Este conteúdo integra o especial “Racismo Ambiental: mulheres indígenas e quilombolas na proteção de seus povos contra a Covid-19

Marisqueira, pescadora e quilombola. É assim que Eliete Paraguassu, 40 anos de idade, se  apresenta e também a Comunidade Porto dos Cavalos, um dos cinco quilombos que existem  dentro da Ilha de Maré, na parte central da Baía de Todos os Santos, a cerca de 21,5 quilômetros de Salvador (BA). 

Ao fazer uma busca no Google no nome, são as praias límpidas e azuis que formam o cartão postal que, anualmente, atrai milhares de turistas. Atrás disso, no entanto, mora um monstro invisível: as indústrias petroquímicas, química e petrolífera, como Petrobras e Refinaria Landulpho Alves, que poluem as águas, contaminam o ar com seus gases e a população local. 

É essa situação que faz mulheres como Eliete não terem tempo para o descanso. Desde 1990, a ativista atua na defesa do meio ambiente e hoje integra o Movimento de Pescadores e Marisqueiros, além da Articulação Nacional das Pescadoras e o Movimento de Pescadores e Pescadoras.

Sua luta começou por uma necessidade. Eliete é mãe de uma das meninas inseridas no índice de contaminação por metais pesados da Ilha de Maré, como cádmio e mercúrio. Quando isso aconteceu, a pescadora foi fundo na pesquisa da professora Neuza Miranda, que recebeu um prêmio em 2013 por expôr o alto índice de contaminação das crianças do quilombo. 

“A pesquisa de Neuza Miranda fez com que eu entrasse para a defesa do território. Enquanto mãe, mulher preta, enquanto marisqueira, mulher das águas, mas mais, nesse caso, enquanto mãe, na defesa da vida das pessoas do território”, conta Eliete. 

O medo da Covid-19

A população, que vive essencialmente da pesca e da agricultura, está impedida de vender os produtos de onde tiram o sustento, evitando, assim, a exposição e perigo de contaminação. Mas o medo em pegar a Covid-19 não dá trégua, já que a comunidade assiste indignada a vinda de turistas e a chegada de pessoas da cidade que escolhem o local para se proteger da doença global. 

“Estamos confinados, de quarentena, mas a cidade continua vindo para o território, então, fazemos uma luta para dizer que o Estado precisa montar uma barreira sanitária de defesa para que a cidade não venha ao território. Se o estado não tem condições de dar uma assistência de saúde, de base pro território, eles deveriam tentar fazer essa proibição dos outros chegando “, pontua, com preocupação. 

Boa parte da população é formada por idosos e outro tanto também é grupo de risco, porque sofre de doenças respiratórias causadas pelo próprio complexo industrial instalado na comunidade. 

“Estamos muito preocupados, porque a população de Ilha de Maré é asmática, muito por conta da exposição química das empresas. Possui doenças crônicas como diabetes. É um território que tem um traço de anemia falciforme e o território que vive uma vulnerabilidade muito grande por conta desses empreendimentos que nos cerca”.

Eliete é firme em suas denúncias. Segundo a pescadora, a prefeitura de Salvador e o governo do estado deveriam ter um olhar diferente para a região. “Primeiro porque é um território quilombola  tradicional que o Governo Federal injeta todo mês dinheiro para que o estado trabalhe especificamente com essas populações, é esse mesmo Estado que recolhe o dinheiro não repassa [a verba]”.

O descaso e falta de direitos

Quando perguntada sobre como a pandemia já vem afetando seu povo, Eliete para e diz “até me arrepia essa pergunta”. A ativista conta a tristeza e a angústia em ver o descaso do poder público em relação ao seu povo. “Em um momento desse, que é muito mais difícil do que outros, o descaso continua do mesmo jeito, e ainda é pior o tratamento que o poder público tem com essa comunidade de pretos e pretas”.

