Mulheres persuadidas ou coagidas a terem relações sexuais para pagar por uma corrida de táxi, para serem avaliadas por um professor ou para serem aprovadas em um processo de casting.

Essa são cenas de atuação comuns e das mais procuradas em sites que oferecem conteúdo de pornografia na internet.

Segundo informações publicadas pela Culture Reframed, organização que estuda e alerta para os prejuízos da hipersexualização praticada pela mídia e pela pornografia, nos vídeos de conteúdo adulto mais procurados, 88% das cenas analisadas continham agressões físicas como engasgos, estrangulamento, palmadas e tapas.

E esse tipo de material interfere na vida concreta.

Em outra pesquisa, que avaliou 22 estudos entre 1978 e 2014 de sete países diferentes, foi revelado que o consumo de pornografia está associado a uma maior probabilidade de cometer atos de agressão sexual verbal ou física, independentemente da idade.

83% de um grupo de universitários norte-americanos entrevistado relataram ter visto pornografia convencional.

Estes disseram ser possível cometer estupro ou agressão sexual se soubessem que não seriam pegos, o que não foi relatado por homens que afirmaram que não tiveram acesso à pornografia nos últimos 12 meses.

Indústria da pornografia

Como já publicado anteriormente em nosso site, o consumidor desses conteúdos acaba contribuindo com uma indústria bilionária, que lucra com a exploração do papel da mulher e transmite a ideia de que aquilo é sexo.

Somente nos Estados Unidos, em 2006, o mercado de pornografia lucra cerca de $13 bilhões de dólares. Valor maior do que obtêm a Google, a Microsoft, a Amazon, o eBay, o Yahoo, a Apple e o Netflix juntos.

E esses valores exorbitantes muito provavelmente quebraram recorde.

Segundo dados coletados pela Netskope Security Cloud, o acesso a sites pornôs registrou aumento de 600% durante a pandemia.

Por representar uma estrutura de sociedade patriarcal dominante e agressiva, acaba educando meninos e meninas de maneira violenta e desconectada.

Sexualidade e infância

Flávio Urra é psicólogo e sociólogo, mestre em psicologia social e coordenador do programa “E Agora José? Pelo fim da violência contra a mulher“.

Ele explica que “os meninos são inseridos na sexualidade muito precocemente, logo aos nove, dez anos de idade, e que isso tem efeitos prejudiciais graves.

“Eles passam por essa socialização e aprendem a sexualidade com conteúdo pornô, com o ‘troca-troca’ e outras ‘brincadeiras’ abusivas”, exemplifica.

Programa E agora José?

O “E Agora José?” foi criado a partir de uma proposta da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres em Santo André, São Paulo, como uma rede de enfrentamento à violência contra a mulher, que atua com o Tribunal de Justiça e a Central de Penas e Medidas Alternativas. Quando o homem comete algum crime de gênero, configurado pela Lei da Maria da Penha ou outro crime sexual ou de importunação, o homem pode receber, conforme avaliação do juiz, uma pena alternativa.

O “E Agora José?” recebe homens com este tipo de condenação e estabelece que eles cumpram um programa com 26 encontros, cada um deles com duração de duas horas. Neste período, é realizada uma série de trabalhos para desconstruir o machismo e a violência.

Flávio conta que já teve contato com inúmeros relatos de meninos “que foram abusados sexualmente por outros amigos nesses processos que chamam de brincadeira”.

“Os meninos levam como brincadeira, mas o que ocorre são situações de muita violência e abuso. Isso em um grupo que ainda não tem a sexualidade maturada”, destaca.

Segundo o especialista, por ter acesso a esses conteúdo muito precocemente, a mensagem fica impregnada na fantasia dos meninos, que crescem associando ao sexo a ideia de “usar as pessoas como gratificação pessoal”.

“Eles crescem como homens que perdem a noção de que a sexualidade é, na realidade, carinho e afeto. Só percebem o ato como algo instrumental”, acrescenta.

Reconhecer a masculinidade tóxica patriarcal

Raul Gomes é psicólogo e membro do coletivo Masculinidade Quebrada. O grupo possui metodologia própria para trabalhar com homens a sexualidade e como ela se alinha a amplos aspectos individuais, das relações íntimas e também na sociedade de modo geral.

Em um dos trabalhos realizados pelo coletivo, Raul explica que utiliza um boneco na roda de conversa para que os homens não se sintam constrangidos ou expostos no momento de falar sobre sua história, identidade e atitudes.

“Realizamos seis encontros e também sessões únicas, com participantes que apresentam demanda”, ele explica.

“Quando utilizamos o boneco como personagem a ser entrevistado nessa roda e falamos sobre sexualidade, buscamos informações sobre a infância desses homens, o que eles entendem como prazer, sexo e o próprio corpo”, relata.

Segundo o psicólogo, de modo geral esses homens tiveram contato com pornografia e isso teve efeito na sexualidade deles.

