Por Redação | 30/07/2020

A Sempreviva Organização Feminista (SOF) e a Gênero e Número, veículo de jornalismo de dados, lançaram nesta semana a pesquisa “Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”. O levantamento ficará disponível online no dia 30 de julho (acesse o site) e mostra os impactos do contexto de isolamento social na crise da saúde para a vida das mulheres, considerando desigualdades raciais. 

Em junho deste ano, dados sobre mercado de trabalho e sintomas gripais aferidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostraram que, no Brasil, mulheres, negros e pobres têm os prejuízos financeiros e de saúde mais graves durante a pandemia.

Os dados mostram que metade das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, mas os recortes indicam como a realidade não é a mesma para todas. Entre as mulheres que estão em ambientes rurais,  62% afirmaram que passaram a ter esse tipo de responsabilidade.  No recorte de raça, os dados mostram que as mulheres negras têm menos suporte nas tarefas de cuidado. 

Segundo a análise, a cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da doença, sete são pretas ou pardas — parcela da população fortemente dependente da informalidade no mundo do trabalho. Em relação a homens, mulheres têm saúde e trabalho mais prejudicados.

Partindo da perspectiva de que as tarefas de cuidado e trabalho se sobrepõem de forma mais intensa durante o distanciamento social, o objetivo da pesquisa foi investigar os efeitos sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa. 

 

Orientada pela economia feminista e por estudos feministas, o questionário incluiu 52 questões fechadas. Mais de 2.600 mulheres brasileiras foram atingidas e as respostas foram coletadas por formulário online, entre abril e maio. 

De forma geral, os pontos avaliados foram: perfil das entrevistadas;  a composição dos domicílios e a situação durante a pandemia; percepções sobre o período, assim como suas condições para prevenção; a questão do trabalho doméstico; o cuidado direto com outras pessoas e violência doméstica.

As organizações responsáveis pela pesquisa afirmam que os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida foram intensificados na pandemia

Crédito: SOF / Gênero e Número

Para as organizações envolvidas na pesquisa, o cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. “Não há a possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global, que também nos fala sobre uma crise do cuidado”, afirma o texto de divulgação. 

Entre as que seguiram trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários, 41% afirmaram estar trabalhando mais no período da quarentena. Deste total, a maior parcela é de mulheres brancas. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%. 

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena.

Veja alguns relatos:

  • Eu estou fazendo isolamento e trabalhando de casa, porém minha renda despencou.”.
  • “A empresa reduziu o pagamento em 50% sem reduzir a jornada (minha situação é informal) e isso me força a reorganizar a vida financeira, porque acabo tendo ainda mais gastos com mercado, energia, etc”

“Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar. Por isso entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe”, afirmam as organizações. 

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