A pesquisa recém-publicada “Potências (in)visíveis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho” é um dos maiores levantamentos já realizados no Brasil sobre o tema de inclusão racial e de gênero no mundo corporativo.

O trabalho é resultado da parceria entra a consultoria Indique uma Preta e a empresa de pesquisa Box1824.

Organizada no período de seis meses, a pesquisa não somente denuncia as dificuldades para a inserção das mulheres, como também destaca a necessidade de aprimorar ações afirmativas para ambientes de trabalho mais diversos.

Os dados compilados são resultado de entrevistas com mais de mil mulheres negras de todo o país.

Vale destacar que a pesquisa compreende o período de pandemia do coronavírus e, portanto, um momento de crises econômica e social mais aprofundadas.

Sub-representação

Segundo o estudo, “apesar de representarem a maior força de trabalho no país, a população negra segue sub-representada no mundo corporativo”.

As mulheres negras compõem 28% da população brasileira. Juntos, negros e negras representam 54,9% da força de trabalho do Brasil e 57,7 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE. No entanto, são também os representantes mais comuns entre os profissionais desocupados e subutilizados.

Análise qualitativa

Potências (in)visíveis” aborda a realidade da mulher negra também sob uma perspectiva qualitativa, com base em entrevistas com especialistas, invasões digitais e pesquisa de futuro pela Box1824 e Indique uma Preta.

Serve, então, não somente como uma fonte de dados sobre o tema como também aponta quais são os problemas que contribuem para a atual realidade.

Um exemplo que consta na avaliação da pesquisa é o conhecido sistema de indicações, que de modo geral privilegia a contratação de pessoas brancas, conhecidas ou próximas dos profissionais nos mais altos cargos.

Inclusão racial em um sistema branco

Mesmo nas empresas que adotam ações afirmativas de inclusão racial, a questão hierárquica ainda é branca e maior parte dos cargos para pessoas negras são para assistentes ou analistas juniores.

Das trabalhadoras negras entrevistadas para o estudo, 54% não exercem trabalho remunerado e 39% delas dizem estar procurando emprego no atual momento.

Outro dado aponta que 72% das mulheres negras não foram lideradas por outras mulheres negras nos últimos cinco anos de trabalho, contra 28% que foram.

De todas as mulheres negras entrevistadas, nenhuma é CEO e apenas 2% é diretora no atual trabalho.

Apenas 3% delas são gerentes, 3% de supervisoras ou coordenadoras, 3% de sócias ou proprietárias, 8% de analistas, 18% de administrativo ou operacional, 23% de assistente ou auxiliar e 5% de estagiários e trainees.

“Mesmo que a pessoa tenha experiência, ela necessita percorrer um caminho de enfrentamentos para ocupar cargos maiores”, aponta Malu Rodrigues, pesquisadora cultural e estrategista de conteúdo da Box1824.

A pesquisadora ainda indica que “em grande parte, o trabalho de inserção não atinge as camadas mais vulneráveis, deixando-a na base da pirâmide, onde há apenas trabalhos informais ou oportunidades autoprojetadas”.

“Esse fato corrobora para a permanência da mulheres negras em situação de vulnerabilidade”, afirma.

É preciso rever ações afirmativas

Verônica Dudiman, da Indique uma Preta, frisa que nas empresas em que programas de inclusão são adotados, “os primeiros beneficiados ainda são aqueles que já estão na ‘frente’, como pessoas de outros grupos minorizados, mas ainda assim brancas”.

Ela alerta que verificando “as metas estabelecidas por grande parte das empresas brasileiras, a mulher negra fica para o final da fila”.

Construir estruturas inclusivas

O estudo demonstra que as empresas que pensam a presença da mulher negra nos negócios conseguem elevar sua potencialidade econômica e estratégica ao nível máximo.

Para tanto, “Potências (in)visíveis” identificou três perfis profissionais que podem movimentar a presença e potencialidades das mulheres negras dentro das empresas: o incentivador, o catalisador e o transformador.

Esses perfis atuam desde a base, com a conscientização sobre a importância da inclusão racial no espaço corporativo, até os postos de decisão, para intervir e avançar diretamente e estrategicamente nos investimentos em capacitação e representatividade para este setor em cargos mais elevados.

Acesse a pesquisa completa

O estudo completo “Potências (in)visíveis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho” pode ser acessado via o site do projeto.

O trabalho desenvolvido pelo Indique uma Preta e a Box1824 faz parte de uma série de iniciativas de incentivo ao comprometimento, no mercado de trabalho, de forma estratégica com o tema de diversidade e inclusão.

 

Leia também

“Não aceitamos ganhar menos”, diz coletiva negra em carta aberta

Temas: