Este conteúdo faz parte do especial #Deixaameninajogar feito em parceria com o Portal Lunetas e a Think Olga.

“Talentos diferenciado
Objetivos interligados
Acreditamos que a ocupação mental pode salvar vidas
Mas nos colocam de lado
Estão tratando com descaso
A gente que vive e atua na periferia
Nóis é zica…Fica em choque, vai BABILON, fica!
Não somos tão frágeis
Também suamos a camisa”

Sidineia Chagas fundadora do Perifeminas F.C

Crédito: Divulgação

Esses versos de Chaiane Ezequiel da Silva, a MC Chai, estão no livro “Perifeminas – Nossa história”, coletânea de textos de mulheres periféricas publicado em 2013, organizado pela Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. E o nome da obra foi a inspiração para Sidineia Chagas fundar junto com suas irmãs o time de futebol e projeto social “Perifeminas F.C” no extremo sul da cidade de São Paulo.

Moradoras do Barragem, bairro rural da região de Parelheiros, a cerca de 49 quilômetros do centro de São Paulo, as irmãs Sidineia, Sideilde, Silvia e Silvani, que já jogavam futebol desde a época de escola e também em times femininos na comunidade, organizaram a partir de 2014 partidas de futebol entre mulheres e homens nas quais a regra era usar roupas do sexo oposto.

Em 2016, as irmãs foram convidadas para mais um jogo com o desafio de formar um time para a disputa, e chegaram a reunir quase 30 jogadoras. “No dia do jogo o time adversário masculino não compareceu e desde então as mulheres passaram a se encontrar todas as tardes de domingo”, conta Sidineia.

Atualmente o projeto Perifeminas F.C é composto por 18 meninas e mulheres, entre nove a 39 anos, além de um time masculino infantil e juvenil – o Perifemanos – com 17 meninos, na faixa etária de nove a 14 anos.  Os dois times se reúnem aos sábados, na quadra da Escola Estadual Professor Joaquim Álvares Cruz, para treinar e participar de festivais e campeonatos.

“Somos um time que, além da atuação esportiva, temos como foco o empoderamento feminino, engajamento infantil e a inclusão social”

“Existiam times femininos contra homens em aberturas de festivais masculinos e, por vezes, amistosos contra mulheres. Vale destacar também os times femininos das aldeias (territórios indígenas de Parelheiros), que hoje soma cinco equipes. Tinha os times estudantis, havia uma movimentação feminina, porém não tinha visibilidade e reconhecimento. Hoje, parte dessas meninas jogam no Perifeminas. Porém somos um time que, além da atuação esportiva, temos como foco o empoderamento feminino, engajamento infantil e a inclusão social”, explica.

Uniforme Perifeminas

Crédito: Divulgação

Além dos treinos semanais, as jovens organizam o projeto “Em Campos: lugar de discutir empoderamento feminino e Direitos Humanos”, voltado para o fortalecimento das mulheres dentro e fora das quatro linhas, incentivando o futebol feminino e a luta por respeito e dignidade em uma região com ausência de equipamentos de lazer e com altos índices de violência contra a mulher. Por meio de rodas de conversa, durante a inserção de novas meninas no time, as jogadoras formam uma rede de apoio e um ambiente seguro e acolhedor para as mulheres dentro da comunidade, além de organizar passeios e visitas a outros espaços educacionais, culturais e esportivos.

“Os principais objetivos do Perifeminas são garantir que meninas e mulheres atuem em times para competir em jogos; transformar o campo e quadra de futebol em espaços de valorização e visibilidade da mulher; fortalecer o protagonismo feminino e oportunizar espaços de fala e atuação”, acredita a educadora.

Com apenas 28 anos, além de ser uma das líderes do Perifeminas F.C, Sidineia é também uma das articuladoras do projeto Escritureiros: Escrita, Aventureiros de Parelheiros, que promove o incentivo à leitura por meio de ações de mediação e saraus, e uma das gestoras da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, localizada dentro do cemitério do bairro.

Time Perifeminas, de Parelheiros, zona sul

Crédito: Divulgação

No futebol, Sidineia destaca como conquista integrar o grupo criador da Liga de futebol Feminino de Campo, apoio financeiro e parcerias com fundações e empresas, doações de materiais, uniformes, mas ainda revela que as meninas enfrentam dificuldades, desde a falta de patrocínio até a desistência e insegurança das meninas nos jogos.

“É importante incentivar as meninas a jogar futebol porque as oportunidades, investimento e patrocínio sempre foram direcionados aos meninos, já para elas o estímulo é para os afazeres domésticos. A prática esportiva desta modalidade contribui para o desenvolvimento de habilidades, motivação, trabalho em equipe e se torna um espaço de acolhimento para mulheres vítimas de violências físicas e psicológicas. Nós, do Perifeminas, acreditamos ser uma ferramenta de educação social, cultural esportiva e de diálogos sobre equidade de gênero, raça e classe”.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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