de suas angústias”, conta Beatriz Moreira, 23 anos, psicóloga clínica e moradora da Vila Carrão, na zona leste de São Paulo.

Na zona leste, as reuniões acontecem aos sábados a tarde no espaço Lab Casa Cultural, em Itaquera. Para participar, o coletivo abriu um processo de inscrição no início do ano para maiores de 18 anos. Beatriz afirma que o principal objetivo do projeto é o acolhimento de mulheres negras por meio da escuta qualificada, sem preconceitos e rótulos.

O coletivo é uma auto-organização, autônoma e horizontal, e realiza suas decisões e direcionamentos em grupo. Atualmente contam com apoio financeiro do Fundo Elas, fundo independente dedicado às mulheres no país, que promove ações de protagonismo, liderança e direitos, investindo recursos em iniciativas das mulheres. Mesmo assim, Beatriz relata que é difícil manter a sustentabilidade do projeto.

“Dependemos da contemplação do edital, se não ocorrer ele não existe. Por vezes encontramos dificuldades na análise dos espaços desejados, há uma preocupação em saber se onde será realizado o trabalho contempla nosso público alvo, pois existe uma dificuldade de acesso à psicoterapia a mulheres negras devido ao estigma da psicologia elitista e branca, além de uma questão econômica que emerge das pacientes”.

Para o coletivo é muito importante que as atividades aconteçam nos bairros periféricos, para facilitar o acesso das mulheres negras ao atendimento. “Entendemos que é uma população que possui difícil acesso aos serviços de saúde mental, seja pela questão de ausência da rede assistencial de saúde ou pelo estigma que o senso comum propõe sobre os processos de psicoterapia, rotulando a prática como ‘coisa de gente louca’. São nas periferias que habitam as pessoas mais mentalmente adoecidas, afinal, como lidar com os atravessamentos de classe e de raça e permanecer psiquicamente saudável diante das desigualdades?

Nosso papel vem para quebrar tais estigmas e levar a psicologia aonde ela não chega”.

Beatriz orienta as mulheres negras, consideradas as mais vulneráveis e marginalizadas em relação à saúde em geral, incluindo a mental, a buscar o autocuidado e a autoestima antes de tudo. “É importante que a mulher se veja e se reconheça como uma potencialidade, que ela se perceba como um corpo político dentro da sociedade que ocupa, um corpo merecedor de cuidado, atenção e afeto. Entendermos que somos merecedoras desse cuidado é o primeiro passo para mudança, a psicologia possui estigmas que dificultam a acessibilidade da população periférica nos consultórios, por ser uma cuidado elitizado e com determinados estereótipos que são associados a loucura ou perda do controle emocional. Enquanto tais estigmas não forem quebrados o autocuidado da mulher negra será cada vez mais inalcançável”.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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