Caroline Luz é arte-educadora, tem 23 anos, assina seus trabalhos como “Caluz”, e mora na Vila Constança, na zona norte de São Paulo. Começou no grafite em 2013, trabalhando na periferia, na Fábrica de Cultura do Jaçanã, onde deixou sua marca. “Gosto de pintar em tudo, com todos os materiais, e adoro gravura também, mas os suportes que utilizo mais é acrílica sobre tela e aquarela. Nada mais justo do que ‘devolver’ as experiências recebidas em forma de arte, uma arte não elitizada, mas na rua para todos”, diz.

Sua inspiração está em mulheres do dia a dia a outras referências de luta e resistência. “Me inspiro em várias mulheres fortes, como minha mãe, por exemplo, que foi mãe solteira super jovem, entre outras mulheres que pra mim, são como sábias e anciãs e que não estão nos livros. E claro algumas que estão também como as mulheres zapatistas do México, Carolina Maria de Jesus, junto várias referencias de luta, resistência e de amor e tento transparecer pelo meu trabalho”, explica Caluz.

Por tudo isso, Caroline Luz se considera feminista. “Eu sou feminista, eu acredito que o feminismo ajudou muito a mim mesma a ter confiança e a enxergar o machismo ao meu redor e como ele agredia minha auto estima de forma bem sutil”. Para ela, ser uma mulher da periferia tem batalha e amor. “Pra mim ser uma mulher da periferia é ser uma guerreira e lutar com amor as batalhas que a vida traz pela frente. Pelo menos quase todas historias de mulheres periféricas que conheci são historias de batalha mas de muito amor, principalmente pelos seus filhos”.

Caroline Luz Caluz foto facebook

Crédito: arquivo pessoal

Explicando suas origens, Caroline conta como sofreu e enfrentou o preconceito com seu cabelo. “Minha origem é de descendência negra e indígena, porém eu sei que segundo a teoria do colorismo, por ter a pele um pouco mais clara, não considero que tenha sofrido racismo como, por exemplo, uma mulher negra de pele mais escura. Porém sofri muito preconceito com o meu cabelo crespo na época da escola. Tanto que fiz todos os tipos de química no cabelo a ponto de até cair, criar ferida na cabeça, enfim me libertar disso foi um encontro com uma identidade ancestral que tinha sido alisada na chapinha”, confessa.

“Isso também aconteceu com meus desenhos. Já falaram que a minha personagem estava ‘escura demais’ se não podia fazer ela mais clara. Sempre ouço também “nossa ela é moreninha né” — “Ela é negra!”. Sobre suas obras que muitas vezes mostram corpos femininos nus ela explica sobre assédio e machismo. “Muitas vezes, o corpo feminino é muito erotizado. Então, mesmo que o grafite seja uma poesia urbana, que não tenha nenhum cunho sexual, qualquer curva da mulher, apenas um seio a mostra, tudo vira erótico na rua, aonde todos podem opinar sobre o que estão vendo. O machismo está enraizado na sociedade inteira e isso reflete muito na cena do grafite, hip hop.

A temática escolhida para estar nos muros da cidade, faz com que, muitas vezes, seu trabalho como artista seja visto como de “menininha”. Mas ela conta que vem se fortalecendo cada dia mais com a união das mulheres da cena do grafite atualmente.

Seus grafites podem ser encontrados em vários lugares da cidade. Boa parte na zona leste, onde ela já morou, na região da Penha, Vila Matilde. Na Zona Norte, onde mora atualmente, é onde estão a maioria, nos bairros de Tucuruvi, Jaçanã , Vila Constança, Tremembé, Vila Albertina, Jova Rural, Vila Nova Galvão, Vila Zilda. Em outras cidades como Guarulhos, Mairiporã. E em outros estados como Fortaleza e na Bahia, onde fez uma ação na Casa de Cultura de Porto Seguro.

Crédito: arquivo pessoal

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