Assim que a pandemia tomou maiores proporções e chegou ao estado baiano, a população e movimentos organizados logo trataram de organizar uma série de perguntas sobre a situação específica de Ilha de Maré. Nunca tiveram retorno. 

“A gente não teve direito à informação. Na verdade, a gente já vive confinado mesmo, muito por falta da política pública adequada”, diz a pescadora, que conta apenas um Posto de Saúde da Família para toda a população. Situado na maior comunidade de Ilha de Maré, Praia Grande, abre às 10h e fecha às 15h, e mal consegue atender os que vivem nos arredores. “Imagina para toda a população”, reflete Eliete. 

“A prefeitura não nos enxerga como sujeito desse direito, e nega o direito à informação, que é o mais básico do básico. Não tivemos direito às políticas emergenciais que a prefeitura fez, de direito a auxílio de trabalhadores informais. Nós somos trabalhadores informais”, completa.

Racismo Ambiental

Para Eliete, isso tudo se explica de um jeito: o racismo. “É o racismo porque, além da gente enfrentar o racismo, esse racismo porque é um povo preto, a gente também enfrenta um racismo ambiental. Porque tudo que não presta, todos os produtos são lançados nesses territórios”.

Três dias antes de nossa conversa, Eliete e seus vizinhos haviam vivido um momento de completo de desespero diante  do cheiro de gás e amônia que impregnado em toda a comunidade, que suspeita que seja o efeito de alguma das indústrias presentes na região. 

“Eu estava em desespero, assim, todo mundo num desespero, um corre-corre, porque ninguém suportava o cheiro forte de gás de cozinha, a gente achava que era gás de cozinha”. 

A comunidade já tem realizado diversas denúncias por meio Conselho Quilombola e Ilha de Maré e pela Colônia de Pescadores — por ser um território exclusivamente tradicional, sendo quilombola e pesqueira — com o objetivo de chamar atenção do poder público com o descaso causado pelas empresas.

As mulheres abandonadas duas vezes

Em um território pesqueiro, as casas são coordenadas pelas mulheres. Mas no mundo da pesca, assim como em muitos outros, é muito comum que os homens abandonem suas companheiras,que acabam criando seus filhos sem esse apoio. 

“Essas mulheres são os homens e as mulheres da casa. Mulheres que educaram e sustentaram seus filhos sozinhas. Sete, onze filhos. Então, nesse momento, está sendo muito difícil ela manter a casa sem trabalhar sozinha  com esses filhos todos”, conta Eliete, que enxerga com tristeza esse momento, já que a comunidade sobrevive também à base da troca de produtos e agora não é possível esse escambo por conta do isolamento social. 

“É um conjunto de elementos que pra gente é tão perverso esse descaso sobre nossos corpos. É uma perversidade. A gente chora”.

“Estamos entregues aos Orixás”

A preocupação de Eliete é com os turistas e gente da capital que adentra o território de madrugada, realidade vista também na região do Sul do Estado, segundo narram outros povos parceiros da pescadora. 

“Isso está em todos os territórios. Está muito complicado a gente viver desse jeito. Mas a gente está mesmo entregue à sorte e às forças dos Orixás, de Deus que está aí nos protegendo”.

Diferente de alguns grupos religiosos que negam a pandemia e colocam apenas nas mãos de Deus, Eliete não tem escolha. Diante da omissão do Estado, é nas mãos das divindades que crê que coloca seu povo, mas sem deixar de erguer sua voz contra as injustiças. 

O pedido aos Orixás não é deslocado do trabalho é proteção diária dessas mulheres é homens às águas. 

“O povo de santo depende muito das águas para as oferendas. As fontes de águas são referências nos territórios porque foi na fonte que a gente criou um laço muito profundo de sobrevivência a partir da água. A pesca nas marés possuem uma relação ancestral, cultural é uma relação da sobrevivência. O cuidado com o meio ambiente, a defesa do território, das águas, num é só uma relação de trabalho”, finaliza. 

 

Temas:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *