Este conteúdo integra o especial “Racismo Ambiental: mulheres indígenas e quilombolas na proteção de seus povos contra a Covid-19

O município de Salgueiro está a 513 km à oeste de Recife, em Pernambuco. Conhecida também como “encruzilhada do nordeste”, faz ponta com outras regiões do estado.

É aqui que está localizado Conceição das Crioulas, um quilombo criado por mulheres ainda no século 17. Nós o conhecemos pela voz de Givânia Silva, de 53 anos de idade, quilombola, professora universitária, militante e uma das cofundadores da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas).

Falar com Givânia nesse momento de pandemia é como dar um abraço virtual com a esperança de que, em breve, ele será realmente dado, com direito a riso, choro e cerveja. “Tudo que mulher preta gosta”, diz, dando risada.

Mesmo com o bom humor leve e espontâneo do outro lado do telefone, Givânia é objetiva e cirúrgica quando o assunto é racismo ambiental, explicando em um parágrafo como o ele é uma das conexões do racismo estrutural em nossa sociedade.

“Ao se aplicar às questões ambientais, há uma conexão muito direta com os povos e comunidades tradicionais, exatamente pelo foco que estes têm com os territórios, sejam eles urbanos ou rurais. São povos em defesa do território, dos espaços do território de produção, de várias maneiras, como a produção do sagrado”.

Explicado o conceito, ela faz a relação disso à chegada da Covid-19 nesses territórios. “Esse racismo se torna mais violento porque ele chega exatamente em um momento (e sempre chegou) em espaços que, por si só, já têm muitas fragilidades”, aponta.

“Nós estamos pedindo para as pessoas não saírem de casa, para as pessoas lavarem as mãos. Mas a gente precisa entender que nem todo mundo consegue ter água, nem pra beber, quanto mais para lavar as mãos com frequência como orientam as autoridades de saúde” (Givânia Silva)

Segundo o monitoramento autônomo desenvolvido pela Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), entre os dias 16 e 17 de abril havia casos de pessoas diagnosticadas em cinco estados, sendo 29 casos pendentes de diagnóstico, sete confirmados e dois óbitos. Na última quarta-feira (22), a situação se agravou para seis mortes de quilombolas, aponta nota oficial da organização.

Difícil é escolher apenas um ou dois trechos de sua entrevista, já que são tantos aprendizados em apenas 40 minutos de prosa, já que logo depois ela já entraria em uma nova “live“, em uma correria virtual para articular, criar informações de fácil acesso e proteger as comunidades quilombolas.

Nesse momento, o maior pedido é que as pessoas da cidade não transmitem pelos quilombolas, tampouco vice-versa, em um esforço tremendo para que o vírus não chegue no território.

“O isolamento das pessoas em um quilombo, é diferente do isolamento das pessoas na cidade. Pelo menos o rural. As pessoas estão indo para a roça, nós estamos em época, no nordeste, de colheita, então as pessoas estão indo para a roça colher o feijão. Não tem jeito. O isolamento que estamos chamando e estamos chamando a atenção é para não sair para a cidade e não receber ninguém da cidade”.

Pois ela sabe que, em um momento como esse, a pandemia afeta mais violentamente as comunidades periféricas e povos e comunidades tradicionais. Para ela, não é possível desconectar os problemas anteriores à pandemia, como se eles tivessem aparecido só agora.

A professora explica que, ao chegar um problema como a Covid-19, só se amplia um quadro que já está lá instalado, que é de ausência de política pública, abandono da gestão pública, racismo estruturado nas relações de saúde, de educação, de assistência social ou moradia

“A Covid-19 só está alterando problemas que já estavam lá. Por exemplo, o desemprego. Mas pretos, pobres e periféricos já estavam desempregados. A diferença é que a Covid-19 gerou desemprego para outras camadas da sociedade. Mas eu não tenho dúvida de que quem vai morrer mais durante a pandemia são os mais pobres, porque são esses que não têm como ficar em casa. São esses que têm que sair para trabalhar. São esses que não podem ficar três, quatro meses sem pôr o pé na rua, e ter dinheiro para pedir para a alimentação vir na porta”.

