Este conteúdo faz parte do especial #Deixaameninajogar produzido em parceria com o Portal Lunetas e o Think Olga

Marineide Santos Silva, a mulher que coloca 700 pessoas para correr nas ruas do Capão Redondo

Crédito: Divulgação / Vida Corrida

A capital paulista não investe em espaços para a prática de esportes. E chegar a tal conclusão é fácil. Basta olhar o mapa do Observatório Cidadão, disponibilizado pela Rede Nossa São Paulo. Dos 96 distritos da cidade, 60 estão na pior classificação em relação ao número de equipamentos públicos municipais esportivos para cada 10 mil habitantes. O Capão Redondo é um dos bairros da lista, mesmo lugar onde Neide Santos começou a virar esse jogo.

Seu nome completo é Marineide Santos Silva e sua história começa em Porto Seguro, Bahia. Era lá que, quando criança, sem nenhum equipamento eletrônico, brincava de pega-pega, amarelinha, pula corda e de subir em árvores. Aos 14 anos, em 1967, veio morar com sua mãe nos cortiços das periferias de São Paulo em busca de um futuro próspero. Sua vida era trabalhar e estudar, ao mesmo tempo.

O Capão foi o território que a acolheu  e o termo “correria”, gíria muito usada na terra da garoa para conotar “falta de tempo”, define bem o cotidiano de Neide na época. Correr era o que ela sempre gostou de fazer, desde criança, e foi o que ela continuou fazendo nas horas vagas, mesmo casada e com um filho. Aos 20 anos, Neide perdeu seu companheiro assassinado pela polícia na região em que morava.

Passados alguns anos, casou-se novamente e tornou-se mãe de mais duas crianças. As corridas continuavam, pelo bairro ou em maratonas. Foi em 1999 que um pedido mudou a rota de sua vida. Maria Gonçalves, uma vizinha, também nordestina e já chamada por ‘senhora’ neste período, disse para Neide: “Minha vida está toda errada. Me ajuda? Eu quero praticar algum esporte”.

O erro que dona Maria se referiu, neste caso, era o sedentarismo e a falta de espaços para atividades físicas em seu entorno. “Ela já era uma atleta, costumava caminhar 6 km para ir à lavoura, trabalhava na enxada e voltava novamente para a cidade. Quando chegou em São Paulo foi trabalhar de costureira atrás de uma máquina”, contou Neide durante uma palestra em 2015.

Em 2012 a iniciativa completou 13 anos, atendendo mais de 230 participantes

Crédito: Divulgação / Vida Corrida

Então ela tomou uma decisão: usar seus 15 dias de férias para treinar um grupo de seis mulheres, um dos objetivos era levá-las para a São Silvestre, a maior competição de corrida de rua no Brasil. Uma quinzena depois, esse número subiu para 30. As corridas sempre aconteceram no Parque Santo Dias, no Campo Limpo, bairro vizinho.

No mês de setembro dos ano 2000, um choque. Marc, seu filho mais velho, foi assassinado após um assalto. Ele, que também corria, sempre dizia que a mãe deveria trabalhar com crianças. Mas não era o seu foco, preferia se dedicar para as mulheres. Após essa perda, que também aconteceu no Capão Redondo, ela paralisou o projeto e saiu do bairro.

Em entrevistas ela diz que quem tirou a vida de Marc foi uma criança. Impossível não se remeter ao pedido do filho, ainda em vida. Foi por isso que a distância da zona sul durou pouco. “Eu pensei: vou voltar, lá é o meu canto. E quem sabe eu consiga mudar uma criança com o esporte. Porque quem assassinou meu filho foi uma criança. Se eu fizer a diferença na vida de uma criança, ficarei feliz”, disse ao canal People of Change.

Intitulado Vida Corrida, o projeto não só continuou, mas cresceu muito. Em 2009, recebeu o prêmio “Mulheres Virando o Jogo no Esporte”, desenvolvido pelo Changemakers, em parceria com a Nike. A iniciativa foi reconhecida como a melhor do Brasil para inclusão de meninas e mulheres no esporte.

Em 2012 a iniciativa completou 13 anos, atendendo mais de 230 participantes, sendo que 87% eram mulheres e meninas com idade entre 4 e 80 anos. Hoje, em 2019, são mais de 700 pessoas correndo e recebendo treinamento no mesmo lugar: o Parque Santo Dias.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)

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