“A ideia era realmente desafiadora e para ‘me aguentar psiquicamente’ dizia pra mim mesma que o processo de mobilização seria mais importante que a Marcha, que pensei como culminação do processo. Mas  em certo momento, concordei com uma pessoa da ONU Mulheres,  de que poderia vir a ser, na verdade, uma base para impulsionar conquistas” – Nilma Bentes.

De fato, a Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília em 2015, foi um marco histórico para o movimento social e negro, que rendeu mobilizações e articulações que mantém continuidade após o evento. O relato é de Raimunda Nilma de Melo Bentes, conhecida como Nilma Bentes, ativista paraense que propôs a realização do encontro, que reuniu cerca de 50 mil mulheres negras na capital do país, e uma das principais referências e lideranças do movimento negro brasileiro desde o fim do século XX.

Nilma Bentes, uma das criadoras do CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (1980) é uma das autoras da publicação “Vozes insurgentes de mulheres negras: do século XVIII à primeira década do século XXI”. O livro traz o perfil de 24 mulheres negras brasileiras, além de seus registros escritos, teóricos, políticos, artísticos. O material está disponível para download no site da Fundação Rosa Luxemburgo.

Além da proposição e articulação para a realização da Marcha, à Nilma, engenheira agrônoma de formação, é atribuído o lema do encontro, pautado no conceito do “Bem-Viver”.  O Nós, mulheres da periferia entrevistou a ativista por e-mail e, na conversa, ela expande o termo a partir de outras referências de origens africanas e ameríndias, e fala sobre a urgência de discutir a política ambiental.

Confira a entrevista na íntegra:

Nós, mulheres da periferia: Onde você nasceu? E seus pais/familiares? Sempre viveram no mesmo lugar?

Nilma Bentes– Tudo que sei sobre meu nascimento é o que me contaram quando já estava meio grandinha. Disseram que foi em 28 de janeiro de 1948, em uma sede de um clube de futebol, no subúrbio de Belém do Pará e fui registrada como Raimunda Nilma de Melo Bentes.

Por ter sido meu pai um dos fundadores do Clube (Esporte Clube Santa Cruz), minha família morou por muito tempo na sede. Fui a sexta dos filhos de minha mãe com meu pai (seis mulheres e dois homens).

À exemplo da maioria das famílias negras daquele subúrbio, o sobreviver era um dia por vez. Meu pai (não-negro) já era motorista, quando ‘me entendi por gente’ e minha mãe (negra) era da ala das  lavadeiras, tal como minha avó, mãe dela, e cuidava de nós.

Lembro que nessa época, após os jogos do time, a as crianças lavaram  as chuteiras dos jogadores e aquele cheiro ficou, por muito tempo, entranhado; uma espécie de memória de cheiros ruins. Após as festas, lembro que ia procurar coisas que poderiam ter sido perdidas; também recolhíamos palitos de fósforos queimados, para vender para fábrica de fogos, isso era uma tarefa árdua pois tínhamos que andar quase todo tempo olhando para o chão e por um rolinho de uma centena de palitos,  pagavam muito pouco.

Lembro também que divertia os adultos imitando o dançar de alguns jogadores do clube e também teve um tempo em que fiquei com um cacoete de fazer um bico na boca, imitando um jogador de baralho – eles jogavam quase a noite toda e gente servia café para eles; naquele tempo a jogatina não era proibida.

Nossa família se mudou  muitas vezes para tentar que meu irmão melhorasse (mudar de ´ ‘ares’) ; minha avó continuava ‘lavando roupa pra fora’, para um colégio de enricados, dirigido por duas alemãs; a gente buscava leite na LBA  – Legião Brasileira de Assistência – e muitas vezes, à noite, tomávamos uma sopa que um padre chamado de Serra distribuía nas áreas de pobreza.

Depois que meu irmão faleceu, os 18 anos, nossa família, que incluía minha avó em minha tia, se mudou para um lugar que alagava quando chovia, mas era num bairro mais para o centro da cidade.

Quando criança, fiz tudo o que, naquela época, uma menina não deveria fazer: ´coisas de meninos´ e eu mesma viabilizava  meus brinquedos.

No princípio dessa época, eu comecei a estudar e aí segui direto no ensino público: Grupo Escolar Pinto Marques, Colégio Estadual Paes de Carvalho, e foi onde me tornei atleta; pratiquei todas as modalidades dos jogos secundaristas daquela época, Escola de Agronomia da Amazônia/Universidade Federal Rural da Amazônia-UFRA ; comecei a trabalhar no hoje Banco da Amazônia S/A,  quando ainda cursava agronomia e lá fiquei por 26 anos. Então, sou de fincar raízes. Fui discriminada racialmente por todo esse trajeto, portanto, tive de ‘engolir em  seco’ por muito, muito tempo; ainda sou discriminada, mas agora reajo da melhor maneira que posso.

Para colocar alguns pontinhos desse trajeto: já tive de andar a cavalo no meio da mata; já fiquei a deriva em um rio, quando enguiçou o motor da voadeira em que estávamos,  já fui numa caçada/pescaria de jacaré no rio Araguaia e me dei mal; já fui detida em um protesto num julgamento do caso dos emasculados em Altamira; fiquei presa por um dia e meio por um protesto contra colocarem um rapaz negro na mala de um carro da polícia; já apontaram e atiraram contra mim (policiais e ladrão); por pouco não pisei em uma cobra na mata; já fiquei em mata numa ultra escuridão; já estive em teco-teco perdido num temporal sobre o rio Amazonas;  já briguei com um grandão na saída do Maracanã;  já discuti com acadêmicos “medalhões”;  já fiz coisas que não faria.

Mas, já estive completamente em mim, plena de mim, em uma passeata na África do Sul; já tive muitos momentos alegres; já usufruí de uma linda aurora na restinga do rio Amazonas (o crepúsculo me entristece) ; já usufrui de um luar espetacular numa  praia de Algodoal no Pará ; tenho sido muito protegida e apoiada por muitas pessoas, algumas que nunca saberemos como o ‘destino’/’teoria do caos’, nos fez cruzar caminhos.

NMP –  Você afirmou em uma entrevista para o Geledés que é necessário dizer às pessoas que elas são negras. Como isso se deu com você? E em que momento essa consciência se tornou uma causa de luta?

NBSim, penso que por essas bandas, é visível-sintomática que tanto na população negra quanto na indígena (nesta, talvez, bem menor), persiste uma acentuada baixa autoestima coletiva, induzida pela população branca, minoritária no todo da Amazônia brasileira. Então há bastante dificuldade na mobilização para a luta e muitas vezes temos de seguir, sim, uns passos:

  • a) avisar a certas pessoas que ela é considerada negra – geralmente fica fula da vida e vai ter raiva da gente para todo sempre;
  • b) que ela é discriminada, não só por estar na pobreza ou por ser LGBTQI+,  mas principalmente porque é negra;
  • c) informar que existe racismo e que é forte;
  • d) que se deve lutar contra essa que considero a mais grave doença social do país-racismo;
  • e) e que é melhor lutar coletivamente e não sozinha.

No meu caso, fui  ‘avisada’ pela minha mãe, quando ainda criança, pois minha avó paterna  era racista de um grau relativamente elevado. Mas fui me tornando mais consciente de que deveria lutar, mais tarde. Como era desportista, ao acompanhar notícias sobre a rebeldia do Cassius Clay (Muhammad Ali-Haj), que perdeu o cinturão de campeão mundial, em 1967 e foi proibido de atuar por três anos e meio,  por ter se recusado a lutar no Vietnã.

Também ter notícias dos Panteras Negras (o gesto dos atletas Tommie Smith e  John Carlo /1968 e  de  Ângela Davis), fizeram um efeito estimulador em mim. Deixei de alisar o cabelo e quando a negritude explodiu em mim, quase perco o emprego.

Outra coisa importante foi que quando ainda estava cursando agronomia,  aconteceu um encontro de alunos e ouvi o depoimento de uma universitária negra da Bahia, que contou que ela tinha uma irmã mais velha que ela, que tinha menos melanina na pele do que ela e então, ela passou a acreditar que quando chegasse na idade da irmã, ela iria ficar da cor da irmã, mas como isso não aconteceu, ela ficou abatida; esse ‘simples’  depoimento mexeu muito comigo pois vi que em outros estados havia luta, o que não sabíamos direito. Notícias como a da criação do MNU-1978, da atuação de Abdias Nascimento, a fundação do CCN – Centro de Cultura Negra do Maranhão foram bastante estimuladoras.