A violência simbólica com o coronavírus

Além de todas as questões sociais que o vírus implica, é na cultura e costumes dos povos que o receio da doença faz um estrago ainda mais dolorido.

Givânia nos leva para dentro do quilombo, onde as práticas de distanciamento não são as mesmas das cidades. Aqui, a tradição é o compartilhamento, o estar junto, principalmente dos mais velhos, fonte de saber é ancestralidade.

“No quilombo, independente do tamanho da sua casa, é um valor nosso estar próximo dos nossos, dos mais velhos, das crianças, dentro dessa liberdade de sair e voltar, e andar. E essa doença ela chega para desestruturar uma coisa que, historicamente, é um valor nosso, e é uma das coisas que mais sustenta a nossa existência esse convívio coletivo”, lamenta.

“Aí a doença dos ricos e brancos chega e destrói e passamos a ser obrigados a não pedir benção para o mais velho, a não encostar nos mais velhos, a não abençoar as crianças, porque nós não podemos tocar nelas, então, isso é uma violência simbólica muito grande.

Para Givânia, outro aspecto importante a ser discutido é a política do auxílio emergencial, que não leva em consideração as especificidades do mais diversos territórios.

“No caso da renda mínima é um problema. Nem todas as comunidades têm internet. Nem todas as comunidades têm energia. Como é que você vai ter o satanás do aplicativo lá pra baixar e entrar no sistema?”.

Questiona a professora, que lecionou para os  anos iniciais durante 20 anos em seu quilombo. Foi lá que Givânia começou sua militância em prol do povo quilombola, quando ainda era muito jovem, por meio da pastoral da juventude e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Foi vereadora pelo Partido dos Trabalhadores duas vezes na cidade, passou pelo Incra e se orgulha de ter colaborado na devolução de terras às suas iguais e suas famílias quilombolas.

Ela agora está confinada em Brasília. “Essa terra onde tudo acontece, inclusive nada”, diz. Um dia antes do início da quarentena, ela havia passado em um concurso para professora substituta na Universidade de Brasília (UnB), mas o plano teve que ser adiado diante dos perigos da doença.

É aqui que ela se formou no mestrado é agora cursa para doutorado discutindo a organização das mulheres e a relação com as possíveis teorias de feminismo, e de decolonialismo. Sua rotina está atravessada pela quarentena e pelas preocupações em torno do coronavírus. Mas acredita que está nessas conversas e encontros, mesmo que virtuais, as coisas que ainda podem nos animar.

“Você está aí na periferia, e eu aqui nessa cidade fria. Mas eu tenho esperança que, embora a gente não chegue a ver todos os frutos desse trabalho, eu tenho certeza que quem vir depois verá. É nisso que me agarro todo dia quando acordo, essa esperança de que a gente não está só. A gente não se conhece pessoalmente, mas nossas histórias estão interligadas pelo nosso passado, e pelo futuro que nós acreditamos construir”.

Confira abaixo o bate-papo na íntegra.

Nós, mulheres da periferia: o que é é como se configura o Racismo ambiental em nossa sociedade?
Givânia Silva: eu quero fazer uma reflexão sobre racismo em si. Porque, na verdade, o racismo ambiental é uma das conexões do racismo, porque, na verdade, o que estrutura mesmo é o racismo. É a racialização do pensamento como uma prática e uma ideologia.

Ao se aplicar às questões ambientais, assim como se aplica na Educação, na Saúde, na Religião e na Cultura, na questão ambiental ela tem uma conexão muito direta com os povos e comunidades tradicionais, exatamente pelo foco que estes têm com os territórios, sejam eles urbanos ou rurais, seja do ponto de vista da questão da defesa do território, ou seja também da defesa dos espaços do território de produção, de várias maneiras, mas também dos territórios de produção do sagrado.

Aliado a isso, esse racismo se torna mais violento porque ele chega exatamente em um momento ( sempre) em espaços que já, por si só, já têm muitas fragilidades. Por exemplo, os lugares que não têm coleta de lixo, saneamento básico, os lugares que não têm água, nós estamos pedindo para as pessoas não saírem de casa, para as pessoas lavarem as mãos sempre, mas a gente precisa entender que nem todo mundo consegue ter água, nem para beber, quanto mais para lavar as mãos com frequência como exigem as autoridades, como orientam as autoridades de saúde.

