Por Lívia Lima | 23/09/2020

Vida em comunidade, espaços de convivência, conselhos participativos. Essas são algumas das sugestões para mulheres que as pesquisadoras do Centro de Estudos Periféricos – CEP, centro de pesquisa e extensão vinculado à Unifesp/Campus Zona Leste, apontam no relatório “Agenda Propositiva das Periferias”.

A pesquisa que vem sendo desenvolvida desde 2019 por professores, pesquisadores e estudantes com objetivo de sistematizar propostas de melhorias para as condições de vida nas periferias.

A pesquisa tem apoio da Fundação Rosa Luxemburgo  e será divulgada em forma de cartilha em novembro, período eleitoral no qual as propostas podem nortear os projetos de candidaturas, e no ano que vem está previsto o lançamento de um livro.

Desde agosto, nas redes sociais do CEP, estão acontecendo debates online que discutem os eixos abordados na pesquisa: cultura; gênero; habitação; participação popular; transporte; educação; infância; genocídio e violência; saúde, trabalho. As lives acontecem todas as quintas-feiras, a partir das 19h.

No encontro sobre gênero realizado em 3 de setembro – disponível no Youtube – participaram as pesquisadoras Nataly Ramos, Sheyla Melo e Shisleni Macedo, além das convidadas Helena Silvestre, escritora, militante do Luta Popular e editora da Revista Amazonas; Silvana Bezerra, jornalista, educadora e militante do MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra); e Railda Silva, articuladora e militante à frente da Amparar – Associação de Familiares e Amigos de Presos/as, organização que atua pelos direitos de pessoas presas e pelo fim das prisões.

Como propostas para as mulheres, o trabalho de Nataly, assistente social e educadora, Sheyla, pedagoga e jornalista e Shisleni, antropóloga e tradutora – todas moradoras das periferias – aponta para soluções que tem a coletividade como destaque, inspiradas nas entrevistas que realizaram com 43 mulheres, a maioria de organizações, grupos e coletivos.

Dentre as propostas, está a vida em “Comunas da Terra”, assentamentos urbanos de moradia e subsistência alimentar; cooperativas e associações para geração de renda como emancipação feminina; espaços de convivência que deem conta da saúde integral da mulher; casas de conselho para discussão da vida em comunidade, sobretudo para resolução de conflitos; além de um Observatório de Violência de Gênero, para mapeamento de casos de feminicídio e violência doméstica.

Nós, mulheres da periferia fizemos uma entrevista exclusiva com as pesquisadoras do Centro de Estudos Periféricos, que, assim como propõem em seu trabalho, responderam coletivamente nossas perguntas. Confira abaixo:

Pesquisadoras do Centro de Estudos Periféricos

Crédito: Divulgação CEP/Unifesp

Nós, mulheres da periferia – Como foi o processo de definição da metodologia e seleção das mulheres entrevistadas?

Pesquisadoras CEP – As pessoas entrevistadas foram organizadas em três grupos: militantes, trabalhadoras de alguns serviços públicos que atendem à população e as que não se enquadravam nos dois grupos anteriores (como as nossas vizinhas ou as atendidas pelos serviços), todas residentes e/ou atuantes nas regiões periféricas da cidade. Muitas delas eram nossas conhecidas, amigas, vizinhas, outras eram mulheres que queríamos conhecer, que admirávamos o trabalho. Outras ainda eram inesperadas, apareceram por indicação de outras entrevistadas.

A princípio, levantamos alguns temas que imaginamos que seriam as preocupações de mulheres que habitam essas regiões da cidade, que abordamos em conversas livres com elas. As mulheres nos falavam um pouco do diagnóstico do território e de suas vidas, medidas que evitariam problemas, transformariam um cenário problemático e o que já fazem a respeito. Alguns temas, como o encarceramento, o uso de drogas e os espaços de convivência, foram adicionados após notarmos sua recorrência nas falas das entrevistadas.

A escolha dos temas em torno dos quais giravam as perguntas levava em consideração o fato de que as mulheres são mais da metade da população e, assim, estão em todos os lugares, ainda que mais presentes (ou mais visíveis) em alguns lugares muito específicos do que em outros.

É desta maneira que os temas levantados por nós, e mesmo aqueles que só surgiram no decorrer das conversas com as entrevistadas, se conectam diretamente com os outros eixos da pesquisa. O que nos leva a pensar que, eventualmente, um eixo específico para as mulheres não fosse necessário.

No entanto, será que se não houvesse o eixo gênero algumas mulheres que entrevistamos teriam sido ouvidas enquanto interlocutoras da pesquisa? Ou teriam tido suas demandas incluídas na agenda propositiva?

Essa metodologia acaba por reforçar algo já dito pelos estudos sobre movimentos de mulheres populares, que todas elas lutam de alguma forma ou em alguma frente para transformar a periferia em um lugar melhor para as mulheres, mas não apenas.


Qual a diferença ao fazer uma pesquisa nessa relação entre mulheres periféricas?

Muitas pesquisas se voltam para as periferias com esse olhar de “outro” que constituiu um modo de fazer ciência. Às vezes, seja em salas de aula, seja em livros e teses, ouvimos, e lemos, longas explanações sobre como se constitui a sociabilidade das pessoas pobres ou faveladas, sobre como são utilizados termos como “quebrada” ou “parça” ou sobre como são constituídas as famílias.

É interessante notar que não existe uma gama tão frutífera de trabalhos sobre as classes médias e superiores quanto existem sobre as pessoas pobres ou sobre pessoas negras, particularmente produzidos por pessoas que desconhecem as dores da pobreza ou a experiência de ser um sujeito racializado.

A nossa particularidade enquanto pesquisadoras é que estamos naquilo que nos constitui, que faz parte de nós. Como dissemos lá no relatório, essas mulheres não são nossos “objetos de estudo”, são o que nós somos, são feitas da mesma matéria que nós somos feitas.

Nas conversas coletivas ou individuais utilizamos equipamentos públicos, lanchonetes ou as casas das entrevistadas, fomos recebidas com sorrisos e abraços, cafezinhos, bolos, almoços, jantas, carinhos de muitas formas. Teve muito contato e olho no olho. Sentimos como é importante e potente esse encontro, esse lugar de escuta e acolhimento, de criação de relações, momentos de troca que desindividualizam o sofrimento, os transformam em palavra e produzem colaborações.

Ouvimos histórias muito duras, mas também histórias de movimentos e trabalhos muito importantes, potências que sustentam vidas. Saímos de cada conversa muito tocadas por cada história, pela força de cada experiência e confiantes na luta das mulheres, mesmo percebendo que ainda há muito o que caminhar.

Podem explicar o conceito de “afeto revolucionário”?

Ouvimos muito sobre o quanto a prática de encarceramento seja nas prisões ou residências terapêuticas vem aumentando entre as mulheres nos últimos anos. Essa forma de “resolução” de conflitos, pela exclusão, produz sofrimento para as famílias que vivem nas periferias e não auxilia na resolução do problema.

É muito presente nas falas das entrevistadas o quanto a socialização por meio da arte, da cultura, da educação e do afeto faz muito mais sentido quando se trata de “ressocializar” alguém que esteve em conflito com a lei ou que faz uso abusivo de drogas. Lugares que possibilitem encontros, trocas e aprendizados podem produzir o fortalecimento de vínculos a ressignificação da violência e a autonomia. Para nós foi muito interessante ouvir isso também das mulheres que não estão diretamente ligadas a movimentos sociais e serviços de assistência.

Além disso, pudemos perceber que existe uma preocupação em construir relações menos violentas, mais solidárias, de pensar a resolução de conflitos não pela via da punição física – já que, na prática, seja a prisão, seja outra força de punição física não restabelecem o prejuízo causado à(s) vitima(s) e não previnem a reincidência –  ou a exclusão – como no caso de pessoas que fazem uso abusivo de drogas.

