Depois de uma grande mobilização envolvendo estudantes de todo o Brasil, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio 2020) será adiado de 30 a 60 dias. A decisão foi divulgada em anúncio do Ministério da Educação (MEC) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) na quarta-feira (20). Mesmo com o adiamento, as inscrições permanecem abertas e foram prorrogadas até quarta-feira (28).

“Eu, como estudante da rede pública, estou feliz pelo nosso trabalho ter dado certo e a gente ter conseguido adiar o Enem. Vamos mostrar para esse governo que o Enem deve servir para corrigir injustiças. Como tivemos força para adiar, vamos ter força para que a data da prova também seja justa”, diz Nataly Santos, 18, moradora do bairro Lamarão, em Aracaju (SE), que teve sua foto com a placa #AdiaEnem viralizada em todo o Brasil.

Jovem na campanha #AdiaEnem

A estudane Nataly viralizou a campanha #AdiaEnem/ Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

A presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Rozana Barroso, 21, considera o adiamento uma vitória, já que foi fruto também da mobilização de diversas organizações, como a própria Ubes e União Nacional dos Estudantes (UNE), que lançaram solicitação coletiva de suspensão do calendário do exame, mostrando como as dificuldades de acesso podem acirrar ainda mais as desigualdades sociais.

Houve, ainda, campanhas como o 15M (Dia Nacional de Adiamento do Enem) e um abaixo-assinado que reuniu mais de 300 mil assinaturas.

“Não vamos deixar nas mãos do Ministério da Educação (MEC) escolher uma nova data. Agora, nossa reivindicação é que se forme uma comissão com os estudantes e profissionais da educação básica e superior e profissionais da saúde para discutir como isso vai se dar. Queremos optar nas datas, queremos ser ouvidos”, ressalta.

As novas datas de provas serão decididas por meio de consulta pública — na página do participante — que será enviada em junho aos estudantes inscritos. Na terça-feira (19), um projeto de lei que previa o adiamento do Enem e de outros vestibulares foi aprovado no Senado Federal e segue agora para a Câmara dos Deputados.

Racismo estrutural na Educação

Mesmo com o adiamento do Enem por alguns meses, a manutenção da prova referente ao ano letivo de 2020 pode ainda fechar as portas para milhares de jovens que estão no ensino médio, sendo o problema ainda maior quando falamos de meninas e meninos negros.

Segundo o Observatório de Educação do Instituto Unibanco, apenas 27% dos jovens negros de 15 a 17 anos estavam no ensino médio em 2018.

No mesmo ano, o abandono escolar era maior entre os negros, sendo que 4 entre 10 negros não haviam concluído a última etapa escolar, ou seja, ao menos 44% dos estudantes negros. Entre as meninas, 33% não estavam na etapa de ensino, enquanto o total das brancas era de 18,8%.

Onde a internet chega mal

A questão se acirra ainda mais em tempos de pandemia, já que o acesso à internet também é restrito a esse grupo de jovens. Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, em 2018, o telefone celular era o único meio de acesso à internet, sobretudo nas classes C (61%), e D/E (85%).

Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 55% dos acessos móveis do país são pré-pagos. Essas informações são da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que produziu o Guia Covid-19: Educação a Distância, para auxiliar o poder público, educadores, estudantes e famílias neste momento de crise.

De acordo com a TIC Domicílios, divulgada em 2019, 78% da população com renda familiar inferior a 1 salário mínimo tem acesso à internet exclusivamente pelo celular.

“Se manter o exame, vai agravar ainda mais a desigualdade educacional. Os jovens da periferia dependem de Wi-Fi público para poder acessar uma pesquisa. Eu mesma tenho uma internet que parece à manivela. O privilégio será da classe média, porque eu mesma não estou conseguindo estudar”, pontua Bárbara dos Santos, 25, moradora do Morro Doce, região noroeste de São Paulo.

Covid-19: maior risco para os negros

Além da desigualdade social que separa os adolescentes brancos dos negros na educação, os riscos de contaminação frente à pandemia da Covid-19 também colocam os sonhos de garotas e garotos em risco. Em São Paulo, os pretos têm 62% mais chance de vir a óbito por conta da Covid-19 do que os brancos. Os pardos têm 23%, aponta pesquisa do Observatório Covid-19 da prefeitura da capital paulista.

O medo permeia a vida de estudantes desses territórios nesse momento. Muitos estão vivendo o stress emocional de ver seus vizinhos e amigos partindo por conta do coronavírus e se questionam como irão conseguir ter saúde mental para estudar diante desse cenário.

“Com o surto da Covid-19, o povo periférico está sendo dizimado pelo vírus. Conheço famílias inteiras que foram mortas e a todo momento cruzo com pessoas que estão sentindo a dor de uma perda e com problemas emocionais à flor da pele. Não tem condições de fazer uma avaliação como o Enem nesse nível de estresse e tensão”, diz Laís Xavier, da Brasilândia, zona norte de SP.

Para entender como a pandemia atravessa a vida e também os sonhos de meninas negras no Brasil, o Nós, mulheres da periferia entrevistou sete jovens de diferentes localidades, sendo cinco delas das periferias da capital paulista, uma da região periférica de Aracaju (SE) e uma do interior do estado do Rio de Janeiro. Conheçam abaixo os sonhos e histórias de Laís Xavier, Nataly Santos, Rozana Barroso, Lara Silva, Mariana Azevedo, Bárbara dos Santos e Elaine Silva.

Laís Xavier. Sonho: ser juíza

Laís Xavier é estudante do Cursinho Livre da Lapa/ Arquivo pessoal

Laís Xavier, 17, mora na Freguesia do Ó, na zona norte de SP. Quando pequena, almejava ser arquiteta. O desejo antigo ficou de lado e deu espaço a uma nova mirada: estudar Direito e se tornar juíza. “Quero ajudar nos casos de racismo. Acontecem com frequência crimes forjados para a criminalização de pessoas negras, a maioria sem condições de uma defesa decente e eficaz”. Concluiu o Ensino Médio em 2019, e começou o ano com uma meta muito clara: estudar para conseguir entrar na universidade. Por isso, entrou no Cursinho Popular Livre da Lapa.

“Todo adolescente planeja esse tempo para fazer a vida correr: trabalhar para ajudar em casa, conquistar as próprias coisas”. No momento, no entanto, todos os planos estão paralisados. Para ela, mesmo o Enem é um método desigual de avaliação. “Quando comparamos os conteúdos exigidos na prova e os oferecidos na escola pública, aparece o buraco e a omissão dos governantes com a rede pública”.

Em tempos de pandemia, ela acha que a realização do exame só vai privilegiar quem já tem infraestrutura para se manter em um ensino à distância. “Antes da pandemia, já víamos que eram poucos os alunos da rede pública que ocupavam as universidades públicas”, diz.

Nataly Santos. Sonho: ser atriz

Nataly Santos é estudante de ensino médio da rede pública de Araccaju (SE)/ Arquivo pessoal

Moradora da região periférica de Aracaju (SE), desde criança o sonho de Nataly Santos, 18, é ser atriz. Mas em um ano tão atípico, ela o sente ainda mais distante de acontecer. “Eu sinto que os meus sonhos estão sendo roubados, enquanto alguns estão se preparando, outros não têm nem dinheiro para comer”.

Seu objetivo com a foto? Aluna do 3º ano do Ensino Médio de uma escola estadual, ela soube da quarentena em sua unidade escolar em uma reportagem na TV. “Não achei que ficaria esses meses todos. Minha preocupação era se o conteúdo iria ser dado para a gente se preparar para o Enem”.

Para ela, o exame é o caminho possível para fugir das estatísticas reservadas às jovens negras. “O Enem é o meio pelo qual eu posso ingressar em uma universidade e não ser mais uma na estatística da evasão escolar. É a porta para eu realizar meu sonho e de outros jovens”.

Mesmo vibrando com a prorrogação da data das provas, Nataly sabe que, na corrida do vestibular, quem tem acesso à educação sairá na frente, caso o Enem realmente aconteça. “Os mais privilegiados são os alunos das escolas particulares, pois estão tendo aula a distância. A escola pública não sabe o que fazer, há muita falta de recursos. Se é pra estudar com tudo que temos, vamos estudar com o quê se não temos nada? Não podemos permitir que o Enem seja mantido esse ano”.

Rozana Barroso. Sonho: ser biomédica

Rozana Barroso é presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas/ Dvulgação Ubes

Rozana Barroso, 21, é de Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. Pré-vestibulanda em um cursinho popular de sua região, Rozana se tornou presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) quando ainda cursava o ensino médio em escola técnica do estado do Rio. Seu sonho? Ser biomédica. “Quero ser a primeira da minha família a entrar na universidade”.

Ela é uma das vozes que esteve à frente da campanha #AdiaEnem. O gosto por ensinar e pela Educação acompanha a jovem desde menina. Ela queria ser professora, já que a avó lecionava matemática. “Encontrei esse amor na luta em defesa da Educação”. Mas foi pela Biomedicina que ela se apaixonou e, agora, entrar em um curso na área é seu grande objetivo.

“A primeira decisão do Ministério da Educação (MEC) em manter a antiga data tirava de nós uma perspectiva de futuro. Fiquei muito abalada. Saber que meu sonho é o sonho de milhares de jovens do nosso país me deu força para representar mais de 40 milhões de estudantes por meio da Ubes”.

Para ela, a educação pública já é desvalorizada constantemente e que esse cenário se agrava nas periferias e favelas, como temos visto no Rio de Janeiro. “Eu sou do estado do Rio de Janeiro e a gente sabe a realidade de não conseguir ir para a escola por conta de tiroteio. Vide casos como o de João Pedro ou Ágatha, que estavam dentro da vã ou de casa.

“A desigualdade social já nos coloca muito atrás na realização do exame, mesmo antes da pandemia. Se eles não tivessem escutado a nossa pressão e mantivessem a antiga data da prova, seria pior ainda, pois estariam fechando completamente as portas da universidade e do ensino superior para a juventude preta, periférica, rural, indígena e pobre, frustrando diversos sonhos de mudar as nossas vidas e de nossas famílias”.

 

Lara Silva. Sonho: ser nutricionista

Lara Silva é estudante do cursinho popular Uneafro/ Arquivo pessoal

Quando criança, Lara Silva, 18, moradora do bairro do Limão (zona norte de SP) sonhou muitas profissões para sua vida. Médica, chefe de cozinha e promotora. Com os anos, os desejos para o futuro se transformaram e seu grande objetivo é se tornar nutricionista e também ajudar o meio ambiente. Estudante de escola particular com bolsa integral, Lara finalizou o ensino médio em 2019 e começou este ano seu objetivo era se dedicar aos exames vestibulares, por isso entrou em um cursinho da rede Uneafro.

Quando soube da quarentena, se preocupou com os estudos, mas ainda mais com os perigos da doença. “A pandemia influencia diretamente nos meus estudos. Além de não ter um bom ambiente para me concentrar, é difícil também estudar enquanto pessoas estão morrendo ou sendo infectadas pela Covid-19”. Para a estudante, o Enem funciona como uma porta de entrada para a universidade pública e também para o mercado de trabalho. Era crítica também à data anterior do Enem.

Mesmo diante do adiamento, Lara relembra dos desafios em tempos de pandemia. “Os privilegiadas são aqueles que têm acesso à internet e um computador sempre à sua disposição. Os estudantes em desvantagem são aqueles que não possuem acesso, não têm bom local de estudo ou um computador, ou até mesmo os jovens que estão infectados com a Covid-19 e com parentes em sua volta doentes também”.