Um outro aspecto, que é importante também falar, é que os quilombos, por exemplo, a política e a vivência e resistência ela parte do território. Então, não acreditamos em nenhuma política que não parta do território. Ou seja, ela precisa nascer no território.

Esses territórios, uma vez fragilizados, os quilombolas vão estar também fragilizados. Por isso que o racismo ambiental em um momento como esse, de uma pandemia como a do Covid-19, ele afeta tão mais violentamente as comunidades periféricas e povos e comunidades tradicionais.

É por essas conexões que já estão postas lá que, ao chegar um fato como esse, um problema como o Covid-19 ele só amplia um quadro que já está lá instalado, que é de ausência de política pública, que é de abandono da gestão pública, que é de racismo estruturado nas relações sejam de saúde, de educação, de assistência social, de moradia, etc.

Não podemos desconectar uma coisa da outra porque parece que algumas pessoas estão tentando dizer que o problema começou com a Covid-19. Não, a Covid-19 está alterando problemas que já estavam lá. Por exemplo, o desemprego, alterou com a Covid-19? Alterou. Mas todo mundo, pretos e pobres, periféricos, já estavam desempregados.

Então, a diferença é que a Covid gerou desemprego para outras camadas da sociedade. Anteriormente, era só nossa essa fatia. Agora, ela se amplia. Mas, eu não tenho dúvida de que quem vai morrer mais durante a Covid são os mais pobres, porque são esses que não têm como ficar em casa. São esses que têm que sair para trabalhar. São esses que não podem ficar três, quatro meses sem pôr o pé na rua, e ter dinheiro para pedir para a alimentação vir na porta.

Se não for pela Ciência, não é pela Economia que nós vamos dar a resposta à Covid-19

Quando a gente discutia a Reforma da Previdência, e o governo dizendo que era pra poder gerar emprego, nós não vimos um emprego a mais criado pela reforma. Quando congelaram os recursos de saúde [ Emenda Constitucional 95/2016] e de educação por vinte anos é porque “tinha muito dinheiro na saúde e educação [segundo eles] e nós estamos vendo o que está acontecendo com a saúde pública agora. Estabeleceu-se uma política de ódio aos hospitais públicos e à ciência.

Se não for pela Ciência, não é pela Economia que nós vamos dar a resposta à Covid-19, diminuindo assim o número de mortos mesmo que nós tenhamos consciência de que são os mais pobres que vão morrer mais. Embora a doença tenha vindo para o Brasil pelos que viajam, pelos mais ricos, veio pelos mais ricos para matar os mais pobres.

Nossos mais velhos já estão condenados a morrer, nós já estamos condenados a morrer, velhos e novos, pelo racismo, e agora pela Covid-19. De novo, são os nossos que estão na fila para morrer.

NMP: Algumas doenças sempre afetaram mais algumas pessoas negras, como diabetes, pressão alta. A população fica ainda mais exposta, um grupo de risco por si só?

Givânia Silva: Quando a gente pede para as pessoas não irem para os quilombos e os quilombos não irem para as cidades, mesmo sabendo que é impossível, é exatamente por isso. Muitos da nossa população têm uma grande população de idosos. Todo mundo viu o novo Ministro da Saúde, que disse que se tiver um ventilador e tiver uma jovem de 12 anos e uma pessoa de 80 anos ele vai botar no jovem de 12 anos porque tem uma vida pela frente. Ou seja, nossos mais velhos já estão condenados a morrer, nós já estamos condenados a morrer, velhos e novos, pelo racismo, e agora pela Covid-19. De novo, são os nossos que estão na fila para morrer.
E também tenho dito isso e não faço nenhum segredo. Eu não tenho dúvida que se só tiver um ventilador pra por e tiver duas mulheres ou dois homens, branco e negro, eu não tenho dúvida de quem é que vai ficar com o ventilador. Não sei se você tem, eu não tenho, não. Infelizmente.

“Essa doença ela chega para desestruturar uma coisa que, historicamente, é um valor nosso, e é uma das coisas que mais sustenta a nossa existência esse convívio coletivo”.

Nós, mulheres da periferia: quais são os desafios de uma comunidade que sempre teve vida compartilhada?

Givânia Silva: Nós não temos essa prática de distanciamento que as cidades impuseram às pessoas. Eu tenho acompanhado bastante esse debate da situação da cidade, das favelas, das periferias. E é um pouco parecido. Na periferia, porque não tem espaço mesmo. As pessoas têm que morar em uma casa de dois cômodos. Quando tem, porque grande parte não tem nem dois cômodos. Mas no quilombo, independente do tamanho da sua casa, e um valor nosso estar próximo dos nossos, dos mais velhos, das crianças, dentro dessa liberdade de sair e voltar. E essa doença ela chega para desestruturar uma coisa que, historicamente, é um valor nosso, e é uma das coisas que mais sustenta a nossa existência esse convívio coletivo.
Aí a doença dos ricos e brancos chega e destrói e passamos a ser obrigados a não pedir ab ença para o mais velho, a não encostar nos mais velhos, a não abençoar as crianças, porque nós não podemos tocar nelas, então, isso é uma violência simbólica muito grande.

o isolamento das pessoas em um quilombo é diferente do isolamento das pessoas na cidade. Pelo menos o rural. O perigoso não é ir para a roça colher o feijão. O perigoso não é esse. O perigoso é ir na cidade, contrair a doença e levar para o quilombo ou uma pessoa da cidade levar a doença para o quilombo e infectar muito gente

NMP: quais são as diferenças do isolamento dos quilombos para o das cidades?

Givânia Silva: o isolamento das pessoas em um quilombo é diferente do isolamento das pessoas na cidade. Pelo menos o rural. O perigoso não é ir para a roça colher o feijão. O perigoso não é esse. O perigoso é ir na cidade, contrair a doença e levar para o quilombo ou uma pessoa da cidade levar a doença para o quilombo e infectar muito gente. As pessoas estão indo para a roça, nós estamos em época de colheita no nordeste, então as pessoas estão indo para a roça colher o feijão. Não tem jeito. O isolamento que estamos chamando e estamos chamando a atenção é para não sair para a cidade e não receber ninguém da cidade. O perigo está aí. O perigoso não é ir para a roça colher o feijão. O perigoso não é esse. O perigoso é ir na cidade, contrair a doença e levar para o quilombo ou uma pessoa da cidade levar a doença para o quilombo e infectar muito gente, devido esse nível de aproximação que a gente já falou.

NMP: qual tem sido o sentimento que ronda o quilombo nesse momento?
Givânia Silva: É um sentimento de medo, de insegurança, a Conaq tem se esforçado no sentido de produzir informações com linguagem mais simples, que possam chegar nas comunidades. Tenho gravado vídeos, enviado para a juventude, professores, para a comunidade geral.

Está todo mundo com medo. Todo mundo com medo como o resto do mundo. Não está fácil, mas outra realidade que nós temos é dos quilombos urbanos. Esses aí estão mais expostos à pandemia, mas vamos lidando com isso com bastante apreensão e preocupação, mas não tem outro jeito a não ser tentar nos proteger ao que pudermos.

Quando se pensa a política sem olhar as especificidades é muito fácil cometermos erros graves.

Nós, mulheres da periferia: Como está a questão da renda emergencial, o pessoal está acessando, como é a questão da internet?

Givânia Silva: Esse é o problema. Quando se pensa a política sem olhar as especificidades é muito fácil cometermos erros graves. No caso da renda mínima é um problema. Nem todas as comunidades têm internet. Nem todas as comunidades têm energia. Como é que você vai ter o satanás do aplicativo lá pra baixar e entrar no sistema?

Não dá pra gente dizer para as pessoas irem para a cidade e pegar o celular de alguém, é uma porta de contaminação. Nós estamos bem apreensivos sobre tudo e tentando encontrar alternativas, sobretudo para essas comunidades que ainda não têm nem energia, imagina internet.  Grande parte dos nossos ainda não acessaram esse recurso porque nem sequer se enquadram nesse perfil de baixar um aplicativo no celular e preencher lá as informações.

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