“Meninos não choram, fale como um homem, isso é brincadeira de menina, isso é coisa de mulherzinha”. Todas estas orientações fazem parte do cotidiano de meninos, de meninos negros e periféricos que crescem tendo que responder a um ideal de masculinidade. São elas também, as responsáveis por reproduzir machismo e violência de gênero.

Mudar a maneira como os garotos são educados pode ser um ponto de partida em busca de novas masculinidades, na contramão da atual, marcada por violências.

  94,4% das vítimas dos homicídios por arma de fogo no Brasil são homens. 79,31% dos mortos em acidentes de trânsito no estado de São Paulo foram homens. 45% dos feminicídios estão relacionados a homens que não aceitam a separação.

Rafael Cristiano é um homem negro de 25 anos que descobriu sua sexualidade e ficou incomodado com seu não-lugar na masculinidade hegemônica. Nascido e criado no Cantinho do Céu Grajaú, zona sul de São Paulo, ele trabalha como ator e também designer gráfico. Sua vivência e pesquisa o inspiraram em um estudo sobre masculinidades negras e periféricas.

 

Rafael Cristiano tem 25 anos e é ator e designer.

Crédito: arquivo pessoal

Em 2017 ele foi convidado pela Biblioteca Caminhos da Leitura para uma vivência com meninos de escolas públicas da região de Parelheiros, zona sul da cidade de São Paulo. O trabalho proposto era repensar a masculinidade de uma forma positiva, analisando letras de funk e rap e situações cotidianas com a molecada.

“É uma discussão urgente porque somos nós a lotar as cadeias, somos nós a bater, matar e estuprar mulheres e LGBT,s.

 

 

 

 

 

 

“A biblioteca realiza trabalhos de gênero com o foco em empoderar as mulheres e meninas da região há um tempo e percebeu a necessidade de começar a trabalhar também com os meninos, já que eles não avançavam. As meninas já estavam em um outro grau de discussão, mas o machismo e a violência de gênero ainda continuavam, já que não havia uma ação voltada para os garotos”, explicou Rafael ao Nós, mulheres da periferia.

Desde então, ele vem fazendo estes encontros em vários espaços da periferia de São Paulo com meninos. O mais novo projeto é a série de encontros “Masculinidade Quebrada”, que acontece no CEU Vila Rubi. O primeiro encontro tratou do tema História da Masculinidade. (Fique de olho na página para saber dos próximos)

“Acho que a ideia de SER homem, a ideia de SER gente no Brasil, ainda hoje, é uma ideia branca, uma ideia que a gente, enquanto povo colonizado, comprou. Então, para você ser homem, existe uma série de performances que é preciso exercer na sociedade para ser lido como tal”, declara Rafael sobre os ideiais de masculinidade que construímos.

O modelo ideal de homem tem dinheiro, tem mulher, é bom de esporte, entre várias outras coisas grandes e miudezas cotidianas. O problema é que como os meninos negros e periféricos alcançam esse ideal?

Para o homem negro e periférico, os caminhos são escassos dentro de uma periferia como o “Os lazeres, as profissões, as maneiras de ganhar dinheiro vão se dando na marginalidade. E depois a gente pega esse homem, que tenta inconscientemente alcançar esse ideal de ser homem na sociedade e joga ele dentro de uma cadeia, pra tirá-lo dessa sociedade”, lamenta. Já diria Racionais M’cs que

frustração é máquina de fazer vilão

 


Confira dois relatos escritos por Rafael sobre alguns dos encontros

  • Masculinidades; possibilidades & diversidade 
  • Roda de masculinidade em uma escola estadual no Grajaú, sala com uns 30 meninos de 14  a 16 anos

“Nós desce pra pista pra fazer o assalto,
Mais ta fechadão no doze,
Se eu to de rolé 600 bolado,
Perfume importado pistola no couto,
Mulher ouro e poder,
Lutando que se conquista.”