NMP – Sua formação é em engenharia agrônoma. Você exerce a profissão para além do ativismo? Há relações possíveis?

NB – Quando comecei a trabalhar era estudante e só depois de algum tempo passei para o quadro técnico de agrônomos do Banco da Amazônia S/A (BASA – companhia mista).

Podem imaginar que não tive vida fácil, pois sempre havia possibilidades de demissão por ter  ‘comorbidades sociais’  (mulher negra, na área de engenharia, de enorme e forte maioria de homens e brancos).

Na verdade, até hoje, acho que nós, da população negra, vivemos numa espécie de ‘liberdade condicional’, talvez um pouco similar como viviam os ‘libertos’ – libertos, mas qualquer ‘coisinha’ era  motivo de punições.

A questão era que os empresários, muitos dos quais compravam terra a tipo a R$-20,00 (vintes reais, hoje) o hectare (o hectare!), iam aos cartórios, desmembravam parte do imóvel e voltavam ao Banco e conseguiam apoio para fazer pasto nesse ‘outro’  imóvel (desmembrado) e acabavam desmatando mais 50% desse  ‘novo imóvel’´.

Meu trabalho me permitiu que eu viajasse por muitos lugares da Amazônia e ouvi, presenciei e sofri algumas situações horríveis, sem poder fazer quase nada. Foi um tempo muito difícil pra mim, pois foi em um dos mais fortes períodos de destruição das florestas, de forma financiada já que  BASA e  Sudam – Superintendência Desenvolvimento Amazônia  foram fortes instrumentos do estado, no início dessa destruição da floresta.

A rigor, a única coisa que podia fazer eu fiz, ou seja, nos projetos que analisava exigia absoluto cumprimento do código florestal da época, no qual era obrigatório que 50% da área do imóvel ficasse de reserva florestal .

Evidente que eu fiquei  ‘mal vista’ por muitos pecuaristas e chegou um tempo em que a chefia do banco quase não me dava  projetos para analisar pois se era projeto de  ‘grande produtor ‘, achavam que eu ia prejudicar e se fosse ‘pequeno’,  achava que eu iria beneficiar demais.  Então eu comecei a escrever várias coisas ligadas ao movimento negro em alguns momentos no local de trabalho.

Lembro de uma época em que o Hélio Santos, escreveu uma artigo na revista Veja e um funcionário do Basa resolveu contestar num jornal local e passamos a ‘brigar’´ pelo jornal – ele fazia um artigo e eu fazia outro, estando trabalhando, ambos,  no mesmo prédio.

Atualmente estou aposentada e sou credenciada para fazer avaliações de imóveis rurais, mas é difícil me chamarem. Ao trabalharmos com quilombos, há algumas chances de mexer um pouco com a questão agronômica, sobretudo, nessa tentativa de se impulsionar o movimento de  ‘transição agroecológica’ em  alguns  quilombos e  também quando  de ações  junto a  Instituto de Terra e Incra (esfacelado atualmente), tenho credenciais para incidir.

NMP – Por que é importante discutir o “racismo ambiental”?

NB – Escrevi num artigo ligado a uma atividade na ALERJ – Assembleia legislativa do Estado do Rio de Janeiro, no qual disse que a primeira grande gentrificação no hoje Brasil, foi a empurrada para fora do litoral, que os portugueses colonizadores, deram na população indígena e que o Brasil já nasce etno-ecocida, porque roubou  pau Brasil  desde a invasão. Sabe-se que a categoria ‘racismo ambiental’ foi criada nos Estados Unidos; muito do nosso caminho, aliás,  se pauta por lá, mesmo que o racismo aqui seja ‘de marca’ e não ‘de origem’ como o de lá .

Sabemos que o apartheid aqui não nos vitima só na segregação espacial, fazendo a maioria de nós morar nos piores lugares das cidades e não titulando as terras quilombolas. O apartheid atinge-nos em todos os campos e nos invisibiliza  incrivelmente; aqui na Amazônia somos a maioria da população (mais de 70%), mas as autoridades agem como se não existíssemos.

Aqui também é praticado todos os racismos adjetivados: institucional, ambiental, religioso, recreativo, alimentar e outros –  numa síntese; racismo estrutural/negrofobia. Considerando que racismo ambiental é bem visível o combate ao mesmo pode ser usado como demonstração pedagógica-didática, pois mesmo que aleguem que em muitas áreas não saneadas está também  parte da população branca, nas áreas com boa ou ótima estrutura de saneamento e de urbanização, praticamente, não moram famílias negras.

NMP – Sua atuação aconteceu apenas por meio de organizações sociais? Você já participou de alguma forma de algum governo? Considera importante ocupar esse espaço?

NB – Conforme já sinalizei, nós criamos uma associação  que vem sendo de referência no combate ao racismo na Amazônia (CEDENPA). Quando se inicia um trabalho dessa natureza, nunca se sabe o que vai acontecer. Aliás, tenho dito que, além da certeza mais absoluta, que é a que vamos morrer, há outras certezas e tenho tentado veicular:

a) que todas as pessoas têm ancestralidade em linha direta: ter mãe e pai/avó-avô/bisas e aí por diante, pois podemos não ter irmãos/irmãs, primos, filhos, genros, e outros, mas, uma linha ancestral direta de mãe-pai, todas as pessoa têm; b) o óbvio: todo adolescente, jovem, adulto, idoso,  já foi feto/criança; c) temos certeza de que tudo no viver é incerto!

Nunca participei de governo, pois onde trabalhei não é considerado governo por ser  ‘companhia mista’. Sim, pelo fato da interpenetração do racismo-machismo e serem de cunho ‘estrutural’ que resulta na pobreza, acho importante participar de governo, desde que estes sejam progressistas . Deste que temos atualmente no âmbito federal (facista-racista-machista/sexista/misógino-ultra neoliberal), não há como achar importante participar. É um exagero de desserviço social!

Lamentavelmente tive de me afastar até de alguns membros de minha família – não deu pra aceitar  que alguns que dizem gostar de mim e ao mesmo tempo,  ‘fazerem campanha’ para esse crápula, esse Coiso; podem fazer o que quiserem mas não que sejam hipócritas e vir sinalizar um ‘gostar de mim’ – impossível aceitar uma grande mentira como essa. Melhor ficar longe.

 NMP  – Seu texto do livro “Vozes insurgentes” é um relato sobre a Conferência Mundial Contra o Racismo em Durban (África do Sul, 2001). Como você acha que o movimento internacional (de diáspora) pode contribuir no enfrentamento ao racismo? Você acredita que tivemos mudanças este ano, no contexto do Black Lives Matter?

NB – Olha, no âmbito internacional uma das situações que me ‘agonia ‘é que toda vez que incluem  no mesmo espaço a questão “Israel – Palestina”, as reivindicações raciais propriamente ditas, que atingem basicamente as populações negras e indígenas, “vão pra cucuia.  Então, penso que devemos insistir em que, no âmbito internacional, isso deva ser tratado separadamente.

Cabe o registro de que  fiquei honrada em ter um artigo meu ser incluído no “Vozes insurgentes”. Quem não ficaria?  Não tenho dúvida de que o Black Lives Matter  “mexeu”  (e ainda “mexe” ) nas questões aqui e talvez no mundo todo que acessa notícias dos USA, pois eles ainda são o ‘centro’ do Capitalismo mundial.  Mesmo que as diferenças entre os partidos Republicano e Democrata sejam semelhantes às diferenças entre Coca-cola e  epsi-cola (como dizem alguns e é um pouco que parecido com o que dizem sobre a  direita e esquerda aqui, quando se trata da questão racial,  não há como não mexer aqui, inclusive com a  parte da população branca um pouco mais progressista.

Tenho divulgado a ideia de que mesmo sabendo que toda pessoa branca é racista (variando de só percentual: umas 0,5 outras 99% racistas), sabe-se que nem todas são nossas inimigas (do MOVINE) e, por outro lado, mesmo sabendo que toda pessoa negra tem baixa autoestima (também variando de percentual; umas com 0,5 , outras 99%), nem todas as pessoas negras estão do nosso lado (um Sérgio Camargo da Fundação Palmares, um Holliday, um  Hélio “B”, são exemplos). Também sabemos que não se deve defender mulher só por ser mulher; umas como Margaret Thatcher, impulsionadora ferrenha do neoliberalismo, Damares, Flordelis, penso serem indefensáveis.

Uma das coisas que sinto necessidade de destacar aqui é que considero uma das maiores agressões a nossa gente, é considerar o racismo,  como um crime de baixo potencial ofensivo. Isso ‘engata na minha goela’ sobretudo quando penso, entre outras coisas, como nas masmorras da Fazenda Sta. Clara , em Minas Gerais, nos sumidouros, pelourinhos.

É demais;  até  porque somos mais de 50% da população, no momento , ou seja, mais de 110 milhões (milhões) de pessoas que têm suas vidas marcadas negativamente  desde o nascer – isso inclui literalmente a violência obstétrica que mulheres negras sofrem.

 

Brasília – Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil).

Crédito: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

NMP – Como uma das construtoras da Marcha das Mulheres Negras, em 2015, você pautou a questão do Bem-Viver. Como e onde você apreendeu esse conceito? Por que ele é fundamental na luta das mulheres negras?

NBFui a propositora da Marcha, em 2011 e, desde o momento dessa sugestão,  trabalhei, muito, muito, junto como minhas companheiras daqui, sobretudo, Maria Malcher (seria até um desrespeito não cita-la nominalmente) e também do IMENA –
Instituto de Mulheres Negras do Amapá, para garantir que acontecesse em qualquer conjuntura política, por entender que se trata uma questão estrutural e não conjuntural.

Sim, a fixei a ideia de que qualquer que fosse o número (em 2011 tinha proposto marcha de 100 mil mulheres), iríamos marchar. A ideia era realmente desafiadora e para ‘me aguentar psiquicamente’ dizia pra mim mesma que o processo de mobilização seria mais importante que a Marcha, que pensei como culminação do processo. Mas em certo momento, concordei com uma pessoa da ONU Mulheres, de que poderia vir a ser, na verdade, uma base para impulsionar conquistas.

Sim, a proposta da marcha foi apresentada já com o Bem Viver acoplado, pois foi a proposição mais adequada  que achei,  para articular a questão racial/mulheres negras, com a questão do anti-capitalismo.

O Bem Viver foi notado por mim, a quando da versão do Fórum Social Mundial que aconteceu em Belém-PA, em 2009, versão que foi, a rigor, que mais pautou as questões indígena e negra. Após a Marcha fui criticada por não ter escolhido o Ubuntu no lugar no Bem Viver. Na verdade não poderia sair de mim, àquela altura, esse caminho, até porque conhecia quase nada do Ubuntu à época e estou ‘plantada’ na Amazônia brasileira. Só estes tempos é que estou tentando aprender sobre Ubuntu e a ficar mais ‘afro’ e não só ‘negra’ (diáspora).

Por isso, venho tentando articular princípios do Bem Viver com os de Ubuntu-Florestania-Teko Porã-Decrescimento-Feminismo Comunitário/Decolonial e outras ideias similares, para tentar um caminho mais amplo e que possa ser efetivamente praticado.

Além disso, ando também apoiando a ideia de trabalhar por mudança do paradigma; hoje prevalece o do sucesso/ganha-perde, para outro que sinalize “coletivismo/ganha-ganha´, proposição que está sendo veiculada como paradigma do CUIDAR: cuidar de si (autocuidado: corpo, espírito, intelecto, etc); cuidar dos outros (incluso não só próximos mas também estranhos/migrantes); cuidar do meio ambiente /Planeta.

Essa proposta de novo paradigma creio que se afina com o “Bem Viver-Ubuntu …” e vêm  sendo difundidas sobretudo pelo Prof. Bernardo Toro, com quem tive umas poucas aulas e por Leonardo Boff (“quando amamos, cuidamos; quando cuidamos, amamos”).

Embora não concorde com tudo que os dois  veiculam, creio ser ‘boa fortuna’ ecoar esse tipo de ideia e ir pensando logo em  praticidade . Outra coisa importante a destacar sobre importância de zelar pelo planeta é a constatação de que esta fase do capitalismo está criando um  monumento deletério: o LIXO (ver prof. Marildo Menegat).  Não alimentamos mais o solo, com nossos restos orgânicos e sim só depositamos nele só LIXO (principalmente  não reciclável). Horrível!

O agronegócio solapa inteiramente o meio ambiente. Os empresários falam que gera  lucros mas não explicam que o lucro é só para eles, pois não computam as externalidades negativas (custo da poluição dos rios, efeitos do desmatamento/queimadas, na expulsão das comunidades rurais e doenças provocadas por todo o processo; quem paga as despesas de neutralizar esses problemas?

Então, por acreditar valiosos costumo divulgar de tal maneira que viram  ‘mantras’:  Não mercantilização da natureza (inclui , a rigor, tudo:  água, minérios, órgãos e os próprios humanos); não ao consumismo; sim ao coletivismo subordinando o individualismo; sim a que a ecologia deva subordinar a economia. É necessário mudar isso até porque numa grande catástrofe o que acaba mesmo é  a humanidade e outros  seres vivos e  não a Terra.  É difícil mudar? Sim, muito, muito, mas não impossível.

Voltando à Marcha, mesmo que a proposta tenha encontrado resistência, sobretudo, no início, ela não poderia acontecer do jeito que aconteceu não fosse o forte engajamento de um montão de negras lideranças e negras anônimas – não devo citar nomes pois inevitavelmente cometeria injustiças; posso citar só  forte apoio da Luiza Bairros, porque infelizmente não está mais vivente . Foi realmente um acontecimento incrível. Tive o privilégio de ter sido escolhida para servir de canal, para  fazer a proposição e não  desistir . A frase que costumo resumir a marcha é na verdade paráfrase :  “Não sabendo que era impossível, elas foram lá  e fizeram!”

NMP – Desde a Marcha, como você avalia o movimento negro de mulheres no Brasil e no mundo? Você considera que ele é diferente do movimento no qual você já atuava antes?

NB – Seria loucura eu tentar falar de movimento de mulheres no mundo, até porque sou  ‘monoglota’, mas fiquei impressionada, por exemplo, ao saber da luta das mulheres israelenses para conseguir parte de espaço no ‘Muro de lamentações’; achei uma luta forte. Também num encontro do Fondo de Mujeres del Sul, deu pra sentir  que há uma forte mobilização por aqui pela América do Sul.

Dos Estados Unidos sei apenas que a produção intelectual fervilha e cada vez mais alimenta as intelectuais do Brasil (pelo menos); assim, Angela Davis, Patricia Hill Collins , bell hooks , Audre Lorde, Kimberlé Crenshaw e outras influem bastante por aqui.

No momento, das negras ‘de fora’,  estou interessada na Franciose Vergés (que vem de  Reunião – Departamento da França), mais especificamente no livro Feminismo Decolonial – parece que vou me dar bem com as proposições dela (‘criolanizar’ tudo!?), inclusive porque parece poder dialogar com parte das ideias que exalam do Bem Viver-Ubuntu como “ descolonizar o pensamento”;  “descolonizar o  imaginário” , “descolonizar a rebeldia”.

Sei que é muito difícil descolonizar tudo isso, até porque nos comunicamos em português, língua do colonizador, mas tentar ir desmanchando a ‘colonialidade’ pode ser um processo vitorioso, inclusive se acoplada ao combate à privatização dos meios de produção ( e até do estado).

NMP – Quais são suas perspectivas no movimento negro, no movimento de mulheres, diante da atual conjuntura política que estamos vivendo?

NB – Penso que talvez a natureza inumana pode estar  usando a terceira Lei de Newton “a toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto”,  pois de tão agredida resolveu nos agredir com o Covid-19. Imagino que o movimento negro, principalmente através das mulheres negras, possa assim proceder contra os racistas,  que nos colocaram nesse terrível  nível de subalternização – vamos acabar  tendo que reagir coletivamente na mesma  intensidade dos  ataques.