“Os conteúdos em geral são violentos, têm estereotipação radicalizada, com o perfil de um homem viril, forte, dominador, que representa essa masculinidade tóxica patriarcal.”

Para ele, o pornô com o homem que domina e subjuga a mulher é reflexo e também causa de todas as outras relações de desigualdade e lugar de poder.

Danos psíquicos e físicos

A psicóloga e sexóloga Erika de Paula explica que por meio de estudos e relatos de mulheres que são exploradas nesse mercado, é constatado que a violência praticada nas produções de conteúdo pornográfico é responsável por complicações psíquicas e sintomas de transtorno de estresse pós traumático nas mulheres.

Isso porque o tempo todo elas estão expostas e vulneráveis aos atos sexuais nessas produções.

Tamanha é a violência de gênero que a expectativa de vida dessas mulheres é igual a de uma travesti [em média 36 anos], o que demonstra o quanto o mercado de entretenimento adulto afeta nos aspectos de qualidade de vida dessas mulheres.

As consequências nas relações afetivas dessas mulheres também são cruéis. Elas por vezes só conseguem manter relações de submissão como as retratadas nas pornografias e outras acabam nem mesmo se relacionando. Outras buscam relações homoafetivas, para tentar quebrar a experiência heteronormativa vivida nas produções. E ainda tem as que preferem relações somente afetivas, sem sexo.

Coletivo Masculinidade Quebrada

Existe desde 2017, criado a partir da percepção do alto índice de violência doméstica contra mulheres e crianças, nos bairros de Parelheiros e Grajaú, em SP. O coletivo foi criado também com base na percepção de que mulheres e meninas avançavam nas discussões sobre a questão de gênero, e os homens não acompanhavam esse movimento.

O coletivo funciona com quatro membros, sendo uma mulher.

Além do prejuízo emocional e mental, algumas, infelizmente, ainda sofrem com danos fisiológicos.

Em um caso estudado por Erika sobre fisioterapia pélvica, uma atriz de filmes pornôs apresentou comorbidades no ânus, com afrouxamento do eixo anal, devido a extrema violência praticada nas gravações dos filmes.

A psicóloga e sexóloga confirmou que os danos apresentados neste estudo eram irreversíveis. A atriz adquiriu incontinência fecal com debilidade na mobilidade da musculatura da região.

Os efeitos da pornografia na sociedade

O psicólogo Raul Gomes defende que a hegemonia patriarcal, alinhada à violência e dominação, trata a mulher, nas produções de conteúdo, de maneira igual, de um ponto de vista inferior, e que isso tem como base violências físicas, simbólicas e emocionais.

“A pornografia naturaliza essa relação em casa, no transporte público, nas festas. O homem pensa que a mulher está ali pra lhe servir sexualmente e de outras formas também. E a gente trata isso permeando por outros aspectos sociais”, explica.

Pornografia feminista?

As produções ditas feministas não fogem do modelo existente de exploração e violência. A psicóloga e sexóloga Erika de Paula defende que “as pornografias que assumem esse viés seguem a mesma cartilha do capital. Filmes supostamente feministas exploram e nada têm de revolucionário. “Até porque são extremamente cisheteronormativos”, salienta.

Alternativas sustentáveis

O psicólogo e sociólogo Flávio Urra acredita que a “educação sexual desde cedo é uma alternativa para este cenário”.

Além disso ele defende que os meninos sejam acolhidos de forma respeitosa, que os espaços de educação incentivem grupos mistos, que meninos possam brincar com brincadeiras mais saudáveis, que incluam cuidados e não as rotineiras brutalidades a que são inseridos.

“É preciso repensar as relações de um modo amplo. Não é melhor pra ele nem para a sociedade o consumo de pornografia. Esse tipo de conteúdo afeta a autoestima desses meninos e as suas relações como um todo”, afirma.

Para isso existem diversos espaços coletivos em busca de um outro modo de ser homem, com outra noção identitária. “Entender relações com reciprocidade, e não unilateral”, diz Flávio.

Para Erika, também há conteúdos alternativos que podem ser utilizados como incentivo sexual. “Algo que sempre falo é que existem alternativas ao pornô. Não precisamos usar desses materiais como apoio para o nosso prazer. Temos nossas próprias fantasias, podemos escrever ou ler contos eróticos, há muito conteúdo disponível na internet, eu inclusive tenho um podcast onde compartilho contos próprios e de seguidores”, sugere.

Para ela, o prazer pode e deve ser sustentável. “Será que seu prazer é assim tão suprassumo que só existe consumindo conteúdo que traz tanta dor pra tanta gente?”, questiona.

“Há inclusive filmes com cunho erótico, com enredo, romance, que são outras formas mais saudáveis e sustentáveis. É possível ter prazer sem explorar ou ferir outras pessoas”, conclui.

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