Essa é uma música do MC Orelha, chamada faixa de Gaza, e foi com ela que abrimos a primeira roda de masculinidade na Escola Estadual Lucas Roschel Rasquinho no bairro Colônia. A primeira questão foi para que os jovens identificassem na letra o que era característico de homem nessa música, e as respostas mais comuns eram, mulher, dinheiro, e por último o crime. “Crime é coisa de homem tio.”

Quando eu perguntei quem na sala conhece um homem que está preso, quase toda a sala (que tinha cerca de 30 meninos) levantou a mão. Eu questionei se caso a mesma pergunta fosse feita em uma escola particular se a resposta ia ser a mesma e ouvi um uníssono: NÃO.

Pra falar de masculinidade periférica, é necessário percebermos quais narrativas os homens periféricos já criam e criaram nas quebradas, o funk e o rap são as mais populares entre os jovens.

Essas narrativas segundo eles mesmos contam o dia a dia do homem periférico (uma fala feita assim que acabou Negro Drama dos Racionais).

Dentro da sala, se destacou um menino negro que disse entre risos: “Preto é assim, preto é suspeito de tudo, se sai na rua com um amigo branco é suspeito de sequestro.”

Do que falam esses meninos? Seja através das músicas que escutam ou das próprias vivências e brincadeiras?

Quando questionei se era coisa de homem bater em mulher a sala num coro respondeu com veemência: “NÃO.”, perguntei se era senso comum entre os homens isso, e todos responderam que sim, quando o dado de que o Brasil é o 5º país que mais mata e agride mulheres no mundo, a sala se silenciou… Pra mim masculinidade é isso, é esse silêncio incomodo de admitir que há uma falha em ser homem nos dias atuais.

Precisamos rever e insistir nos nossos meninos e jovens, existe um lado fraco dessa corda, que “Cumprir a palavra é coisa de homem” não cobre.

Eu de novo colocando meus pés dentro de uma escola pública, a mesma que foi motivo de algumas alegrias, mas de tantas opressões pra mim. Eu sempre me tremo um pouco ao ficar na frente daqueles meninos que há uns 10 anos atrás poderiam estar direcionando as piadas, os xingamentos e os socos pra mim, um tremor que passa logo que me lembro que agora sou outra pessoa, em outras condições.

Início da roda, toco Negro Drama, e Faixa de Gaza para juntos criarmos um homem (O que precisa ter ou ser pra ser um HOMEM.), nesse momento não existe certo ou errado, juntos vamos construindo um homem imaginário ou extremamente e cruelmente real(?), damos o nome de Cleyton. Pergunto se o Cleyton seria o mesmo se a roda fosse em uma escola particular no Morumbi, e a resposta uníssona: NÃOOOOO.

Por fim pergunto se Cleyton precisa ser repensado, se o modelo de homem precisa ser repensado, e a resposta: UM GRANDE SIM. Sempre tento construir junto à eles o meio no qual estamos inseridos, pergunto quem conhece um homem preso, e a sala toda levanta a mão, pergunto quem já agrediu mulheres ou homossexuais, e quase ninguém levanta a mão

(E a gente sabe a real, e eles também). Apresento o Brasil à eles, como o país com a terceira massa carcerária do mundo (em sua maioria homens negros), o Brasil como o 5° país que mais mata, agride e estupra mulheres, e o 1º que mais mata transsexuais e é hostil à homossexuais. Pergunto o que tudo isso tem em comum, e alguns arriscam: O Cleyton?

A roda segue e foi incrível, aprendo com esses muleks. Na foto uma lista do que eles precisam esconder pra serem homens. Uma lista que os acompanha do nascimento à morte.

Na minha cabeça a imagem de sete mãos levantadas, SETE, quando perguntei quem era homossexual. Eu Rafael, quieto admirando a coragem daquelas mãos cortando o ar, e sabendo a dificuldade de ser o “viadinho” da turma em escola pública. Penso: essa roda é minha vingancinha pessoal, por mim, por essas sete mãos levantadas, e pela roda de meninas que está rolando na outra sala.

O BAILE SEGUE.

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Em 2017, Rafael conversou com o Periferia em Movimento sobre ser homem preto e periférico. Confira!

 

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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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