“Eu amo janela grande e ficava imaginando que deve ser uma droga morar em um lugar que não tem janela, não tem luz do sol entrando”. Foi esse pensamento que fez a diretora, filmmaker e fotógrafa Karoline Maia, 26, dar o nome “Aqui não entra luz para seu primeiro longa-metragem, um documentário sobre as relações sociais e arquitetônicas entre o quarto da empregada e a senzala.

O filme, que investiga as relações de trabalho construídas no ambiente doméstico desde o Brasil colônia até os tempos atuais, está com uma campanha de financiamento coletivo que se encerra no dia 11 de julho. A verba arrecadada pretende garantir o processo de montagem e finalização do longa, além de sua distribuição, prevista para o ano de 2021.

Cena do filme “Aqui não entra luz”, dirigido por Karoline Maia

Crédito: Divulgação

Segundo Karoline, que é do Jardim Helena, zona leste da capital paulista, a ideia surgiu em 2016 como um projeto de instalação. Mas foi em 2018, com o apoio do programa Rumos, do Itaú Cultural, que ela conseguiu formar uma equipe para a produção e gravação do filme.

“Eu já tinha um sonho de produzir um documentário em longa-metragem e, a partir de algumas experiências minhas, infelizmente racistas, este tema me provocou a produzir o filme. Na minha família tem empregadas domésticas, então é um universo muito presente na minha vida”, conta.

Sob a coordenação da historiadora Suzane Jardim, a pesquisa teve início a partir de um formulário divulgado nas redes sociais com o objetivo de recolher informações sobre imóveis que tinham espaços reservados para empregadas domésticos.

“Conseguimos chegar a uma diversidade interessante, com diferentes classes sociais: alta, média, baixa, condomínios de luxo, casas, apartamentos. Por meio do formulário, mapeamos alguns lugares para visitar e selecionar quais seriam gravados. Algumas pessoas nem entenderam o que a gente estava fazendo, mas autorizaram”, relata a diretora.

Após a fase da pesquisa, a equipe, formada exclusivamente por mulheres, sendo a maioria negra, visitou e gravou espaços em cinco estados diferentes, em 2019: Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

“A gente filmou várias senzalas e casas grandes. No Brasil colonial já existia trabalho doméstico e a senzala doméstica. O quarto de empregada é uma extensão desse tipo de moradia, leva a trabalhadora doméstica para dentro da casa. A empregada doméstica abre mão de sua vida e passa a viver em função da vida dos patrões. A expectativa é estar ali, a qualquer momento, para servir”.

Galeria

Durante o processo de gravação nos diferentes estados, a diretora constatou que a maioria dos espaços segue o mesmo padrão. “Os lugares são semelhantes: a entrada de serviço, o fundo da casa, um lugar isolado, com pouca entrada de luz, estratégico para o patrão, do lado da cozinha e da área de serviço”, explica.

“Independente se é casa ou apartamento, o lugar reservado é sempre escondido. Há diferença nas mobílias. Enquanto a casa é super bem cuidada, no quartos tem móveis mais velhos, pouco cuidados, uma pouca atenção por ser um espaço social em que a família não convive, vale menos na casa”.

Karoline acredita que, diante da pandemia causada pela Covid-19, a discussão sobre o trabalho doméstico se fez ainda mais relevante e atual, já que, durante a quarentena, esse conflito mal resolvido no Brasil sobre o trabalho doméstico ficou ainda mais explícito.

“Tanto por esses casos tenebrosos, como a morte do Miguel, a primeira morte no Brasil de uma empregada doméstica [em decorrência de Covid-19], até a mulher que foi encontrada em Pinheiros. A gente vê também o outro lado dessa história, que são as pessoas ricas, famosos, por exemplo, que estão limpando sua própria privada, e que estão publicando isso como se fosse um tipo de coisa que devesse gerar algum orgulho, uma homenagem por estar fazendo isso”.

“Nesse momento ficou mais claro o quanto as trabalhadoras domésticas precisam ser mais valorizadas, porque existe uma revolta por não terem essas profissionais e existe um grito desde sempre dito por essas mulheres. Quando a gente olha para esses casos horríveis, de violência, extremos, como a pessoa morrer, a pessoa perder o filho porque não foi dispensada do trabalho, a gente percebe que demorou a dar atenção para essa pauta”.

Não tem como a gente no Brasil falar de luta antirracista sem incluir as trabalhadoras domésticas, sem incluir o trabalho doméstico nessa pauta. Trabalho doméstico realizado por mulheres negras.

Formada em Rádio e TV, Karoline Maia já co-dirigiu as webséries “Cultura das Bordas” e “Nossa História Invisível” e os curta-metragens “Por que preciso voltar à escola”, “Do Amor à Cura” e “Elas abriram o caminho dançando”. “Aqui não entra luz” será sua estreia em longa-metragem.

Segundo a cineasta, apesar de haver produções sobre o trabalho doméstico, ela cita como exemplos “Domésticas – o filme” (Fernando Meirelles, 2001), “Domésticas” (Gabriel Mascaro, 2012), “Que horas ela volta?” (Anna Muylaert, 2015), assim como muitos curtas independentes – Filhas de Lavadeiras (Edileuza de Souza, 2019), Mucamas (Nós, Madalenas, 2015), dentre outros – seu documentário é um dos primeiros produzido e dirigido por pessoas negras.

A diretora Karoline Maia e a equipe do filme “Aqui não entra luz”.

“Acho que o filme tem outro ponto de vista. Acho que muitas ‘Jéssicas’ vão querer fazer os filmes delas, começar a competir nas narrativas sobre as trabalhadoras domésticas. As outras narrativas não dão a complexidade que elas merecem, ainda estão dentro de um imaginário racista.

É uma história muito negra, muito periférica, a do trabalho doméstico.

Há muitos anos os cineastas negros estão disputando esse lugar, eu estou nessa disputa, de mais uma cineasta negra, porque ainda temos pouca projeção”, conclui.

 

 

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

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