Mariana Azevedo. Sonho: ser médica

Mariana é aluna do cursinho popular Uneafro/ Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Mariana Azevedo, 17, é moradora do Jardim Miriam, na zona sul da cidade de São Paulo. Quando criança, diversos sonhos permearam seu imaginário. Um deles permaneceu: estudar medicina.

A pandemia influencia diretamente na realização do objetivo. “Mas não vai me fazer desistir”. Diferente de uma grande parte na periferia, Mariana tem acesso à internet e vai aproveitar a pausa das aulas do cursinho da Uneafro em sua região para pesquisar mais sobre sua futura profissão.

“O cursinho tem estado em contato, interessados na nossa sobrevivência. Enquanto as aulas não voltam, vou buscar cursos online que estejam ligados ao meu sonho, para que eu não fique sem fazer nada e isso não me afete psicologicamente”.

Para a jovem, o Enem é sua porta de entrada na universidade. “É a ferramenta que posso utilizar para realizar meus sonhos, porque é algo que tenho acesso. Por mais que existam outros vestibulares, como a Fuvest, Unicamp, o Enem ainda assim é o mais acessível. Mais fácil de se inscrever e que pega tudo que já aprendi”. [ *Colaboração de Semayat Oliveira ]

Bárbara dos Santos. Sonho: ser gestora cultural

Bárbara Santos, 25, é estudante do cursinho popular da Uneafro/ Arquivo pessoal

Crédito: Jeff Calux

Bárbara dos Santos, 25, mora no Morro Doce, na região noroeste da cidade de São Paulo. Desde que finalizou o Ensino Médio, em escola pública em 2016, ela tenta ingressar na Universidade. Em 2020, colocou para si mesma a meta de entrar na faculdade.

Entre o trabalho em telemarketing e as responsabilidades com o filho, ingressou em um cursinho pré-vestibular popular da Uneafro aos sábados, no bairro de Perus. “Tem sido bem difícil, pois agora era a hora que eu iria me preparar para disputar os vestibulares que estou tentando desde 2016.

Quando criança, seu sonho era ser atriz ou jornalista. Sempre brincou de escolinha, onde era a professora. Hoje, quer atuar na área cultural e ser gestora pública. Objetivos adiados por tempo indeterminado com a chegada inesperada da pandemia.

“Na periferia, a gente tem vivido um dia de cada vez. Nunca foi fácil, mas a gente tinha muita esperança. Não que a gente não tenha, mas está bem difícil mantê-la. No meu bairro, pelo menos nove pessoas já faleceram de Covid-19, três eram meus conhecidos, uma delas estudou comigo no ensino médio. Estamos com medo e ajudando um a outro. O apoio mútuo é bem forte”.

Elaine Silva. Sonho: ser cantora

Elaine Silva é estudante do Núcleo Quilombaque da Uneafro/ Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Elaine Silva, 19, mora em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo. Na infância, vislumbrava ser como as cantoras da televisão. A falta de oportunidades fez a garota perder o interesse e desistir.

Ao entrar em 2020, ingressou também no Cursinho Popular da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras), na unidade da Comunidade Cultural Quilombaque, em Perus, zona noroeste da cidade de São Paulo, onde ela teve dimensão da importância dos vestibulares e do Enem especificamente. “Antes, eu só fazia por fazer. Depois que eu conheci a Uneafro, eu abri a mente.

Quero aprimorar meus conhecimentos e entender melhor em que quero trabalhar”. Para ela, a manutenção do Enem irá privilegiar apenas a classe média. “Para eles, a base de estudos é mais forte e ampla. A classe mais baixa está sofrendo para estudar, eu estou passar isso, vendo com os meus próprios olhos. É importante estender a data por conta da minoria que não tem a mesma oportunidade que a classe média”.

Covid-19: professoras da periferia explicam por que a educação está em risco

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