*Publicado originalmente por Charlotte Alterno portal Time (Estados Unidos), em 12 de maio de 2017/Tradução livre por Semayat Oliveira. 

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Quando Tanisha Bynum decidiu dirigir para a praia após sua licença ter sido suspensa, duas semanas atrás, ela não sabia que estava correndo o risco de deixar suas crianças sozinhas no Dia das Mães. E, ainda, perder o aniversário de três anos de seu filho e a formatura da sua filha no jardim de infância.

Mas quando Bynum, 25, dirigiu do Alabama para a Flórida- nos Estados Unidos – a caminho da praia, outro carro passou no farol vermelho e bateu em sua caminhonete, fazendo com que ela colidisse com um poste. Ela não se feriu, mas foi detida por dirigir com uma licença suspensa e levada para a prisão. Ela já tinha sido multada na Flórida e não compareceu ao fórum por morar no Alabama. Então, a fiança definida para o seu caso foi de $10 mil dólares, com um julgamento marcado para o começo de junho. Bynum, grávida de dois meses e mãe de quatro crianças com menos de 8 anos, teria que sentar e esperar, na prisão.

“São marcos na vida dos meus filhos,” ela disse sobre o aniversário e a graduação. “Eu não queria ter perdido isso por causa de uma multa de trânsito.”

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Mas na última sexta-feira, 12 de maio, Bynum foi uma das centenas de mulheres negras liberadas da cadeia pelo Mama’s Bail Out Day (‘Mães fora da prisão’, em português), uma campanha de Dia das Mães organizada por mais de doze grupos ligados ao Movimento por Vidas  Negras (também protagonizada pela organização Black Lives Matter, mas não só).

Até a publicação original deste texto, grupos de justiça social como Color of Change e Southerners on New Ground levantaram mais que $550 mil dólares para pagar a fiança de mulheres negras em diferentes estados dos Estados Unidos, com $345 mil dólares direcionados apenas para o custo das fianças, e o restante para reforçar a organização local e a prestação de serviços para as pessoas que têm sido resgatadas.

O trabalho tem a intenção de chamar a atenção do sistema econômico de fianças nos Estados Unidos, onde cada pessoa retida é mantida na cadeia esperando o julgamento, a não ser que se pague uma fiança considerável. O sistema afeta, de maneira desproporcional, famílias e comunidades negras. Essas mulheres foram apenas presas, não condenadas por um crime.

“O Sistema econômico de fiança nesse país é injusto e pune pessoas por serem pobres”, disse Serena Sebring, uma das organizadoras locais do Southerners an New Ground, que tem foco em justiça social para grupos homoafetivos (LGBTQ).

Relatório publicado pelo grupo Color of Change (Cor da Mudança) e o American Civil Liberties Union (ou ACLU) estima que cerca de 440 mil  pessoas estão presas sem terem sido condenadas por um crime, o que equivale, aproximadamente, a 70% da população encarcerada. E o ACLU estima ainda que, em comparação com 1980, há oito vezes mais mulheres em cárcere atualmente. Esta é uma questão que afeta principalmente famílias negras: de acordo com relatório da  Human Rights Watch, organização internacional de direitos humanos,  abordando o impacto das fianças em comunidades com baixa-renda, a população negra é 6,5 vezes mais vulnerável à prisão e, ao mesmo tempo, possui menos condição de arcar com o custo da fiança.

Semanas antes do Dia das Mães, as organizações estudaram os registros de cadeias locais para identificar quem estava aguardando por julgamento. Além disso, escreveram cartas para as mulheres perguntando se eram mães ou cuidadoras. Também solicitaram ao clero que trabalha no sistema prisional para contribuir na identificação de mães que concordariam com a proposta. “Estamos trabalhando com a defensoria pública, pessoas do sistema judicial, prestadores de serviços e famílias,” disse Scott Roberts, diretor de campanhas de justiça criminal na Color of Change. “Se houver critérios, isso é determinado a nível local”.

Outra preocupação da ação é garantir que as mulheres sejam assistidas e recebam o suporte necessário enquanto aguardam os respectivos julgamentos, independente se isso significa uma casa temporária ou cuidados pessoais, como de beleza. “Estamos fazendo além do possível para ter certeza de que estão se sentido cuidadas e amadas”, disse Ashley Green, uma das lideranças na rede de justiça social Dream Defenders, na Florida. “Estamos levando-as para fazer os cabelos, as unhas, nos certificando de que têm um espaço adequado para ficarem, fazendo o transporte para e a partir das prisões”.

E concluiu: “Tudo que leva os pais para longe de seus filhos por muito tempo pode criar o fracasso dessas crianças”, ela disse.

Antes do incidente no trânsito, Tanisha trabalhava como enfermeira assistente. Mas como ela não era autorizada a usar seu celular na cadeia, presumiu que provavelmente tinha perdido seu emprego por conta de sua ausência. Suas crianças ficaram com o pai e o avô, longe da casa dela, de seus quartos e brinquedos. A primeira coisa que ela planejou fazer no Dia das Mães, ela disse, seria ir para a igreja. Depois disso, “lavar nossas roupas, cozinhar um jantar e aproveitar o fato de estar com meus filhos”.

“Eles têm um milhão de perguntas, querem saber onde eu estive”, ela disse. “Minha mãe costumava me dizer: ‘é fácil entrar em um problema, mas é difícil sair dele’. Vou dizer a mesma coisa para eles”.

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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