Uma sociedade que só consegue imaginar a resolução de problemas de maneira violenta, que tem dificuldade de educar sem palmadas, como a nossa, só pode resultar em uma sociedade que encarcera, mata e, sobretudo, uma sociedade na qual se morre. Muito.

Em uma sociedade que só consegue se ver representada por autoridades que também reproduzem essa ideologia da violência e que, ao invés de olhar para o problema da violência de uma perspectiva sistêmica e investir no combate à desigualdade e à opressão, vai investir em armas, policiais e cadeias – uma prática que persistiu e se intensificou inclusive durante os anos de governos mais progressistas.

Desta maneira, ao invés de lermos como uma visão romantizada da realidade, quando mais de uma das nossas interlocutoras afirmou que faltava afeto no mundo, nós percebemos a delicadeza com que elas estavam se colocando contra essa ideologia da violência, que faz com que nos acostumemos a viver sempre desconfiadas e com medo, na expectativa de que algo ruim vá acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar e que faz com que muita gente ao redor de nós sonhe em ter uma arma.

Esse tipo de sentimento esgarça o tecido social, estimula o individualismo, expresso na ideia do “cada um por si e Deus por todos” e dificulta a articulação coletiva pelo bem comum. Foi assim que chegamos no afeto revolucionário, conversando com quem está engajada no trabalho cotidiano de cuidado e de reprodução da vida, no seu sentido mais amplo: as mulheres.

Rio de Janeiro – Mulheres fazem caminhada em solidariedade às manifestações feministas na América Latina, que tem países com alta taxa de feminicídio, segundo a ONU

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Qual a importância de movimentos de mulheres periféricas para o feminismo?

Essa é uma pergunta interessante, porque durante muito tempo houve uma separação entre “movimento de mulheres” e “movimento feminista”, como se houvessem caixinhas ou réguas com as quais alguém pudesse determinar quais os critérios que definem qual movimento é feminista e qual não o é. O movimento de trabalhadoras do sexo sofre muito com isso.

No passado, as mulheres engajadas nos Clubes de Mães ou em uma série de outros movimentos sociais populares não se reconheciam como feministas, algumas vezes por nem conhecerem esta palavra e outras vezes por acharem que esse era um movimento de mulheres brancas, de classe média e intelectualizadas. Essa falta de reconhecimento é compreensível, se levamos em conta que, uma das reivindicações mais famosas, depois do direito ao voto, era a de trabalhar fora e seguir uma carreira que, no caso das mulheres pobres, era um problema que não se colocava.

Qual mulher pobre que não trabalha desde que a pobreza surgiu no mundo? Por outro lado, tanto o que era chamado de movimento feminista da época, quanto o que era chamado de movimento de mulheres, estavam engajados na pauta da violência doméstica, na luta por direitos sexuais e reprodutivos, criavam grupos de consciência para entender a sua própria condição na sociedade e se trabalhavam para criar redes de alianças entre as mulheres. Eram pautas muito alinhadas, embora com suas particularidades e diferentes metodologias.

Atualmente, as ideias, os termos e as práticas feministas têm se tornado mais de uso comum, estão na boca das mais jovens, das adolescentes. Algumas políticas educacionais fizeram com que mulheres pobres e periféricas chegassem ao ensino superior, o que dilui um pouco esse distanciamento entre intelectuais e não intelectuais ao mesmo tempo que questiona o que é ser uma intelectual. De toda forma, essa separação perdeu muito da sua força e o movimento feminista se tornou mais plural, o que temos hoje são muitos movimentos feministas diversos e às vezes até conflituosos entre si.

De toda maneira, os movimentos de mulheres das periferias vêm trazendo muitos questionamentos para dentro dos debates feministas, como os direitos das trabalhadoras domésticas, acesso à educação, as questões de classe, o racismo e o genocídio e tem, assim, construído práticas de organização e lutas por uma sociedade mais justa de diversas formas, nos diferentes contextos. Por exemplo, na luta pela divisão do trabalho de cuidado com o Estado e a comunidade via movimento de creches, reivindicação de serviços de saúde, convivência, educação, acolhimento, a luta antimanicomial e pelo desencarceramento.