Estamos em eleições municipais e estas, tudo indica, terão o maior número de candidaturas negras até então. Isso sinaliza para, no mínimo,  um aumento de autoestima coletiva da população negra – é no município onde efetivamente existimos, pois o Estado e a União/Federação são ficções políticas-jurídicas; uma pessoa só pode ocupar um lugar no espaço, embora a teoria quântica possa estar certa e até demonstrar a possibilidade de nossa ubiquidade.

Estou tentando repassar o máximo e mais rapidamente, o que tenho aprendido nas lives, pois não sei (quem sabe?) quem vai atravessar esta pandemia, a qual pode perdurar até sabe lá até quando.

Sugeri à AMNB-Articulação de Organização de Mulheres Negras Brasileiras , da qual o Cedenpa está  afiliado (e sou uma das representantes na coordenação da mesma, atualmente) que lute para apresentação de proposta de uma PEC-Projeto de Emenda Constitucional  que garanta uma reversão da representatividade política: “ Garantir que 70% das vagas/cadeiras  sejam ocupadas por mulheres, sendo que deste percentual, 40% sejam para mulheres brasileiras negras, 40%  para mulheres brasileiras brancas, 15% para mulheres brasileiras indígenas e 5% para mulheres brasileiras asiáticas (oriundas  de imigração e não das indígenas, que também são da raça amarela). Aliás vi que já tramita na Câmara algo parecido, mas difícil que seja votada a garantir a maioria das vagas para mulheres (#elesmenos).

Também estou sugerindo que cada estado faça ao afrobetização localizada, pois se isso for viabilizado, com o tempo, poderá haver a afrobetização do Brasil todo – registro aqui que o afrobetizar parece ter surgido em Minas Gerais, mas eu soube via Acre. Antes de propor a estadualização, iniciei um texto de Afrobetização Amazônica: Pretuguês amazônico (lembrando Lélia Gonzalez que reverberou frase de um africano lusófono).

A pandemia mostrou a importância da soberania, segurança alimentar e nutricional  – então estamos tentando fortalecer esse caminho,  buscando  ampliar ações que incluam a transição agroecológica em algumas poucas comunidades quilombolas.

Sobre isso, acho bom dar maior divulgação à absoluta importância do aleitamento materno. Segundo a professora Celina Valdez , foi o aleitamento materno que nos fez sobreviver, inclusive porque  no tempo das  cavernas, não havia ‘Nestlês’, nem pediatras  (ela não disse desse jeito, mas disse algo similar).

Isso fortalece bastante a posição da mulher , inclusive porque sabemos (e aí vai mais um dos  ‘mantras’  que tenho ecoado) que “ metade da humanidade são mulheres, e a outra metade são filhos delas” . Somos resilientes do tipo: “ou estou de pé, ou levantando” e parafraseando outro estímulo: “menina negra pergunta: mãe, o que é desistir ; a mãe responde; não sei filha, sou mulher negra”.

Confesso que tenho me sentido partícipe do esforço de mudança por ser basicamente, antirracista, antimachista, anticapitalista e contra outras discriminações, o inclui as contra LGBTQI+, pessoas com deficiência e outras. Então acredito no que a professora Ryzia Cardoso registrou algo que diz mais ou menos assim: “Um mundo diferente não pode ser reconstruído por pessoas indiferentes”.

A essa altura não devo deixar de ecoar também outro ‘mantra’ este, ligado à utopia atribuído talvez a Fernando Birri, mas difundida por Eduardo Galeano: para que serve a utopia:? “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Acrescento que, neste momento difícil de simultâneas crises: sanitária, econômica, climática e política, que consigamos que o tal “novo normal” não seja o “ velho normal” o qual nunca foi normal para nós , negros, e que confiemos que o que nossa luta quer alcançar está sim, antes da linha do horizonte, citado por Galeano. Não existe problemas, existe desafios a vencer – nossos antepassados sofreram mais e nos fizeram sobreviver.

Axé! Ngunzo!

 


Este conteúdo integra a série de perfis de autoras e intelectuais negras, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo. As perfiladas têm algo em comum: são autoras do livro ‘Vozes Insurgentes de Mulheres Negras‘, organizado pela jornalista e escritora Bianca Santana e publicado pela Fundação.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.