Aproveitando o aniversário do SUS, vale lembrar que o próprio movimento pela saúde pública, sobre o qual vocês fizeram matérias muito interessantes, foi uma luta que partiu das periferias e que contou com o engajamento de muitas mulheres. O movimento Custo de Vida é também um movimento que, na sua base, tinha o Clube de Mães. Enfim, as contribuições dos movimentos de mulheres das periferias são muitas e diversas.

Como podemos sugerir propostas de enfrentamento à sociedade patriarcal considerando homens como aliados?

Talvez possamos pensar a partir de várias frentes. Uma delas é entender que, olhando para as práticas dos movimentos de mulheres nas periferias, nos exemplos que acabamos de levantar aqui, eles nunca estiveram fora das nossas preocupações, né? Então a gente pode dizer com tranquilidade que as mulheres das quebradas já estão muito preocupadas com os homens e há muito tempo. Falta agora eles se preocuparem também.

Isso nos leva a uma segunda frente, a estrutura de desigualdade de gênero machista que a gente vive hoje afeta a sociedade como um todo. Mata muitas mulheres, mas mata também muitos homens. Uma sociedade na qual a masculinidade é construída sobre a ideia de virilidade, de macho provedor, forte e violento só pode resultar nos dados que a gente vê na taxa de letalidade, né?

A maior parte das pessoas que sofrem mortes violentas são os homens, que são mortos por outros homens. No caso das mulheres, que os números são alarmantes também, a particularidade cruelmente dramática é que elas são mortas por homens com quem elas têm (ou tiveram) alguma relação afetiva ou de parentesco.

Nós acreditamos, inclusive, que esse modelo de masculinidade, agressivo, autoritário, e violento, que tomou enormes proporções no Brasil, se associou ao que há de pior no conservadorismo e elegeu um presidente que é incapaz de lidar com problemas de ordem primordial, como conter a pandemia, ou com práticas cotidianas de ocupantes da posição, como responder a perguntas desagradáveis da imprensa. Não dá para negar, no entanto, que ele foi eleito oferecendo um pulso firme contra os “bandidos”, contra a corrupção e etc. e que, muitas vezes, a maneira mal-educada ou violenta como reage em diversas situações é só um reforço, como se fosse uma prova, de sua “macheza”. Comportamentos inaceitáveis para uma mulher na mesma posição, como a gente pôde ver com a ex-presidenta Dilma Rousseff, que estava longe de ser igualmente destemperada.

Enfim, o apoio dos homens às causas feministas pode sim representar a presença deles em manifestações, nas ruas, mas pode também começar pela escuta, passar pela divisão dos trabalhos domésticos, passa por ser um pai, um tio ou um avô presente e participante na vida das suas crianças, por tornar os ambientes mais acolhedores, seguros e solidários para nós mulheres. Passa por também se ocupar das cirandas para as crianças durante as reuniões e outras atividades, em se oferecer para trabalhar na cozinha e na limpeza nos encontros, fazer o trabalho invisível das atividades coletivas, passa por repreender os amigos que têm essas posturas, passa por intervir em situações de conflito, evitando a escalada da violência. Passa, sobretudo, por investir em “grupos de consciência” como diziam nossas mais velhas, que façam com que identifiquem, discutam e trabalhem contra modos de existir que fazem com que os homens sejam os maiores causadores, mas também as maiores vítimas da violência na qual estamos nos afundando.

De resto, bom, nos últimos anos houve um boom de publicações feministas, durante a quarenta foram feitas muitas lives sobre o tema, no site de vocês tem muita coisa importante também. Não custa nada os caras irem atrás de se informar. Como diz uma interlocutora nossa: se cocem, camaradas!


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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.